Em Campo Grande, carne pesa mais na pegada ecológica

A alimentação representa quase a emtade do uso de recursos naturais de Campo Grande (MS), com destaque para a carne. É o que mostra o primeiro cálculo de pegada ecológica já feito numa cidade brasileira. Trata-se de traduzir, em hectares, a extensão de território que uma pessoa ou uma sociedade usa, em média, para se manter. O resultado do estudo foi revelado nesta quarta, em um evento na Faculdade de Economia e Administração (FEA/USP).


Em Campo Grande, o estudo apontou uma pegada ecológica de 3,14 hectares globais por pessoa. Pastagens, agricultura e florestas somam 75% desse montante. Em classes de consumo, o maior impacto foi na alimentação, com 45%, com destaque para o consumo de carne. O estudo apontou que o consumo de carne de Campo Grande é 13% maior que a média nacional.


Quase a metade da pegada vem da alimentação e, neste caso, o 'churrasco' é o que mais pesa", brincou Fabrício de Campos, responsável pelo cálculo e diretor da Escossistemas, que realizou o estudo em parceria com a WWF-Brasil e a Global Footprint Network (GFN). "Ninguém quer transformar o pantaneiro em vegetariano, mas é bom que as pessoas saibam que esse hábito tem um impacto alto", resume Campos.

Os 3,14 hectares globais por pessoa podem ser traduzidos em 1,7 planetas. Ou seja: se o mundo todo tivesse o mesmo consumo do morador de Campo Grande, seriam necessários quase dois planetas para sustentar esse estilo de vida. "Estamos no cheque especial. Estamos drenando o crédito planetário e exaurindo nosso capital natural. Está certo que a natureza também tem seu cheque especial, mas isso não torna a situação menos séria", destacou o Fabrício de Campos.

Campo Grande tem uma pegada 8% maior que a média nacional, que é de 2,9 hectares globais por pessoa. Ela também é 10% maior que a do Mato Grosso do Sul e 14% maior que a pegada média mundial, que é de 2,7 hectares globais por pessoa. O Mato Grosso do Sul, por sua vez, tem uma pegada ecológica 3% menor que a média brasileira.

Presente no evento, o economista Ignacy Sachs, criador do conceito de ecodesenvolvimento (que precedeu a ideia de desenvolvimento sustentável), disse que os indicadores são válidos, fez uma ressalva.


"Precisamos nos preocupar mais com a maneira como organizamos as ferramentas que temos, os indicadores que conseguimos, como estes, por exemplo. Na redefinição do que é planejamento a longo prazo e vale a pena inserir indicadores como a pegada ecológica, por exemplo. Mas é preciso que os indicadores sociais sejam colocados no mesmo nível dos ambientais", disse ele.