Água e saneamento não podem esperar



Os novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), acordados em setembro pelos membros da Organização das Nações Unidas (ONU), estão todos inter-relacionados, como já foi dito reiteradamente. Mas é no objetivo 6 – garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos – que é mais evidente.

 

A água flui em toda a agenda de desenvolvimento para 2030, e o saneamento e a higiene sustentam todo possível êxito derivado do acesso à água. Se não cumprirmos o objetivo 6, não concretizaremos os outros 16 objetivos e as 169 metas. Os avanços em educação, saúde, desigualdade e pobreza extrema dependem de como agirmos em matéria de água e saneamento.

 

Há alguns anos a ONU declarou que o acesso a água e saneamento é um direito humano básico. Mas atualmente 663 milhões de pessoas carecem de acesso adequado a água potável e 2,4 bilhões não têm latrinas. No Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estamos particularmente preocupados com as meninas e os meninos, afetados de forma desproporcional pela falta de acesso a esses serviços básicos.

 

Afeta sua saúde. As doenças derivadas da água e da falta de saneamento estão entre as principais causas de morte em menores de cinco anos. Sem latrinas, centenas deles adoecem e morrem todos os dias por causas evitáveis, especialmente por diarreia e outras enfermidades transmitidas por via fecal-oral.

 

Afeta sua educação. Em muitas comunidades as meninas não vão à escola porque são as encarregadas de buscar água, porque não contam com um espaço seguro para usar quando estão menstruadas, porque têm de ajudar suas mães a cuidar dos doentes, frequentemente em razão da água contaminada.

 

Afeta sua situação nutricional e seu desenvolvimento. Há cada vez mais provas dos vínculos diretos entre a falta de água potável e saneamento e a má nutrição crônica. Cerca de 159 milhões de crianças no mundo apresentam atraso no crescimento (baixa estatura para a idade), uma condição que causa danos físicos e cognitivos irreversíveis.

 

As consequências do atraso no crescimento não incidem apenas na pessoa afetada, mas podem reduzir significativamente a capacidade de aprendizado e as possibilidades futuras de várias gerações ganharem a vida e assim prejudicar a economia local e nacional.

Geeta Rao Gupta. Foto: Cortesia da autorarao_gupta

 

Geeta Rao Gupta. Foto: Cortesia da autora

 

Afeta a igualdade e a equidade. Uma das principais metas dos novos ODS é a de reduzir as desigualdades. Nova evidência do Banco Mundial mostra que investir em água e saneamento para 20% da população mais pobre gera grandes créditos econômicos, mais do que investir em outros setores e, assim, tem a capacidade de reduzir as desigualdades sociais.

 

Nossos dados dos 45 países em desenvolvimento mostram que, em sete de cada dez famílias, o peso de ir buscar água recai sobre as mulheres e as meninas, por isso que melhorar o acesso ao recurso contribuirá para a igualdade de gênero.

 

Uma reunião realizada por ocasião do 70º período de sessões da Assembleia Geral da ONU, organizada pelos governos de Holanda, África do Sul, Hungria e Bangladesh, concluiu que focar nos setores mais pobres e mais marginalizados exigirá uma enorme mudança de mentalidade por parte dos governos. Mas precisa ser feito.

 

Porém, não se pode fazer sem fortalecer as intuições nem melhorar a responsabilidade dos governos e dos provedores de serviços. E não se fará sem envolver os que têm mais em jogo, os pobres, as mulheres e os adolescentes, no planejamento e monitoramento dos serviços. Sua influência já se fez sentir no objetivo 6, a respeito do qual se chegou mais rapidamente a um acordo.

 

Não é coincidência que se consiga resultados trabalhando em estreita colaboração com as pessoas diretamente afetadas. Associar-se a elas não é “algo lindo de fazer”, mas é algo que “se deve fazer”. Definitivamente, o acesso a água e saneamento não é só uma questão de dignidade e de direitos humanos, mas é fundamental para se conseguir qualquer dos objetivos que os governos do mundo acabam de adotar.

 

Devemos começar já a trabalhar no objetivo 6, mas não pode ser mais do mesmo. Temos que começar pelas pessoas mais desfavorecidas ou corrermos o risco de perder os êxitos que laboriosamente conseguimos nos últimos 15 anos e colocar em perigo o futuro. Não há tempo a perder. Envolverde/IPS

 

* Geeta Rao Gupta é subdiretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

20-10-2015