Ambientalistas elogiam com ressalvas metas brasileiras de corte de emissões



São Paulo, 28 - As metas de redução das emissões de gases de efeito apresentadas no domingo, 27, pela presidente Dilma Rousseff foram em geral elogiadas por ambientalistas e cientistas que trabalham com clima por terem o potencial de influenciar o debate na Conferência de Paris, mas a maioria considera que o País poderia ter sido ainda mais ambicioso.

 

"O Brasil desempenha um papel produtivo no esforço global de combate às mudanças climáticas. E está contribuindo para dar ímpeto às negociações quando o alto escalão do governo apela para metas globais que acabem com as emissões em todo o mundo neste século.

 

Esta visão comum para um mundo de carbono zero é um dos sinais mais poderosos que a Conferência do Clima de Paris pode enviar para investidores, cidadãos e para o meio empresarial", afirma Rachel Biderman, diretora do World Resources Institute (WRI) no Brasil.

 

Para Carlos Rittl, do Observatório do Clima, "o mais significativo do anúncio é que Dilma diz que o Brasil já fez bastante para cortar as emissões, mas ao apresentar o novo compromisso indica que pode continuar fazendo mais. A direção está correta, mas a velocidade ainda é insuficiente".

 

"Recebemos como surpresa. Os números são ok, dão uma direção de para onde o País vai e trazem a possibilidade de uma avaliação de cinco em cinco anos da meta, o que é interessante para permitir que aumente a ambição com o passar do tempo. Mas ainda precisamos ver quanto isso vai ajudar com o objetivo de manter o aquecimento a 2°C até o final do século", afirma Carlos Nomoto, secretário-geral do WWF-Brasil.

 

Uma das dúvidas é como vai se dar a meta de restauração e reflorestamento de 12 milhões de hectares. Se for feita com eucalipto em vez de árvores nativas, por exemplo, o potencial de captura de gás carbônico da atmosfera fica bem menor.

 

O engenheiro agrícola Eduardo Assad, da Embrapa, afirmou que viu com bons olhos o fato de Dilma ter incluído na meta a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e o alcance de 5 milhões de hectares para integração lavoura-pecuária-floresta.

 

Meta anterior

 

Mas ele lembra que na Conferência do Clima de Copenhague, em 2009, o Brasil já tinha se comprometido, de modo voluntário, com uma meta semelhante. Citando dados oficiais do Banco do Brasil e do Ministério da Agricultura, ele afirma que nos últimos 4 anos recuperou-se pastagens e foi feita a integração em somente 3 milhões de hectares. "Acho ótimo que tenham colocado na meta. Pode enfim dar um impulso para um programa de mitigação das emissões da agropecuária que é o melhor do mundo", diz.

 

Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira, afirma que esse processo é um desafio grande tanto de logística quanto financeiro. "Temos de ver como vai virar realidade, mas o anúncio traz uma mensagem de que o agronegócio pode não ser apenas um ponto de conflito, mas uma solução para o problema", diz.

 

As metas para energia também foram elogiadas com ressalvas. "A parte de eletricidade é razoável, mas não tem muita ambição além do que já vem sendo feito. Além disso, é preciso transferir essa ambição para a realidade. O Plano Decenal de Energia ainda prevê 71% dos investimentos em combustíveis fósseis e apenas 14% para novas fontes renováveis e biocombustíveis", afirma Ricardo Baitelo, coordenador de Clima e Energia do Greenpeace.

 

Para Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) e autor de um dos estudos entregues pela comunidade científica para balizar a decisão do governo, a meta é ambiciosa, porém factível. "Isso significa um pequeno custo para a economia, mas mais do que compensado, se todos os outros países também fizerem sua parte, do impacto ambiental evitado pelas mudanças climáticas."

 

Outros países

 

União Europeia

 

Redução de 40% das emissões de gases de efeito estufa até 2030, com base nos valores registrados pelo bloco em 1990

 

Estados Unidos

 

Redução entre 26% e 28% até 2025, com base no ano de 2005

 

Rússia

 

Redução das emissões entre 25% e 30% até 2030, com base no ano de 1990

 

África do Sul

 

Redução de 34% até 2020 e de 42% até 2025, com base em um cenário de 'business as usual', trajetória imaginária de quanto as emissões poderiam subir até o ano determinado se nada fosse feito para reduzi-las

 

China

 

A proposta chinesa estipula 2030 como o ano em que as emissões vão atingir um pico. Até lá, o país propõe reduzir entre 60% e 65% a intensidade de carbono por PIB (quanto de carbono é emitido por unidade de PIB gerada), tendo como base o ano de 2005

 

Indonési

 

a

 

Redução de 29% até 2030, com base no mesmo cenário de 'business as usual', em que é utilizada a trajetória imaginária das emissões. Em caso de provisões do acordo global serem confirmadas, o país se compromete a reduzir as emissões em 41%

 

Coreia do Sul

 

Redução de 37% até 2030,

 

também com base no cenário de 'business as usual'

 

As informações são do jornal

 

O Estado de S. Paulo.

30-09-2015