Sem água, moradores de Itambacuri, no Vale do Mucuri, vivem situação de calamidade pública



Itambacuri - O semblante triste e cansado dos moradores é o primeiro sinal de que alguma coisa está errada. Juntando esse retrato ao trânsito de caminhões-pipa para todos os lados e à presença de tambores, galões, baldes e outros recipientes na porta das casas e na carroceria de caminhonetes, a conclusão é certa: a falta de água – que até a última quarta-feira, dia 18, secou as torneiras de 16 mil dos 23 mil moradores de Itambacuri, município do Vale do Mucuri, encostado na BR-116, entre Governador Valadares e Teófilo Otoni, a 420 quilômetros de Belo Horizonte – revela uma situação de calamidade pública. Apesar de o abastecimento ter sido retomado na quinta-feira, a cidade vive um quadro de racionamento de água.

 

No reservatório que abastece a sede da cidade, o cenário é inimaginável. Um filete de água escorre em meio à terra seccionada pela seca extrema. A Estação de Tratamento de Água (ETA) está praticamente à míngua. O pouco que chega não tem força para subir os morros, deixando a periferia completamente desabastecida. A chuva do último fim de semana levou esperança aos moradores, mas ainda não representa a recuperação da barragem, que continua seca.A reportagem do Estado de Minas esteve em Itambacuri e conversou com a população, com a administração municipal e com especialistas, chegando à conclusão de que a situação vivida hoje na cidade é resultado da falta de planejamento, ausência de controle do uso e até da distribuição da água, desperdício e sucessivas agressões ao meio ambiente. Tudo isso amplificado pela falta de chuvas que assola todo o estado há pelo menos três temporadas chuvosas, entrando agora na quarta estação das águas ainda sem precipitações dentro das médias históricas.

 

Especialistas apontam que situações vividas em anos anteriores já eram suficientes para nortear a atuação da prefeitura de forma a minimizar o quadro. A administração sustenta que o fato de tão severa falta de água nunca ter se repetido na história da cidade é suficiente para complicar o trabalho. E a população sofre com o drama de ficar sem água.

 

O período mais crítico começou em 20 de outubro. O prefeito de Itambacuri, Vicente Guedes (PHS), diz que, um dia depois, a água se esgotou no reservatório que armazena o recurso oriundo do Córrego do Poquim, um braço do Rio Itambacuri, que faz parte da Bacia do Rio Doce. “Começamos tentando levar caminhões-pipa para a ETA, mas ficou inviável, já que o consumo da cidade gira em torno de 2,5 milhões de litros por dia e os caminhões carregam apenas 10 mil. Começamos a pegar água da Copasa em Teófilo Otoni, mas foi insuficiente. Por fim, começamos a estourar represas rio acima.” O prefeito admitiu que isso não garante o abastecimento.

 

 

A chegada da reportagem no Bairro Coqueiros foi vista como uma chance de a água voltar a sair pelas torneiras. De longe, já na fila para conseguir água, um dos moradores gritou: “Tem que denunciar essa situação. Como que pode acabar a água da gente?”. A lavradora Domingas Gonçalves Pereira, de 56 anos, carregava o desânimo na expressão do rosto. Com dificuldades para levantar um balde de cerca de 14 litros, ela só se preocupava em matar a sede de quatro filhos e seis netos. “A gente vai sendo vencida pelo cansaço. Quando faz barulho de caminhão, isso aqui vira um alvoroço, menino. Todo mundo quer pegar água para não correr o risco de morrer de sede”, conta.

 

INSUFICIENTE A dona de casa Roseli Soares da Silva ostenta dois galões de 20 litros vazios. “A prioridade é cozinhar e beber. Roupa a gente só lava quando realmente está no limite, mas aí carrega a trouxa na cabeça e leva até algum poço que ainda tenha sobrado”, diz.

 

Já no Bairro Santa Clara, o caminhão abastece uma caixa-d’água colocada na região para evitar problemas causados pelo desespero, misturado à quantidade de pessoas sem o recurso. A própria população vai enchendo baldes e galões, esperando a oferta de água, que costuma aparecer de duas a três vezes por dia.

MEDIDAS PALEATIVAS O problema da seca vivido na cidade de Itambacuri, no Vale do Mucuri, divide especialistas, a população desabastecida e o prefeito Vicente Guedes (PHS), que esteve ontem em Belo Horizonte reunido com o secretário de Desenvolvimento de Integração do Norte e Nordeste de Minas Gerais. Enquanto o chefe do Executivo municipal garante que uma intervenção para reconstituir uma barragem antiga vai resolver o problema da falta de água, professores e técnicos não enxergam em uma ação pontual o fim do drama. Eles apontam problemas de gestão e só acreditam na solução com investimento focado em ações de recomposição das microbacias. Vereadores de corrente política contrária à do prefeito também denunciam irregularidades na gestão, como mau uso de dinheiro enviado pelo Ministério da Integração Nacional para lidar com problemas de enchentes em 2014. O certo é que a degradação do meio ambiente e a precariedade do abastecimento público levaram a população a uma situação extrema de falta d’água. O fim de semana foi de chuva na cidade, mas ainda não na quantidade necessária para salvar emergencialmente o abastecimento. O professor Leonel de Oliveira Pinheiro, que é coordenador do Grupo de Extensão e Pesquisa em Agricultura Familiar (Gepaf), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), diz que desde 2010 a universidade vem estudando a cidade e o que está ocorrendo hoje é resultado de um processo que não veio da noite para o dia. Ano passado, por exemplo, o volume da barragem que atende a sede do município reduziu drasticamente e ela ficou praticamente seca, mas a chuva evitou o desabastecimento.

 

 

Ele critica a falta total de planejamento. “Há apenas soluções imediatistas de apagar fogo. Agora, a população está furando poços artesianos desmedidamente e sem licenciamento ambiental, o que acaba piorando a situação, porque o lençol freático já está comprometido e está sendo ainda mais sugado sem recarga”, afirma. O gerente regional da Rural Minas, Leonardo Machado Natalino, que também é geógrafo ambiental, diz que a barragem atual nunca passou por um processo de manutenção, com o objetivo de promover, por exemplo, o desassoreamento. Há 10 dias, quando a represa secou completamente, o excesso de sedimentos apareceu claramente.

 

“As ações devem ser direcionadas para a bacia que atende o município, para aumentar o poder de infiltração da água no solo e recuperar o lençol freático”, diz. O vereador Lúcio Pacheco (Pros), que é presidente da Câmara Municipal de Itambacuri, critica a demora do prefeito em tomar uma atitude frente ao desabastecimento. Ele aponta que não foi feito um racionamento prévio para minimizar os impactos e aponta que apenas dois caminhões-pipa da prefeitura rodam com frequência levando água aos bairros. O parlamentar também cita a abertura de um inquérito civil pelo Ministério Público Federal (MPF) para apurar supostos desvios de verba encaminhada pelo Ministério da Integração Nacional ano passado para reconstruir a cidade depois de chuvas fortes. O valor repassado foi de R$ 1,6 milhão.

 

O prefeito Vicente Guedes (PHS) nega a falta de planejamento, já que a crise que secou a barragem da cidade não tem precedentes históricos. “O ano passado apenas reforçou um projeto que nós já tínhamos, que é inclusive a solução do problema: a construção do novo reservatório, a barragem de cima”, diz. Guedes garante que, com a nova barragem, que já tem projeto, regularização do terreno e licenciamento, o município terá autonomia de 200 dias sem chuva. A represa seca garantia aporte de apenas 40 dias. A obra está estimada em R$ 1 milhão e aguarda publicação do edital pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Integração do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Sedinor), já que o barramento antigo se rompeu em 1979 e deixou ruínas de concreto no local.

 

Sobre o inquérito no MPF, o prefeito diz que a investigação partiu de denúncias de adversários políticos e que os recursos recebidos foram devidamente usados principalmente para recompor o pavimento arrancado pela chuva em alguns lugares e para construir redes de drenagem. “As contas foram prestadas e aprovadas pelo Ministério da Integração Nacional.” Vicente Guedes ainda garante que tem 11 caminhões-pipa à disposição, entre veículos do estado, da União e de prefeituras vizinhas, fora aqueles de doações. Mas reconhece que eles não ficam todos juntos à disposição. Por fim, o prefeito reclama de pouca ajuda do estado e da União no momento de dificuldade, principalmente pelo não reconhecimento do estado de calamidade pública.

 

A Sedinor informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o projeto da reconstrução emergencial da barragem de cima está em análise técnica e o convênio será assinado nos próximos dias com recursos próprios da secretaria.

 

 

Enquanto isso...

...LENTA RECUPERAÇÃO NA GRANDE BH

A intensificação das chuvas nos últimos dias tem contribuído para o elevar o nível dos reservatórios do Sistema Paraopeba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) informou, ontem, que a capacidade total das represas chegou a 20,8%. O volume de água começou a aumentar na quinta-feira, quando o índice saiu dos 20% (o mesmo dos três dias anteriores) para 20,2%. O maior responsável por esse resultado positivo é o Sistema Várzea das Flores, que, de sexta-feira para sábado, registrou aumento de 21,9% para 24,7%. Já a capacidade do Sistema Serra Azul saltou de 5,4% para 5,5%. Por outro lado, o volume do Sistema Rio Manso se manteve nos 28,7%, pelo segundo dia consecutivo. Apesar do aumento, o Sistema Paraopeba conserva o menor índice da história, desde 2013, o que mantém o estado de alerta.

Como no Nordeste

Na parte mais alta do bairro, o pedreiro José Galdino, de 52, aguardava em frente a outra caixa que tinha acabado de ser abastecida. Morando há 23 anos em Itambacuri, ele só tinha presenciado situação semelhante no interior do Nordeste. “Sem água, é impossível viver. Minha maior preocupação é com as pessoas bebendo e cozinhando com uma água que, muitas vezes, não sabemos se é própria para isso. Portanto, aqui pretendo conseguir uma pequena quantidade pelo menos para garantir o mínimo de limpeza da casa”, afirma. Para matar a sede da mulher e de oito filhos, José Galdino diz que vai se virando com o pouco que ganha. “Tem que tentar comprar para que um problema não acabe criando outro, deixando a família toda doente”, diz.

24-11-2015