Chuva alivia abastecimento, mas represas ainda precisam de tempo para recuperação total



Se por um lado a chuva causa transtornos e eleva o nível de atenção dos órgãos públicos e a possibilidade de queda de árvores, deslizamentos de encostas, alagamentos e outros problemas que podem colocar vidas em risco, por outro representa alívio para o sistema de abastecimento da Grande Belo Horizonte, que se recupera de crise iniciada em 2014. Precipitações mais frequentes, como ocorreram nas últimas semanas, começam a garantir a recarga dos aquíferos e, consequentemente, favorecem o aumento do armazenamento de água nos reservatórios, contribuindo para a recuperação mais rápida das represas, que estiveram perto do colapso em 2015.

 

Nos primeiros quatro dias da última semana, por exemplo, o aumento de volume nas três represas que abastecem a Região Metropolitana de BH chegou a 1 ponto percentual, bem mais do que as variações verificadas ao longo do ano. Porém, nos últimos dias o nível já se estabilizou e a normalização completa ainda leva tempo: a Copasa estima que o reservatório do Rio Manso, o maior dos três que abastecem a Grande BH, só esteja totalmente recuperado entre o ano que vem e 2018. Já as outras duas represas – Vargem da Flores e Serra Azul – podem demandar ainda mais tempo para recomposição.

 

Isso por que, além das chuvas, no caso do Rio Manso a concessionária conta com a ajuda da captação de até 5 mil litros de água por segundo no Rio Paraopeba, iniciada em dezembro de 2015, que permite poupar água acumulada no reservatório, favorecendo sua recuperação.

 

Como o sistema é interligado, indiretamente poupa-se também as represas de Serra Azul e Vargem das Flores, que integram o Sistema Paraopeba, mas essas dependem exclusivamente do volume de precipitação para recuperar seu volume. E, apesar das chuvas mais recentes, o acumulado no ano ainda é 10% menor do que o de 2015, segundo a Copasa, que cita dados do Instituto Nacional de Meteorologia.

 

Mas a situação já melhorou muito em relação ao quadro crítico de anos atrás. No caso da represa do Rio Manso, por exemplo, o nível de água armazenada estava na casa dos 30% em dezembro de 2015. Ontem, o índice era de 72%. O normal ao longo de 2016 foi a variação de 0,1 ou 0,2 ponto percentual de um dia para o outro – para baixo durante a seca e para cima nos meses de chuva moderada. Entre 14 e 15 de novembro, essa variação chegou a 0,5 ponto percentual para cima, saindo de 71,1% para 71,6%.

 

Mesmo movimento aconteceu na Vargem das Flores, que passou de 33% de armazenamento em 15 de novembro para 33,5% no dia seguinte. Esse resultado teve reflexos no conjunto dos reservatórios: de 15 para 16 de novembro, o volume do Sistema Paraopeba subiu 0,4 ponto, passando de 52,1% para 52,5%.

 

Em 21 de dezembro do ano passado, quando a presidente da Copasa, Sinara Meireles, anunciou a captação emergencial no Rio Paraopeba, a estiagem revelava no Rio Manso uma régua de seis metros de altura completamente descoberta, usada para aferir o nível da água na represa. Naquele momento, o armazenamento no local parou em 29,8%.

 

Recarga dos lençóis

 

O mês de janeiro deste ano já contribuiu para a recuperação dos reservatórios, pois a chuva durante aquele mês superou a média histórica em todas as quatro captações da região metropolitana. Agora, a frequência das precipitações verificada em novembro indica a chegada do novo período chuvoso e tem possibilitado infiltração de água no solo.

 

“A chuva frequente e constante permite a infiltração e, consequentemente, a recarga dos aquíferos profundos. A partir daí, é natural o processo de acumulação nos reservatórios”, afirma o professor da PUC/Minas José Magno Senra Fernandes, doutor em recursos hídricos.

 

Ele acrescenta que existem estudos demonstrando que os ciclos hidrológicos em Minas Gerais variam entre períodos mais secos e mais úmidos, em um intervalo de 10 anos. Portanto, depois de uma estiagem que se acentuou nos últimos quatro anos, é possível até que neste ano a chuva supere a média histórica em todo o estado, que gira em torno de 1,5 mil milímetros anuais.

 

Nas captações da Grande BH, já é possível perceber esse movimento de aproximação da chuva de 2016 com as médias históricas, apesar de ainda não ter havido a superação da marca em nenhuma das três represas, tampouco no Rio das Velhas, onde é feita a segunda grande captação para Belo Horizonte. De qualquer forma, o mês de dezembro, apontado pela história como o período em que mais chove em um ano nas quatro captações, ainda não chegou e pode elevar todos os índices.

 

No caso da Região Metropolitana de Belo Horizonte, o funcionamento da captação emergencial há quase um ano permite que a Copasa use, especialmente no período chuvoso, mais água diretamente do Rio Paraopeba, em Brumadinho, poupando as três represas do sistema. Nesse caso, a empresa consegue acelerar o processo somando a chuva com o uso moderado dos reservatórios, o que não seria possível sem a obra.

 

PESQUISAS O professor José Magno destaca ainda que o período atual favorável do ponto de vista da segurança hídrica é importante para que a Copasa estude outras captações que permitam a criação de novos reservatórios para atender a Grande BH. Segundo ele, existem opções de melhor qualidade do que a captação emergencial do Rio Paraopeba.

 

“Na região mais alta de Caeté, por exemplo, existem mananciais de ótima qualidade que fazem parte das nascentes da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. São vazões que não necessariamente têm grande porte, mas que poderiam viabilizar reservatórios de maior qualidade”, completa o especialista.

 

Em nota, a Copasa informou que vem buscando alternativas para garantir, a longo prazo, o abastecimento especialmente da parcela da população da região metropolitana atualmente atendida pelas águas do Rio das Velhas. Nesse caso, a captação ocorre diretamente no leito, e a falta de reservatório torna o serviço mais sensível às variações de nível do leito.

22-11-2016