Nascente de águas límpidas do Gualaxo contrasta com a devastação



A 1.380 metros acima do nível do mar, na Serra do Espinhaço, nascem as águas límpidas, sem um turvo de barro ou lodo, que formam o Rio Gualaxo do Norte, em Ouro Preto, Região Central de Minas. Cercado pela Mata Atlântica, que serve de reserva aos carcarás, esse trecho preservado contrasta com o manancial de calha devastada por 62 milhões de metros cúbicos de lama, equivalentes a 20 mil piscinas olímpicas, que vazaram da Barragem do Fundão, no complexo minerário da Samarco, em Mariana, no dia 5. O desastre dizimou a mata ciliar do rio, arrebatou peixes que ninguém sabe onde foram parar e transformou 48 dos 60 quilômetros de extensão do manancial num canal de lama vermelha em meio a um deserto de barro e minério de ferro. A reportagem do Estado de Minas foi ontem à nascente do Rio Gualaxo do Norte para mostrar a vitalidade do primeiro curso d’água soterrado nessa que é a pior tragédia ambiental do Brasil.

A saga do Gualaxo do Norte começa pouco depois de as primeiras cascatas serem formadas num maciço rochoso com inclinação de quase 90 graus. Bastam 500 metros para as quedas d’água entrarem no complexo minerário de Timbopeba, pertencente à mineradora Vale, que é controladora da Samarco juntamente com a australiana BHP Billiton. Do cenário à sombra das árvores, samambaias e da presença das aves de rapina, a água começa a se enveredar entre estradas de terra por onde passam caminhões pesados de minério de ferro, dutos, esteiras e duas barragens. São seis quilômetros permeando a atividade que é incessante e diuturna, até atravessar a rodovia MG-129, já no município de Mariana. São mais seis quilômetros até o ponto em que a lama da barragem rompida atingiu rio acima. Assim, restou aos peixes, artrópodes e à flora aquática um espaço de apenas 12 quilômetros para sobreviver.

 

Nas águas do Gualaxo do Norte nadavam traíras, bagres e tilápias. A intensa atividade mineradora na região e os garimpos de ouro clandestino já vinham degradando aos poucos esse manancial, como atesta a tese de doutorado de Aline Sueli de Lima Rodrigues para a Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), que avaliou as condições do rio antes da tragédia ambiental. Pelos levantamentos, o Rio Gualaxo do Norte tinha sofrido erosão e desmatamento que o deixavam numa condição “regular” na porção inicial, de 20 quilômetros, até o subdistrito de Bento Rodrigues, o mais devastado pela lama. E era justamente nas porções adiante, até o encontro do manancial com o Rio do Carmo, em Barra Longa, que o Gualaxo do Norte apresentava o melhor estado de conservação, com matas ciliares e margens praticamente intactas, de acordo com o estudo.

23-11-2015