Nadar na praia do Onça em 2020



Domingo de Carnaval em Belo Horizonte. Um bloco vagueia pelas ruas do bairro Ribeiro de Abreu, na região nordeste, sob o sol escaldante de fevereiro. Com os pés no chão, a banda toca no meio dos foliões. O calor é arrefecido pelas mangueiradas vindas das casas e por um caminhão pipa que recebe a folia na praia do Ribeirão do Onça.

 

Opa, praia do quê? Mas existe esse oásis em BH? Essa era a reação de quem chegava ao local onde o Córrego da Isidora desemboca no Onça, a treze quilômetros da Praça da Estação. A areia branca, o encontro dos rios, as árvores e passarinhos compunham o cenário perfeito para um tibum – não fosse o esgoto. O malfadado e onipresente esgoto.

 

Expedições como aquela, dentro ou fora do Carnaval, recriam laços de afeto com lugares esquecidos. Voltamos a imaginar domingos felizes na beira do riacho, toalha de praia na areia, piquenique, guarda sol, farofa, crianças nadando, a água deliciosa e refrescante. Vida possível que existe em muitas cidades e já existiu por aqui.

 

Parece óbvio, mas não custa lembrar que rios não nascem sujos. Quem quiser conferir, basta ir a uma nascente para ver água pura, cristalina, brotando do chão. A sujeira vem depois, com a ocupação humana inconsequente e a inoperância de um setor público que tolera conviver com a falta de tratamento em mais da metade do esgoto produzido no país.

 

Se levássemos nossa saúde a sério, saneamento básico seria objeto de uma força tarefa urgente. A situação de calamidade em que vivemos não somente nos priva de alegrias dominicais: ela gera doenças e mortes. Estudos associam o surto de Dengue e Zika à carência de saneamento, sendo os bairros sem esgoto ou água tratada os mais vulneráveis.

 

Há uma epidemia no país, mas as companhias privatizadas distribuem lucro aos seus acionistas. Somente a Copasa distribuiu mais de R$ 1,5 bilhão em dividendos desde 2003 – ano em que a companhia foi privatizada na gestão de Aécio Neves. Quantas estações de tratamento, quantos quilômetros de rede de esgoto, quanto investimento urgente não poderia ter sido feito com esses recursos? Como falar em “lucro” frente a tanta carência?

 

Há quem enxergue na privatização de serviços públicos aumento de eficiência, mas as contradições entre os objetivos da coletividade (tarifa baixa, acesso universal, equilíbrio ambiental, investimentos de longo prazo) e os de uma sociedade privada (maximização de lucros) têm tido efeito inverso. De 2000 a 2014, mais de 180 cidades, dentre eles Atlanta, Berlim, Buenos Aires, Budapeste e Paris, devolveram a empresas públicas o fornecimento de água que haviam privatizado na década de 1990.

 

A remunicipalização trouxe redução das tarifas, aumento de investimentos, transparência e participação social. Na capital francesa, uma auditoria mostrou que as concessionárias maquiavam custos para justificar tarifas até 30% acima do contrato. A remunicipalização, em 2010, permitiu uma economia de 35 milhões de euros no primeiro ano. Histórias como esta são detalhadas em uma pesquisa realizada por diversos institutos e disponível na internet.

 

Por aqui, a Copasa divulga números nos quais é difícil acreditar. Segundo a companhia, mais de 95% de esgoto de BH é coletado. Quem visitou o Onça no domingo de Carnaval viu aquilo que quem conhece os córregos da cidade vê todo dia: muitas e muitas conexões diretas banheiro/rio, em casas que, muitas delas, pagam taxa de esgoto. Em que outra situação uma companhia privada se dá ao direito de cobrar por um serviço que não é prestado?

 

Hoje o Estado é governado pelo PT, que criticou a privatização da Copasa mas que, no poder, não só nada fez para revertê-la como atua para ampliá-la. Se quisesse de fato prover saneamento básico universal, o governo trabalharia sério pela transparência, controle social e reinvestimento de 100% da receita, até que todo o Estado tenha de fato água tratada e esgoto coletado.

 

Nadar na praia do onça em 2020 é uma meta alcançável e transformadora. É um indicador objetivo para uma cidade saudável, em que as águas deixam de gerar doenças e passam a produzir afeto e lazer. Como coloca o médico e ambientalista Apolo Heringer, a qualidade das águas espelha a qualidade da ocupação humana. O espelho d’água mostra a nossa cara.

29-02-2016