Para nada escapar

1,29 milhão: esse é o numero de veículos circulando em Belo Horizonte, de acordo com dados de 2010, do Departamento Nacional de Trânsito. Em apenas dez anos, o número de veículos praticamente dobrou na capital. Quem pega o trânsito todo dia sente na prática esses números: tráfego intenso, lentidão e dificuldades para encontrar vagas para estacionar.

Enquanto está todo mundo parado no trânsito, a emissão de poluentes no ar não para. De acordo com a gerente de Gestão da Qualidade do Ar e Emissões da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), Elisete Gomides, praticamente 100% da poluição atmosférica produzida em Belo Horizonte se deve à frota de veículos e o que é lançado na capital também interfere na qualidade do ar de outras cidades, como Contagem e Betim. As consequências vão desde doenças respiratórias ao agravamento do efeito estufa. E assim como o problema, as soluções para a poluição atmosférica em BH são complexas.

Peças diferentes...

Os veículos não poluem da mesma forma. De acordo com a gerente de Fiscalização e Controle da Poluição Veicular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Bernadete Gomes, o tipo de veículo, a idade da frota e o combustível utilizado interferem no grau de poluição. Veículos movidos a diesel - combustível com alto teor de enxofre - como ônibus e caminhões, são os maiores poluidores. Normalmente são eles que estão há mais tempo em circulação, o que agrava a poluição. "Caminhões tem 30, 40, ou mais anos. Quanto mais velho o veículo, se não for dada a manutenção adequada, mais ele polui", explica Bernadete.

Veículos de passeio também podem se transformar em grandes vilões. O aumento do número de carros nas ruas faz com que o trânsito não flua adequadamente e trânsito parado significa mais gases que saem dos escapamentos. Além disso, os carros precisam ser vistoriados com freqüência para garantir que permaneçam emitindo menos poluentes.

... precisam de engrenagens

"Precisamos diminuir o número de veículos que está rodando e usar mais combustíveis limpos, como o álcool por exemplo. Outra questão está relacionada à manutenção dos veículos". Essas são as soluções apontadas por Elisete Gomides, da Feam. Ano passado, a Feam lançou um Plano de Controle de Poluição Veicular de Minas (PCPV), que estabelece diretrizes para gestão e controle da emissão de poluentes por veículos automotores no estado.

A única proposta do Plano que já tem prazo para ser aplicada é a inspeção veicular. Anualmente, no ato do licenciamento, o proprietário deverá realizar uma inspeção do veículo para provar se ele está circulando de acordo com as normas ambientais. Essa medida procura incentivar a manutenção do sistema de escapamento dos carros. Elisete Gomides explica que a maioria dos veículos novos saem de fábrica já regulados e emitindo poucos poluentes, mas, se não for dada a manutenção, o sistema pode passar a emitir mais. Essa inspeção deve se iniciar primeiro com veículos movidos a diesel, em 2012, mas já será adotada com atraso em relação a outros estados. "Minas Gerais é a segunda maior frota do país e até hoje não tem inspeção veicular", destaca Elisete.

Em BH, a inspeção já é feita pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente por meio de blitz em caráter punitivo. Em quatro pontos rotativos na cidade, caminhões e ônibus são parados para verificação do sistema de escapamento. Se não estiverem de acordo, podem ser multados e até retidos. A Operação Oxigênio, como é chamada essa inspeção, pretende começar a avaliar as condições de veículos movidos à gasolina nos próximos meses.

Mas, para cumprir as diretrizes do Plano, é preciso também investir em outras frentes de atuação como mudanças no sistema de transporte que modifiquem a matriz energética dos veículos e privilegiem o uso do transporte coletivo. Hoje, dois terços dos carros que circulam em BH levam apenas um condutor. A maioria das pessoas, assim que podem, compram um carro. E isso é justificável. "O transporte coletivo de baixa qualidade não oferece nenhum estímulo para o cidadão andar menos de carro", explica Bernadete.

O novo tipo de transporte público pensado para Belo Horizonte - o BRT (Bus Rapid Transit) - será implantado até 2014, mas a proposta dos BRTs é apenas manter a proporção atual entre o número de pessoas que usam transportes coletivos e individuais (veja mais na matéria Próxima parada, na edição 59 da revista). Além disso, é preciso que esses novos ônibus comecem a adotar combustíveis limpos. De acordo com Bernadete Gomes, vem sendo feitos testes com vários tipos de combustíveis menos poluentes para que a frota de ônibus deixe de usar combustíveis fósseis.


12-4-2011