Fundação lança ‘Atlas’ que convida a refletir sobre os caminhos da carne, do pasto ao supermercado



Com o “Atlas da Carne”, publicação que será lançada hoje no Rio de Janeiro, a Fundação alemã Henrich Böll Stiftung faz um convite sedutor a quem se propõe a refletir sobre uma nova ordem mundial. Se você, caro leitor, já está se preparando para ouvir algo do tipo “pare de comer carne para proteger o meio ambiente”, se equivoca.

 

A convocação é para conhecer mais sobre os caminhos que levam a carne que se come antes que ela seja apresentada, no supermercado, daquele jeito brilhante e limpa. Trata-se de uma cadeia que segue um modelo único, praticamente imexível há anos no Brasil, envolvendo também setores políticos, e que vem deixando rastros em recursos hídricos, no solo, na saúde das pessoas, aumentando a desigualdade.

 

Na semana passada, quando o “Atlas” ainda estava no prelo, conversei com Maureen Santos, coordenadora do Programa de Justiça Ambiental da Fundação Heinrich Böll Brasil, que me apresentou ao conteúdo. O livro reúne artigos de pesquisadores do Brasil, Chile, México e Alemanha e revela dados assustadores: se o consumo de carne continuar crescendo, em 2050 terão que ser produzidos 150 milhões de toneladas extra de carne, agravando os problemas socioambientais que já vem causando. Há alternativas, e foi também sobre elas que Maureen e eu conversamos. Segue a entrevista:

 

Em 2010 o Greenpeace lançou um relatório chamado “A farra do boi na Amazônia” mostrando a teia entre o comércio de gado e o desmatamento na Amazônia e eu me lembrei dele enquanto me preparava para a entrevista. Qual a relação entre o relatório de seis anos atrás e esse “Atlas da carne” que será publicado pela Fundação Böll?

 

Maureen Santos - O Greenpeace trabalhou mais especificamente com a questão dos impactos da pecuária na Amazônia e a relação disso com o desmatamento, desdobrando para os impactos sociais. O “Atlas da Carne”, é um apanhado de artigos e infográficos, bem visual, sobre diversos elementos que compõem a questão da cadeia industrial da carne e seus impactos. E não focamos apenas a carne de boi, mas também a de frango, porco, búfalo. Trata-se de uma cadeia ampla, que é conectada também com distribuição de grãos, em especial a soja e o milho, e com a indústria farmacêutica para a produção de antibióticos e agrotóxicos.

 

Quando eu me lembrei do relatório feito há seis anos sobre esse tema é porque fiquei pensando sobre a dificuldade de vocês, organizações que se propõem a denunciar os impactos socioambientais causados pela alta produção de carnes. É uma reflexão difícil, sobretudo porque há uma cultura de que é preciso comer carne diariamente para se ter uma saúde ideal...

 

Maureen Santos - Um dos desafios é a construção de uma narrativa, a colocação de questões que são tidas como verdades absolutas. Comer carne é quase uma questão de status. O “Atlas” tem um artigo que fala sobre a Índia, por exemplo, onde a produção de frango (hoje é a espécie de aves mais numerosa do planeta) em confinamento tem crescido absurdamente nos últimos anos porque a classe média está ascendendo, há uma maior mobilidade das pessoas para as cidades e elas querem consumir mais carne (lá a cultura impõe restrições ao consumo de carne de boi, embora isso também já esteja mudando). Há o aumento da demanda e, para isso, tem que haver um aumento da produtividade. Ecomo é que você aumenta a produtividade? Criando novas tecnologias, produzindo mais agrotóxico, antibiótico, hormônio, mistura de espécies. Tudo o que causa impactos.

 

E como fica o desenvolvimento econômico? A crítica maior que os ambientalistas recebem é que pretendem discutir a necessidade de progresso que o agronegócio traz para as regiões...

 

Maureen dos Santos – A gente tem que se perguntar quem é que se beneficia com o dito desenvolvimento. Para quem? O Brasil já é o segundo maior exportador de soja e isso não melhora em nada a vida do camponês. Em Belém, por exemplo, tem-se áreas que são de transições onde o gado fica pastando um tempo e depois é exportado de navio. Isso na Amazônia! E mostra bem a relação da cadeia. Um dos artigos do “Atlas” faz a relação da soja e do milho, porque para alimentar todo esse gado é preciso desses grãos.

 

E o Brasil já é o segundo maior produtor mundial de soja em grãos. Se ele beneficiasse aqui e já exportasse como ração seria mais compensador para as regiões, é mais ou menos isso?

 

Maureen Santos - Sim, teria um valor agregado, o que de certa forma desenvolveria mais a indústria nacional, daria mais empregos. Mas, assim mesmo, a crítica que alguns autores fazem é que a lógica continua a mesma sob o ponto de vista socioambiental. É que o agronegócio recebe tanto subsídio, como do BNDES, por exemplo... A competitividade dessa grande indústria de carnes, que se diz tão preocupada com o socioambiental, está baseada num discurso político e com muito recurso financeiro envolvido. A questão do desenvolvimento entra aí. O que se acredita é que se esse crédito todo, que é dado ao agronegócio, fosse dado para a agricultura familiar e camponesa, não pensando numa produtividade absurda mas numa outra lógica de proteção socioambiental, aí sim estaríamos atingindo o desenvolvimento mais inclusivo e menos desigual.

 

Então já estamos entrando aqui nas soluções apontadas pelo “Atlas”...

 

Maureen Santos – Uma delas é pensar que existem formas diferenciadas de criar gado, as chamadas pastoris, onde os animais têm espaço para andar, come outro tipo de alimento que não só a ração para engordar. E a pecuária, feita assim, pode ser uma produção consorciada com outras.

 

É um debate difícil de ser aprofundado no Brasil...

 

Maureen Santos - É bem diferente da Europa, onde você já tem, de fato, um debate sobre vegetarianismo, de alimentação saudável, que é muito diferente do que a gente tem aqui no Brasil e talvez no Cone Sul. A grande massa da população brasileira não pensa de onde vem aquela carne que se compra no supermercado. Esse debate precisa acontecer no Brasil e o “Atlas” trata disso, de conscientizar sobre a necessidade de você saber o que está comendo, de fato. Não estamos falando para não comer carne porque acreditamos que o consumo de carne é parte da dieta do brasileiro, é uma questão cultural. Mas é possível pensar, também, porque a necessidade de comer tanta carne.

 

O que acaba acontecendo com esse tipo de debate é que o indivíduo fica sendo culpabilizado.

 

Maureen Santos – É isso que queremos evitar, porque de fato a agenda ambiental acaba passando essa mensagem: “tem que fechar a torneira, separar o lixo e parar de comer carne para salvar o planeta”. Isso não resolve o problema porque vai continuar sendo produzido, quer tenha gente para comer ou não.

 

A ideia seria investir em educação?

 

Maureen Santos – A ideia é pensar sobre isso e ver como é que esse discurso do agronegócio pode ser modificado de alguma forma, mas também atendendo o direito de cada cidadão escolher o que quer comer, porque isso faz parte de uma soberania alimentar. Ao mesmo tempo, trazendo informações para que a sociedade possa ter mais consciência sobre o que está por trás dessa cadeia e sobre algumas escolhas políticas que estão sendo feitas. Por que o crédito de não sei quantos bilhões vai para o agronegócio e não para a agricultura familiar?

 

Há também a questão do desemprego em massa que poderia acontecer caso os grandes frigoríficos tivessem uma produção reduzida...

 

Maureen Santos – A ONG “Repórter Brasil” está atuando há anos nessa questão e já fez diversos relatórios mostrando a rotina dos trabalhadores nesses locais, que não é nada fácil. Veja bem: não queremos fazer doutrina, o “Atlas” não tem esse objetivo. Mas queremos que a informação correta chegue até as pessoas, de que existe uma cadeia gigante com vários elos, desde a produção de medicamento numa área de tecnologia farmacêutiva imensa, desde a produção de grãos para serem exportados e virar ração. São cadeias consorciadas que vão impactar outros ciclos, que vão interferir nos aquíferos, que vão ajudar a desmatar mais. E a legislação é complexa, facilita a entrada desses produtos. Agora, por exemplo, já tem a ideia de alimentos biofortificados, debate que está sendo apoiado até pela Fundação Gates. Estão escolhendo o que a gente vai comer! Esse debate não está colocado aqui no Brasil. Se você só tem uns três tipos de batatas no supermercado precisa saber o motivo disso, já que o solo produz, no mínimo, 14 tipos.

 

A economia verde é apresentada como uma solução e apoiada por várias organizações ambientalistas. Como você vê isso?

 

Maureen Santos – A economia verde centra muito a questão em diminuir as emissões de carbono sem se importar como isso vai acontecer. Pode ser plantando eucalipto, por exemplo, o mesmo modelo da monocultura. O mais grave é que há ONGs que vêm ganhando espaço de articulação com as empresas que estão no centro do agronegócio e isso, para mim, é assustador. O diálogo é possível só quando se tem formas de pensar numa mudança de modelo, mas isso não é possível para as empresas.

 

Tem alguns países onde essa conscientização maior sobre o alimento que se come já está mais avançada?

 

Maureen Santos – Tem um debate mais aprofundado na Europa, países que passaram fome durante a guerra e que têm uma preocupação maior com a segurança alimentar. Isso faz com que os cidadãos comecem a pressionar mais a indústria para que ela coloque a origem da carne que está vendendo, por exemplo.

8-9-2016