Degradação ambiental seca nascentes e rios de Minas, amplia a estiagem e abate gado e lavoura



“Espero que Deus envie chuva para o rio voltar a correr”, suplicou Zacarias Machado, morador de Me Livre, comunidade rural em Montes Claros, no Norte de Minas, onde a água que havia na calha do Peixe deu lugar à poeira. A disponibilidade de água diminuiu no estado em decorrência do secamento de nascentes, reflexo da degradação ambiental. O fim desses “olhos d’água” afeta importantes bacias hidrográficas e alimenta a longa estiagem, que, por sua vez, queimou lavouras e fez gado definhar até tombar de vez.

 

A situação é desesperadora em muitos lugares, sobretudo nos rincões do estado onde famílias que captavam água diretamente em leitos agora são reféns de caminhão-pipa. Só no Norte de Minas mais de 500 cursos d’água secaram ou estão com a vazão mínima, conforme estudo assinado por Reinaldo Nunes de Oliveira, técnico da Emater-MG. Ele analisou 730 leitos na região: “Consequência do desmatamento e assoreamento”.

 

Em coro ao alerta dele, a professora Maria das Dores Magalhães Veloso, doutora em ciências florestais e que leciona na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), defende estudos e intervenções urgentes. Ela estuda o assunto há oito anos: “Ocorre a antropização. O homem ocupa o espaço que era das plantas. O solo fica descoberto e, quando chove, a camada superficial é carreada para partes baixas, o que causa assoreamento e entope nascentes”.

 

Ela cita pesquisa recente na região do Parque Estadual da Serra do Cabral, entre os municípios de Buenópolis, Joaquim Felício e Francisco Dumont, onde 17 nascentes desapareceram ou ficaram comprometidas. “Houve várias queimadas. Também há o pisoteio do gado. É preciso estudos para verificar como deve ser feito o desassoreamento e analisar o estado pontual de cada nascente.”

 

A degradação ambiental e a estiagem não pouparam nem a região onde brota o São Francisco, o maior rio exclusivamente brasileiro, com 2,8 mil quilômetros de extensão. Em Medeiros, na Serra da Canastra, pelo menos 20 nascentes secaram. Alceu Carneiro, assessor da prefeitura, alerta que a do Rio Samburá, considerada por muita gente como a “nascente geográfica” do Velho Chico, continua abastecendo o leito, mas num volume inferior ao de alguns anos.

 

Ainda no Centro-Oeste, fazendeiros de Martinho Campos e Pompéu reclamam da estiagem, embora a região seja cortada pelo Velho Chico e dois importantes tributários, o Pará e o Paraopeba. “Córregos da região secaram. A estiagem aumentou o custo da produção leiteira”, reclamou José Alberto, presidente da Coopeartiva Agropecuária de Pompéu (Coopel).

 

A cidade foi uma espécie de celeiro que abasteceu o Rio de Janeiro, em 1808, quando milhares de portugueses fugiram do Exército de Napoleão Bonaparte e desembarcaram no Brasil na companhia da família real. Da fazenda de Joaquina de Pompéu (1752-1824), a Dama do Sertão, toneladas de alimentos foram enviados para a capital da então colônia a pedido da coroa lusitana. Hoje, há gado tombado na região, onde até o solo rachou no entorno das veredas.

 

RECUO

 

A seca de nascentes, a estiagem e a degradação ambiental afetaram bacias importantes. Relatório da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia, revelou que 25 das 35 estações fluviométricas medidas pela regional de Belo Horizonte, em agosto, estão com vazão média abaixo dos indicadores usados pelo estado ou União quando o assunto é a oferta de água.O estado, por exemplo, considera o chamado Q 7,10, que calcula o índice mais baixo repetido por sete dias consecutivos nos últimos 10 anos. Em Santo Hipólito, a estação do Velhas mostra que a vazão é de 31,9 metros cúbicos por segundo, abaixo dos 45,5 considerados pelo Q 7,10. “O Velhas está numa situação que a gente considera ainda não crítica, mas extremamente preocupante. No alto do rio, a vazão é de 10 metros cúbicos por segundo, sendo que a Copasa retira 6,5 para o abastecimento de BH. De forma geral, o rio está com vazão abaixo da média histórica, de 15 a 16 metros cúbicos de água na região metropolitana”, lamentou Marcus Vinícius Polignano, presidente do Comitê da Bacia do Velhas.

 

Já o indicador usado pela União para a oferta de água é o Q 95%, o qual indica que as vazões são maiores ou iguais a ela durante 95% do tempo. Em Pirapora, a vazão do São Francisco é de 334 metros cúbicos por segundo, abaixo do Q 95% (426 metros cúbicos por segundo). Um dos afluentes do Velho Chico é o Pará, que corta Conceição do Pará e onde o pescador Valter Pereira, de 61 anos, lamenta o baixo volume do leito.

 

“A chuva na região, tradicionalmente, começa em setembro. Já estamos no fim do mês e São Pedro não abriu a torneira. Há alguns anos, havia cardumes de corvinas, curumatãs, piaus... Os rios têm de voltar a ser como antes”, desejou o homem, tal qual o mecânico Zacarias, lá de Me Livre.

 

 

 

Seca vira 'praga' em MinasConceição do Pará, Martinho Campos e Pitangui – É quando a seca aperta que dona Zélia Morato, de 61 anos, pega o terço e vai ao centenário cruzeiro de madeira em Brumado, povoado de Pitangui, rezar para que a chuva fertilize aquele cerrado do Centro-Oeste mineiro. Depois da ave-maria e do pai nosso, ela molha o pé da cruz enquanto canta uma ladainha em misericórdia para que rios, açudes e lagoas sobrevivam à estiagem.

 

A seca avança em Minas como uma praga. A Defesa Civil estadual revelou que o número de municípios que decretaram situação de emergência, condição que permite às prefeituras dispensar licitação para contratar serviços e produtos em socorro às vítimas da seca, subiu 56% no confronto entre 2010 e 2015. “De 111 cidades para 174”, comparou o tenente Júnior Silvano Alves, diretor-técnico do órgão.

 

Tudo indica que o balanço de 2016 será maior do que o do acumulado do ano passado, pois, de 1º de janeiro a sexta-feira passada, 160 prefeituras já decretaram situação de emergência. A estiagem ampliou o polígono da seca e atingiu lugares considerados celeiros de Minas, como Unaí, no Noroeste, onde há grandes lavouras de feijão e milho.

 

A escassez da chuva aumenta o custo da produção e faz muita gente, como dona Zélia, apelar para o Divino. “Está difícil aguentar o calor”, reclamou a mulher, na quinta-feira, quando molhou o pé do cruzeiro na companhia de vizinhos. “Vai funcionar. Santa Madalena vai nos atender”, disse a mulher, esperançosa.

 

O meteorologista Ruibran dos Reis ajuda a explicar parte da angústia da moradora de Brumado. Tanto a média da temperatura mínima quanto a da máxima subiram três graus centígrados no estado em cinco décadas. “A média da mínima passou de 11 graus na década de 1960 para 14 graus nesta. Já a da máxima, no mesmo intervalo, avançou de 34 graus para 37”, informou o especialista do Climatempo.

 

Ele atribuiu os aumentos a fatores como o aquecimento global e a urbanização. Em decorrência disso, as chuvas ficaram mais escassas. “Nos últimos cinco anos, a média foi 30% a 40% menor.” A escassez de chuva reflete nos cursos d’água que cortam o estado. E faz o pescador Neilton Carlos de Oliveira, de 50, torcer o nariz quando conta que está cada vez mais difícil fisgar peixes no Rio Pará, afluente do Velho Chico.

 

Extremos

 

No trecho entre Pitangui e Martinho Campos, parte do leito foi ocupado por montes de terra, de onde brotou um capim ralo. O lugar, no meio do rio, se transformou em pasto. Os montes surgiram há três anos e ajudaram a formar uma paisagem que retrata os dois extremos da história do Pará. Isso porque próximo aos novos “pastos” há o que sobrou da antiga ponte de cimento, derrubada pela enchente de 1996.

 

Quem chega ao local observa tanto a estrutura, uma recordação da época em que os ribeirinhos sofriam com enchentes, quanto os montes de terra, que mostram que o problema agora é a estiagem. A redução do leito do rio atormenta pescadores profissionais em Conceição do Pará. A cada ano, há quem precise ir mais longe atrás dos cardumes.

 

O nível baixo também afugentou turistas e obrigou dona Eulália César de Barros, de 63, a fechar o comércio às margens do leito, onde mora desde 1976. “Não tive outra escolha. A clientela praticamente sumiu. Para se ter ideia de quanto o nível do rio caiu, hoje vemos pedras que eram cobertas pelas águas. Há seis anos sofremos com baixo volume”, lamentou a ex-comerciante. Ela se recorda de quando pescava mandis, piaus e corvinas. E não esconde a emoção ao falar da época de fartura do Pará.

 

O pescador Válter Pereira, de 61, torce para que o rio volte a ficar cheio para que suas duas canoas na área rural de Conceição do Pará possam navegar no trecho conhecido como Usina. “O leito cobria boa parte das pedras neste trecho. Já peguei muito peixe grande por aqui. Sumiram”.

 

 

 

Da fartura ao caminhão-pipa

 

 

 

A forte estiagem mudou a rotina de quem já esbanjou água captada diretamente de nascentes e, agora, se tornou refém do caminhão-pipa. É o que ocorre em Presidente Olegário, no Noroeste do estado, a 450 quilômetros da capital, onde aproximadamente 2,4 mil dos 22 mil habitantes foram atingidos pela falta d’água, segundo a Defesa Civil Municipal.

 

O secretário de Agricultura da cidade, Adão Marcos de Araújo, sustenta que, embora sem um número exato, centenas de nascentes secaram na região, onde não chove há cinco meses. “A situação está difícil porque moradores de fazendas faziam a captação de água diretamente nas nascentes. Usavam o líquido para consumo próprio e a lida com os animais. Como as nascentes secaram, agora esperam o caminhão-pipa”.

 

Segundo ele, houve uma redução no volume de chuvas na região. “Nossa média histórica é de 1,6 mil milímetros anuais. Em 2014, foram apenas 600 milímetros no município. Em 2015, 1,5 mil milímetros. Este ano, pouco mais de 500 milímetros. Especialistas disseram que a redução é consequência do desmatamento da Amazônia”.

 

Já em Machacalis, no Vale do Mucuri, a Câmara Municipal solicitou da prefeitura, em caráter de urgência, reunião com todas as secretarias, o próprio Legislativo, a Emater, a Defesa Civil e o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS), além das associações rurais para implementação de um plano de crise para atender agricultores familiares e produtores rurais do município, atingidos pela estiagem.

 

“Agricultores familiares e produtores rurais estão tendo prejuízos devido À estiagem. É sabido que a base da nossa economia é voltada para a agricultura familiar e pecuária de corte e leite”, informou o vereador Alexandre Amador, que protocolou o pedido na prefeitura.

26-09-2016