Moradores fazem a adoção de rios



Ainda com a lembrança de épocas remotas em que era possível nadar, pescar e se divertir nas águas que cortam a capital mineira, alguns moradores se entristecem ao ver o lixo correr por esses cursos d’água. Algo antes inimaginável, hoje é uma realidade dolorosa. Para lidar com isso, eles vão em busca de melhorias, conscientização da população e de projetos que podem revitalizar essas águas, convictos de que é possível reverter esse processo de poluição dos rios da cidade. Sem nenhum tipo de vínculo político, eles fazem por gosto e porque acreditam nesse futuro mais limpo e bonito.

 

Uma dessas figuras, que tem como mote “deixem o onça beber água”, Itamar Paula Santos, 58, tanto acreditou que está prestes a conquistar uma vitória para a população que vive às margens do ribeirão do Onça. Ele, junto com os companheiros do Conselho Comunitário Unidos Pelo Ribeiro de Abreu (Comupra), conseguiu aprovar o projeto de um parque para o rio.

 

“Em pouco mais de 40 anos, matamos o Onça. Nós mesmos. Aprendi a nadar e a pescar nesse rio. Sempre digo que o rio não é o problema e sim a forma como tratamos ele. E acredito em uma mudança social e ambiental por meio da recuperação dessas águas”, conta. Para ele, a criação de um parque e a revitalização do rio e de seu entorno pode mudar a vida de quem mora por ali.

 

O projeto tinha como data prevista para início das obras o ano de 2014. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), o Parque Linear do Onça será implantado no trecho entre a jusante da cachoeira existente no Ribeirão do Onça e a Estação de Tratamento de Esgotos da Copasa (ETE-Onça). Ele terá equipamentos urbanos de uso social, afastados do leito do curso d’ água, com foco no restabelecimento da mata ciliar, recuperação de margens e recuperação da área de preservação permanente. A obra faz parte de um projeto de prevenção de riscos e inundações e deverá ser realizada com verbas do governo federal. A licitação para essa obra está prevista para o primeiro semestre de 2016, devendo ser entregue em dois anos e meio. A previsão de término é para o 2° semestre de 2018 e serão investidos R$ 442,3 milhões.

 

Navio Baleia. Assim como no caso do Onça, moradores do bairro Pompeia, na região Leste de Belo Horizonte, também conseguiram obras de saneamento básico e a retirada de uma série de esgotos clandestinos no córrego Navio Baleia. As obras foram feitas em 2010 e agora eles lutam para que o trecho final do rio também seja contemplado.

 

De acordo com a Sudecap, não há recursos para a execução de obras nesse trecho, já que a prefeitura não foi contemplada na última captação de recursos junto ao Governo Federal.

 

“Queremos saneamento básico e que o esgoto pare de cair nessa água. As ligações que já foram feitas, mostram que a melhora é significativa. Com o fim dessas obras, acredito que o nosso rio pode ser recuperado”, afirma Mércia Inês Pereira do nascimento, 54, que é uma das cuidadoras do córrego.

 

Criando amor pela nascente

 

Moradora do bairro Vale do Jatobá, na região do Barreiro, aposentada Ivana Eva Novais de Souza, 76, faz uma série de trabalhos de conscientização junto a comunidade. A intenção, além de evitar que lixo seja despejado na água, é preservar uma das nascentes do Arrudas, que fica nas imediações. O trabalho dela com o córrego do Leitão começou em 1981. “Eu faço uma ação com as escolas da região. Levo os alunos para conhecer as nascentes e para que eles aprendam a amar e cuidar delas. Depois eu mostro para eles, um ponto do córrego já poluído para que eles vejam o que o homem faz”.

 

Projeto de uma vida inteira Conhecido como ‘Seu Nonô’, o aposentado Ernesto Soares da Conceição, 73, é um dos cuidadores do córrego Navio Baleia, que passa na região Leste de Belo Horizonte. Além de fazer a interceptação do esgoto de cerca de 20 casas da região, ele tem, nos fundos de sua residência, um projeto de limpeza do córrego do Joões, um dos afluentes do Navio Baleia. Ele trata essas águas há 25 anos e conseguiu mostrar que coletar o esgoto é fundamental para que o rio consiga se limpar. “O importante é ter água limpa. Ela traz os pássaros, pequenos animais e plantas. Aqui, tenho agora um parque ecológico. No começo, achei que teria que replantar, mas com o tempo, os animais traziam sementes e hoje tenho árvores e plantas nativas”, explica. O projeto foi feito sempre com verbas pessoais de Seu Nonô. Ele acredita que, além da importância de retirar o esgoto dessas águas, é preciso também conscientizar as pessoas e evitar que mais entulhos e lixo sejam jogados nesses córregos. A esperança de Seu Nonô é de que um dia, toda a bacia seja limpa novamente. “Ia ser um sonho”.

 

Mudanças sociais por um rio limpo

FOTO: NIDIN SANCHES

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Morador do bairro Ribeiro de Abreu, na região Nordeste de Belo Horizonte, o aposentado Itamar de Paula Santos, 58, é um visionário. Para ele, junto com as revitalização das águas do Ribeirão do Onça, que corta o bairro, é possível trazer desenvolvimento social e ambiental para a região. Ele é integrante de uma associação local e luta pela revitalização do ribeirão, e pela instalação de um parque nas margens do curso d’água. Ele acredita que tratar o rio vai aumentar a autoestima dos moradores do entorno, reduzir a criminalidade e melhorar a qualidade de vida de todos na região.

 

“Imagina morar em um lugar onde você não consegue convidar um amigo para almoçar. O cheiro é muito forte e parece um esgoto. Então, se isso mudar, várias coisas podem melhorar”, afirma o morador.

 

21-03-2016