Lixo aumenta 22% em BH

A sustentabilidade vai para a lata de lixo em Belo Horizonte. Garrafas PET, isopor, latas, copos descartáveis, sacolas plásticas e todo tipo de embalagem engrossam cada vez mais o volume de resíduos sólidos descartados pelos 2,3 milhões de moradores da capital e põem em risco as políticas de tratamento de dejetos da cidade. É uma carga pesada, se for considerado o aumento de 22% na quantidade recolhida e aterrada na capital na última década. O lixo domiciliar coletado pela Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) saltou de 513,9 mil toneladas em 2000 para 629,4 mil toneladas em 2010. Isso representa cerca de 300 toneladas diárias a mais, ou seja, de 1.407 toneladas coletadas por dia no início da década, BH pulou para 1.720 no ano passado. Apesar de estar atrás de outras capitais do mesmo porte, como Brasília, onde o aumento na geração de lixo foi de 45% no mesmo período (de 538,6 mil para 781,3 mil toneladas), o crescimento na capital é três vezes maior do que o da população no período (6%) e preocupa ambientalistas e a prefeitura.

"É uma situação especial e quero acreditar que momentânea, motivada pelo crescimento da economia. Mas, se essa curva crescer com a inclinação que ela aponta, isso será o caos. Em 10 anos, vamos passar a produzir mais do que o dobro das 3,3 mil toneladas diárias atuais, se considerarmos o lixo domiciliar, o da varrição de ruas, da poda e das deposições clandestinas. Podemos chegar a até 7 mil toneladas/dia. Nenhuma cidade suporta isso", explica o diretor de operações da SLU, Rogério Siqueira, que ainda faz um alerta: "Para os próximos três anos, a projeção de crescimento já é de 20%. Vamos atingir 4 mil toneladas/dia de lixo", afirma.

Inaugurado em 1975, o aterro sanitário de Belo Horizonte esgotou sua operação em 2007. Desde então, Belo Horizonte envia o lixo para o Centro de Tratamento de Resíduos Macaúbas, espaço de 1,4 milhão de metros quadrados em Sabará, na Grande BH. A parceria público-privada (PPP) firmada em 2007 garante à prefeitura a destinação dos resíduos por 25 anos ao custo de R$ 787 milhões por ano.

CONSUMO A explicação para tanto lixo, conforme o professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Mário Rodarte, está relacionada à mudança dos hábitos de consumo da população e à elevação do poder de compra. "O poder aquisitivo cresceu. O desemprego diminuiu e a renda média da população brasileira aumentou 25% ao longo da década, saltando de R$ 1.087 em 2000 para R$ 1.360 em 2010. Isso tem um impacto direto no consumo de bens duráveis e não duráveis, mas sobretudo na alimentação", afirmou.

Dados da Fundação João Pinheiro mostram que a taxa de desemprego na Grande BH caiu de 17,8% em 2000 para 8,4% no ano passado. "Houve ainda o aumento do emprego formal, o que resultou em um recorde no índice de pessoas formalizadas. Hoje, 62,7% da população ocupada está no setor privado com carteira assinada ou no setor público. Esse número nunca foi tão alto desde 1996", explica o professor.

A mudança no consumo, segundo Rodarte, atingiu todas as classes sociais. As de menor poder aquisitivo passaram a ter na geladeira mais produtos industrializados, como iogurtes e refrigerantes. Nas classes com uma dinâmica econômica mais ativa, o consumo de produtos cada vez mais embalados se tornou ainda maior.

Outro fator que influenciou no aumento da geração de lixo, segundo Rodarte, foi a entrada da mulher no mercado de trabalho. "A figura da dona de casa está cada vez mais rara. Com isso, as pessoas consomem produtos mais elaborados, como comida congelada, sucos industrializados, molhos e sopas semiprontos, que têm uma grande quantidade de embalagens", disse. O professor lembra que os reflexos da estabilidade econômica atingiram ainda o setor de automóveis e da construção civil.

CUSTO ALTO A conta para tratamento de tanto resíduo é cara e paga pelo gerador do lixo. De acordo com o diretor operacional da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), Rogério Siqueira, são gastos R$ 76 milhões por ano para a coleta e destinação do lixo domiciliar em Belo Horizonte. O valor leva em conta as taxas diárias de R$ 83 para coleta e transporte do lixo das residências até o aterro em Sabará e o valor de R$ 35 para aterramento. "Com esse dinheiro seria possível construir 1,9 mil casas ou aumentar a frota da prefeitura com 3 mil carros populares", afirma.

Se o aumento na produção de lixo tivesse crescido na mesma proporção dos habitantes (6%), o gasto seria de R$ 65 milhões por ano, ou seja, R$ 11 milhões a menos. Com o montante seria possível erguer 275 casas populares. A taxa de limpeza urbana é cobrada na guia do Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU). Para as residências com coleta diária, o valor é de R$ 261,34. Onde a coleta ocorre três vezes por semana, a taxa cai para R$ 130,67.


ANÁLISE DA NOTÍCIA

Não se pode negar às famílias que conseguiram aumentar a renda e consumir mais alimentos e de melhor qualidade o direito de produzir mais lixo. O que se estranha é a passividade do poder público, que prevê o caos, caso persista a tendência de aumento da produção de resíduos na capital. Não se compreende por que, com o passar dos anos e em pleno século 21, a solução para tudo continua sendo o aterro sanitário. Não se faz nenhuma campanha para adoção de práticas sustentáveis de consumo. E a coleta seletiva, que poderia gerar mais dinheiro, não abrange mais do que 10% da cidade e esbarra no esgotamento da capacidade de triagem das associações de catadores. O município bem que poderia buscar outras parcerias para solução definitiva do problema. (Geraldo Lopes)