Lama ainda chega ao rio Doce

Mais de um mês após o rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, na região Central do Estado, a lama de rejeitos de mineração continua a chegar ao rio Doce. E o plano para a contenção do material ainda não tem previsão para ser concluído. Enquanto isso, moradores dos municípios ao longo do curso d’água sofrem para conseguir água limpa.

 

Segundo a assessoria de imprensa da Samarco, proprietária da barragem, a mineradora começou a construir dois diques de 10 m de altura, capazes de reter 2,7 milhões de sedimentos. O objetivo é liberar a água mais limpa e barrar o material sólido, evitando que as chuvas levem sedimentos para o rio Gualaxo, que desemboca no rio Doce. Não foi informado o prazo para terminar as estruturas.

 

Outras ações informadas pela mineradora são a dragagem da barragem de Santarém, uso de sacos de tecido especial para o armazenamento dos rejeitos e limpeza das áreas afetadas nas cidades de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado.

 

Cenário. Conforme o prefeito de Mariana, Duarte Júnior (PPS), a lama continua a descer da barragem, escorrendo até o ribeirão do Carmo, em Bento Rodrigues, e chega ao rio Doce. O volume de rejeitos, ainda desconhecido, é intensificado em dias de chuva.

 

A reportagem de procurou as prefeituras de Barra Longa, na região Central, de Governador Valadares, no Rio Doce, e de Colatina, no Espírito Santo. Apesar da redução da turbidez e volume de rejeitos, todas confirmaram a presença da lama no rio Doce e nenhuma previsão dada pela Samarco para colocar fim ao problema.O TEMPO

 

Segundo o geólogo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Eduardo Marx, grande parte da lama que desceu da barragem de Fundão está presa na Usina Risoleta Neves (represa de Candonga) e também nas áreas urbanas das cidades afetadas. “Candonga tinha antes 60 m de profundidade e agora está só com 10 m. É necessário dragar a lama de lá. O escoamento do material vai depender das chuvas”, afirmou.

 

O especialista, que participa de um estudo especial em curso para analisar o impacto do rompimento, a pedido do Ministério Publico de Minas Gerais (MPMG), afirma que o escoamento de toda a lama do rio Doce, proveniente de Fundão, pode demorar anos para chegar, por completo, ao mar. “É preciso limpar o material e levá-lo para pequenos bota-foras ao longo do rio”, adiantou.

 

Saiba mais

 

Escola. O prefeito de Mariana, Duarte Júnior (PPS), anunciou ontem que o banco Santander vai reconstruir a escola de Bento Rodrigues e garantir a manutenção e reformas vitalícias da unidade. O novo endereço do prédio ainda será definido. O acordo foi firmado durante a visita do prefeito na 21ª Conferência do Clima (COP 21), realizada em Paris.

 

Estudo. Professores da Faculdade Federal de Viçosa aguardam repasse de recursos do Ministério Público de Minas para iniciar análises do impacto do rompimento da barragem. O estudo será concluído em 60 dias e vai avaliar os danos à fauna, flora, água, dentre outros.

 

 

Conjunto de falhas pode ter derrubado barragem

 

 

As razões para rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, ainda são desconhecidas. No entanto, especialistas concordam que a tragédia foi causada por um conjunto de fatores. Investigações estão em curso para levantar o que ocorreu em 5 de novembro. Para o presidente do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de Minas (Ibape-MG), Clémenceau Chiabi Saliba Júnior, não se pode apontar ainda quais os fatores determinantes para a ruptura, mas peritos do Ibape estão em Mariana.

 

Para o geólogo da Faculdade Federal de Viçosa, Eduardo Marx, que esteve no local, dentre os itens que podem ser citadas como causas estão as falhas na drenagem e do monitoramento da barragem, o tipo de contenção feita, a velocidade do alteamento da estrutura, e a ocorrência de liquefação do material (fenômeno de transição ao estado líquido de substância que se encontra no estado gasoso ou sólido). “O abalo sísmico detectado pode ter contribuído. É mais um fator, mas sozinho não teria causado o rompimento”.

 

 

ONU critica fornecimento de água

 

O relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Água e ao Saneamento Básico, o brasileiro Léo Heller, criticou o governo por não estar garantindo acesso à água para as vítimas do desastre ambiental em Mariana e alerta que análises do Rio Doce revelaram “níveis de elementos tóxicos que superam os níveis aceitáveis”.

 

Mais de um mês após a tragédia, centenas de milhares de pessoas em Minas e no Espírito Santo ainda sofrem com interrupções no abastecimento de água, alertou o relator da ONU. Essa foi a terceira vez em duas semanas que a ONU emite um comunicado sobre o desastre. Na segunda-feira, a entidade indicou que fará uma inspeção em Mariana, enquanto outro comunicado apontou que o caso não foi acidente, mas, sim, um crime.

 

Agora, a preocupação é com a água. “As pessoas estão preocupadas com a qualidade da água distribuída pelos sistemas de abastecimento que já foram restabelecidos. Também estão frustradas por receberem informações inconsistentes e inadequadas sobre a segurança da água, por parte das diferentes autoridades”, afirmou.

 

O relator disse que o governo deve fortalecer o monitoramento da água bruta e tratada, aperfeiçoar o tratamento e divulgar informação clara. Ele admite que, “como medida de emergência”, as autoridades vêm distribuindo água, e as mineradoras têm levado água engarrafada a áreas afetadas. “No entanto, várias pessoas seguem expressando insatisfação”. (Com agências)

Reforço de seis poços artesianos

 A presença da lama no rio Doce ainda obriga as cidades que captam água do curso d’água a utilizar o polímero da acácia negra para separar a lama e conseguir tratar o líquido. A distribuição de galões e outras alternativas ainda são necessárias em várias localidades.

 

Em Colatina (ES), a Samarco anunciou que interligou seis poços artesianos à Estações de Tratamento de Água (ETA) da cidade. A empresa informou que o volume total de água acrescida à rede será de aproximadamente 39 litros/segundo, o equivalente a 13% da necessidade da região. Projetos para construção de novas adutoras estão sendo elaborados.

 

Laudos emitidos por laboratórios contratados pelos municípios e Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) atestaram a potabilidade e a ausência de contaminantes ou outros materiais tóxicos na água que chega às torneiras dos moradores.

9-12-2015