Ribeirão Arrudas alcança 15% do leito coberto com nova obra



O principal curso d’água que corta Belo Horizonte não é mais o mesmo, foi colocado de lado à medida que a cidade crescia. Do ribeirão Arrudas que serpenteava o vale entre as montanhas da capital, sobrou uma caixa de cimento por onde corre água poluída. A constatação de ambientalistas e especialistas em gestão de recursos hídricos é reforçada pela obra do mais novo trecho do bulevar Arrudas, prevista para ser inaugurada no fim do ano. Com ela, mais 450 metros do rio, na avenida do Contorno entre as ruas Rio de Janeiro e 21 de Abril, irão para debaixo do asfalto. Serão 6,9 km (15%) dos 47 km de extensão do ribeirão tapados – valor considerado alto por quem atua no setor.

 

Ao todo, 26,8 km (57%) do Arrudas já estão fora do seu curso natural, correndo por canais de concreto. Especialistas em meio ambiente enxergam a canalização como um retrocesso e defendem que ainda há tempo para salvar o rio e fazer com que ele volte a ser protagonista na cidade. A canalização em BH começou ainda nos anos 20 e só foi concluída do jeito como está hoje em 1997. Dez anos depois, em 2007, estava inaugurada a primeira fase do bulevar – previsto para dar mais espaço aos carros, melhorar o trânsito e prevenir enchentes. As obras da nova fase do bulevar Arrudas estão orçadas em R$ 29,5 milhões.

 

Para o ambientalista e idealizador do projeto Manuelzão Apolo Heringer manter o rio em seu curso natural, preservando as matas ciliares, evitaria as enchentes. E uma forma de reverter a ocupação desordenada das margens dos rios seria a criação de parques lineares.

 

Cachoeira. Com 15% do Arrudas tapados, para ver o ribeirão correr em seu leito natural é preciso ir até a sua nascente, na serra do Rola Moça, no Barreiro, ou seguir até o fim da avenida dos Andradas, onde o curso volta a ser natural com uma bela cachoeira. “Quando você cobre esse ribeirão, retira do cidadão o direito de conhecer os rios de sua cidade e lugares de lazer e recreação, além de dificultar a preservação dos recursos hídricos”, analisa Heringer.

FOTO: Editoria de arte

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O presidente do Comitê da Bacia do Rio das Velhas, Marcos Vinícius Polignano, afirma que a técnica de tornar os rios “invisíveis” já é uma prática ultrapassada dentro da arquitetura e do urbanismo. “A concepção de avenidas sanitárias, tapando o ribeirão, já foi superada. Fazer com que o rio suma não vai resolver os problemas de enchentes nem de trânsito”.

 

Nomes de vias

 

Rios. Responsável pelo projeto de BH, o engenheiro Aarão Reis batizou avenidas da cidade com os nomes dos rios do Brasil. Apenas a Amazonas e a Paraná mantiveram a homenagem.

 

Metrópole modificada por reabertura de rio

 

Derrubar pontes e viadutos e abrir avenidas expressas para trazer de volta o rio que havia sido tapado há mais de 40 anos. Foi isso o que aconteceu com o ribeirão Cheonggyecheon, em Seul, capital da Coreia do Sul. A experiência do país asiático é a esperança para quem quer ver o Arrudas de novo aberto à população e com águas limpas.

FOTO: Alex de Jesus/O Tempo Alex de J

Obras de ampliacao do Boulevard Arrudas Obras de ampliacao do Bo

Obra para cobertura do rio Arrudas deve terminar até o fim do ano

 

Para fazer a obra, que foi de 2003 a 2007, a Prefeitura de Seul precisou gastar R$ 491 milhões, enfrentar a resistência de comerciantes e realocar 3.000 moradores.

 

“Isso mostra que há tecnologia para reverter o quadro em que o Arrudas se encontra atualmente. E não há solução para revitalizar o rio das Velhas, principal afluente do rio São Francisco, que não passe pela recuperação do Arrudas”, afirma o presidente do Comitê da Bacia do Rio das Velhas, Marco Polignano.

 

Ele explica que um esforço de preservação já está sendo feito com um trabalho de manutenção de 600 nascentes que deságuam no Arrudas, mas é preciso a retirada do esgoto. “A Copasa consegue recolher 70% do esgoto da bacia do Arrudas, mas é necessário avançar mais”.

 

Bulevar Arrudas. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), a nova etapa do bulevar Arrudas vai proporcionar o alargamento das pistas, com tratamento adequado dos passeios, criação de canteiros permeáveis e espaços de convivência para pedestres.

 

Faixa exclusiva. A obra ainda vai possibilitar a implantação de faixas exclusivas para ônibus, e, em compensação, estão previstas duas fileiras de corredores de árvores para criar sombreamento, diminuir o barulho causado pela circulação de veículos, filtrar a poluição e melhorar o acesso para os pedestres.

22-09-2015