Estudo mostra contaminação no São Francisco

Um estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em dois córregos que deságuam no Rio São Francisco, revelou níveis de contaminação provocados por três metais tóxicos, que podem atingir até 200 vezes o limite permitido pela legislação. O problema foi identificado pela pesquisadora Elizêne Veloso Ribeiro em pontos próximos a áreas industriais de Três Marias, Barreiro Grande e Pirapora, durante pesquisa realizada para sua dissertação de mestrado, defendida em 2010 pela UFMG.


As altas concentrações de zinco, cádmio e cromo encontradas são pontuais, ou seja, não ocorrem em toda a extensão dos afluentes ou mesmo do São Francisco. Porém, a contaminação por outros metais pesados parece ter-se espalhado pelo trecho estudado do rio tanto em zonas rurais como urbanas, De fato, observa-se que, numa escala menor, a água, em diversos trechos do Velho Chico e seus afluentes, apresenta índices alterados de alumínio, chumbo, cádmio, cobalto, cobre, bário, níquel, manganês, magnésio e ferro.


Todos esses metais pesados, ingeridos em quantidades inadequadas, são considerados os mais tóxicos para humanos. "A mudança nos seus padrões pode gerar impactos na biota aquática e na saúde humana, pois eles se acumulam no organismo e desencadeiam problemas no sistema nervoso e reprodutivo, além de efeitos cancerígenos e de mutações genéticas", alerta Elizêne Ribeiro, listando algumas das consequências do problema.


Para identificar o grau de contaminação e sua correlação com as atividades humanas na região, a pesquisadora coletou em 2009 amostras das águas do São Francisco numa extensão de 160 quilômetros, da barragem em Três Marias até a foz do Rio das Velhas, próximo a Pirapora.


O método escolhido recaiu na análise de características físico-químicas da água, como turbidez e pH, e sobretudo, na quantificação de metais pesados tóxicos em suspensão e dissolvidos em diversos pontos do trecho estudado. Para verificar se as alterações eram ocasionais ou permanentes, Elizêne usou metodologia de georreferenciamento para coletar a água nos mesmos pontos do rio, em quatro momentos diferentes. A análise foi feita em laboratórios do Núcleo de Geoquímica Ambiental do Instituto de Geociências da UFMG.

O recurso gerou mapas bem detalhados, nos quais é possível visualizar a variação da qualidade da água no Rio São Francisco. Para gestores públicos, como ressalta a pesquisadora, a informação tem a vantagem de apontar os locais onde são necessárias ações preventivas e corretivas.

É ruim, mas é bom


Situado na região do cerrado, o trecho mapeado do Velho Chico recebe recarga de água de, pelo menos, 13 córregos, rios e ribeirões. Nessa grande área estão 15 municípios, cuja economia apoia-se na pecuária, agricultura, mineração, reflorestamento e indústria - zinco em Três Marias, têxtil e metalúrgica em Pirapora. Abrem-se aí as fontes de contaminação para as águas do rio: esgotos domésticos e industriais, compostos químicos tóxicos derivados de atividades industriais e os defensivos agrícolas e agroquímicos.


"Os índices de contaminação encontrados comprometem a qualidade da água nos centros urbanos, confirmando a necessidade de monitoramento dos metais pesados nestes pontos, bem como a restrição do uso da água e estudos de ecotoxidade em peixes devido ao alto consumo na região", registra a autora


O estudo, que integra projeto de pesquisa financiado pela Fapemig, indica ainda que existe um padrão para a presença de metais tóxicos no rio: ela é elevada pontualmente, conforme demonstram análises das amostras coletadas perto dos efluentes industriais, agroquímicos e domésticos lançados nos cursos de água.


Ao longo do rio São Francisco, no entanto, os níveis de contaminação apresentam condição inversa porque frações dissolvidas dos metais acabaram se depositando no leito, enquanto outros contaminantes foram se diluindo no grande volume de água. Por esse motivo, as investigações concluem que, apesar das preocupantes contaminações pontuais, as águas do Velho Chico ainda têm boa qualidade, quanto à presença de metais pesados.


Segundo Elizêne Ribeiro, o paradoxo tem suas lições: alerta sobre a presença de materiais tóxicos que, acumulados, podem ser irreversíveis para o meio ambiente e para uma importante bacia hidrográfica do país. Além disso, o "paradoxo do Chico" reforça a necessidade de mudanças na metodologia definida pela legislação sobre indicadores de qualidade da água - atualmente elas não agregam análise de metais pesados tóxicos.


"Os estudos ambientais sobre metais pesados no Brasil são recentes, datam da década de 80", observa a pesquisadora. Ela ressalta que, em decorrência desse atraso, ainda não são feitos mapeamentos geoquímicos das águas superficiais e subperficiais dos rios no país.

 

Abes-MG - Assessoria de Comunicação e UFMG

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