Esgoto ainda é entrave para a limpeza de rios



A poluição e a degradação são constantes nos cerca de 654 km de cursos d’água que cortam o território da capital mineira, sejam os que ainda correm livres, sejam os que já foram cobertos pelo asfalto. Para quem sonha com o resgate dos dias em que se podia nadar e pescar no ribeirão Arrudas ou no córrego do Onça, os especialistas fazem um alerta: as únicas soluções são o tratamento completo do esgoto e a coleta do lixo que é depositado nesses locais.

 

Idealizador do Projeto Manuelzão, o ambientalista Apolo Heringer explica que o esgoto tem que ser coletado em sua totalidade e ser levado para as estações de tratamento. Além disso, ele detalha que a qualidade desse tratamento tem que atingir 100% da água.

 

“Falar que tem que tratar esgoto é uma coisa óbvia, mas é o único caminho para limpar os rios. Mas uma parte importante, que é o tratamento terciário, que retira os micróbios derivados do nitrato e do potássio da água, e que podem causar doenças, simplesmente não é feito em BH. Sem ele, não tem jeito”, explica o especialista. Para Heringer, uma das coisas que interfere nesse processo é o fato de o esgotamento sanitário ser feito por uma empresa de capital misto, que tem acionistas e lucro. “Eles preferem coletar esgoto dos grandes centros porque dá mais lucro. Mas abandonam os povoados, distritos e regiões periféricas”, acusa.

 

Conforme a Prefeitura de Belo Horizonte, já existem ações municipais que visam a recuperação dessas águas, como a despoluição e recuperação da água da Bacia da Pampulha, o Programa de Recuperação Ambiental de Belo Horizonte (Drenurbs) e também a expansão da rede de captação de esgoto, feita pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).

 

Porém, de acordo com o Plano Diretor de Recursos Hídricos da Bacia do Rio das Velhas, o tratamento secundário – usado para retirar a matéria orgânica por meio da aceleração da biodegradação – é insuficiente para dar qualidade à água. A falta de um tratamento terciário dos esgotos – que elimina os micro-organismos – faz com que a água não atinja as metas estipuladas de qualidade. Dentro das regiões com piores índices, estão as estações nos ribeirões do Onça e Arrudas, ambas presentes na capital.

 

Qualidade. Segundo dados do Projeto Águas de Minas, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Belo Horizonte está entre os cinco municípios banhados pela bacia do rio das Velhas em que a água está em uma situação crítica. Além disso, a grande concentração de indústrias na região metropolitana é outro fator relevante para a má qualidade das águas na região. Heringer afirma que, além das questões de saneamento básico, para recuperar os rios da cidade é preciso também modificar a lógica do mercado e de como os recursos naturais são utilizados. “Temos que ter uma economia que respeite totalmente os limites que a natureza tem, para assim manter vivos os ecossistemas”, explica.

 

A Copasa informa que grande parte do esgoto coletado na região metropolitana é tratada nas estações do Onça e Arrudas. Essas unidades têm os tratamentos primário e secundário e atendem plenamente as legislações brasileira e estadual, que estabelecem a qualidade para lançamento de efluentes em cursos d’água. O tratamento de esgoto terciário ainda é raro no Brasil, conforme a Copasa, devido aos altos custos envolvidos nos processos para remoção de poluentes específicos, além de não ser uma exigência legal. O percentual de esgoto coletado na capital, hoje, é 97,2%, e o tratado é 85,6%.

 

Remunicipalizar pode ser saída

 

A remunicipalização de serviços de tratamento de água e esgoto é uma tendência mundial. Nos últimos 15 anos, foram 180 casos em 35 países, todos depois de experiências diretas com problemas na gestão privada da água, como a falta de investimento em infraestrutura, o aumento abusivo de tarifas e danos ambientais.

Casos famosos aconteceram em grandes cidades, como Berlim e Paris. Na capital francesa, após a remunicipalização, a nova operadora poupou € 35 milhões e permitiu que as tarifas fossem reduzidas em 8%. Atualmente, o preço do tratamento de água em Paris permanece abaixo da média do resto da França.

 

Casos pelo mundo

 

Coreia do Sul. O rio Ham, que corta a capital da Coreia do Sul, era poluído e impróprio para várias atividades. Há cerca de dez anos, o país iniciou um projeto de revitalização e com a instalação de seis estações de tratamento de esgoto, hoje as águas são límpidas. Foram feitos parques em suas margens e, atualmente, essas estruturas e o curso d’água podem ser usados.

 

Reno. Em 1987, foi elaborado o Programa de Ação para o Reno, que corta diversos países da Europa Ocidental, como França, Alemanha e Suíça e era tomado pela poluição química. Com o fim do despejo de dejetos das indústrias e outros tipos de poluição, o Reno conseguiu se recuperar, e a fauna voltou para o rio, inclusive salmões e trutas.

 

Tâmisa. Sua despoluição durou mais de um século. Já em 1610, a água não era considerada potável, porque o esgoto londrino era simplesmente despejado no rio. Em 1869, foi construída a primeira usina de filtragem, para diminuir o problema com o esgoto. No início, a medida funcionou, mas, com o crescimento urbano, o rio tornou-se poluído novamente. Então, o governo construiu diversas estações de tratamento, entre 1964 e 1974, o que resultou em sua recuperação.

21-03-2016