A Carta de Morrinhos: Meta 2020 para o Velho Chico



Em 2015, ambientalistas reuniram-se, em Matias Cardoso, para discutir os problemas da Bacia Hidrográfica do São Francisco e definir ações para sua revitalização até 2020, tendo como anfitrião Francisco de Assis Pereira. Eles integram dois grupos que conhecem os problemas para a navegação, o desaparecimento de afluentes, o sumiço dos peixes, a poluição e o desalento dos barranqueiros diante das suas condições atuais de trabalho. O local é emblemático, porque Nossa Senhora da Conceição de Morrinhos foi a primeira freguesia instalada em Minas Gerais. Isso aconteceu em 1695, mas o nome foi alterado em 1923, em homenagem ao seu fundador, Mathias Cardoso de Almeida, quando o povoado tornou-se distrito do município de Manga; manteve a toponímia desde então.

 

O primeiro grupo era do Manuelzão, que tem se empenhado, desde 1990, pela revitalização do rio das Velhas, sob a liderança de Apolo Heringer Lisboa. Seus integrantes têm muitas informações sobre esse afluente que foi navegável, até o fim do século XX, por barcaças e pelo vapor Saldanha Marinho, mas vem sofrendo danos imensuráveis por atravessar o Quadrilátero Ferrífero. Esses ambientalistas realizaram a “Expedição das Minas aos Gerais”, em 2003, descendo de caiaque os 800 km desde a nascente, em Ouro Preto, até o rio São Francisco.

 

O segundo grupo surgiu em 2012, sob a liderança de Geraldo Humberto e Délio Pinheiro, sob o rótulo Vidas Áridas, em homenagem a Graciliano Ramos, autor do livro “Vidas Secas”. Os jornalistas viajaram pelo sertão são-franciscano e fizeram uma exposição, em 2013, cujo nome foi “Fome de Água no Sertão”, buscando sensibilizar a sociedade quanto ao uso correto dos recursos hídricos.

A Carta de Morrinhos indica ações em prol da revitalização imediata do São Francisco, para trazer de volta os peixes, a navegabilidade e a balneabilidade da bacia. Não tem caráter partidário, governamental ou corporativo. Trata-se de um convite para que haja atitudes individuais e coletivas concretas que encaminhem engajamento para duplicar o volume de água superficial e subterrânea; preservar as lagoas marginais; melhorar a potabilidade; mobilizar as comunidades e criar ações operacionais, técnicas e científicas, com recuperação dos diversos ecossistemas da região.

 

Seus signatários insistem que a revitalização não pode sustentar-se no desassoreamento com tratores, em aterros sanitários ou piscinões. Querem que ela comece nas nascentes e cabeceiras de todos os rios e alertam que o grande passo será a ecologização da economia mundial, mudando a matriz econômica de produção e consumo, para preservar o ambiente.

 

Optaram pela terminologia Meta 2020 porque ela define objetivos e prazos, ajustando cronogramas e ordem de sucessão das ações, para que haja avanços significativos nos próximos cinco anos. A natureza não pode esperar indefinidamente, enquanto as agressões são constantes com destruição de nascentes, da fauna e da flora, inviabilizando a sobrevivência da bacia.

Gilda Castro

07-03-2016