Árvores viram carvão e dão lugar a pastagens



Morro do Pilar – Enquanto rumina capim braquiara ressecado, o gado mestiço desvia de toras de lenha com casca retorcida e cinzenta empilhadas num pasto em formação onde antes dominava a floresta de cerrado. Os bois e as vacas substituíram animais sivestres tímidos e cada vez mais raros de serem vistos fora das matas, como o lobo-guará e o gato-maracajá, ameaçados de extinção. Os exemplares de muricis, quaresmeiras e paus-terra cortados eram parte de um bosque no alto das colinas do distrito de Areias, em Morro do Pilar, na Região Central de Minas, e que deveria ser protegido das motosserras e dos tratores por estar dentro dos limites da Área de Preservação Ambiental (APA) da Serra da Pedreira, que forma um anel em torno do Parque Nacional da Serra do Cipó. A abertura de pastos dentro da unidade pode ser detectada por meio de pesquisa em imagens de satélite que mostram a cobertura vegetal sendo removida com o passar dos anos. Por esse método foram encontrados 28 pontos que somaram área de 203,32 hectares devastados nos últimos cinco anos.

 

As árvores tortuosas, os coqueiros, as samambaias e as canelas-de-ema são derrubadas pelas motosserras para servir de lenha nas próprias propriedades rurais. Em seguida, tratores são usados para remover do solo os tocos deixados e preparar a terra para receber o capim exótico que vai substituir a floresta. De acordo com o engenheiro-agrônomo Julio Ayala, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Urucuia (CBH-Urucuia), esse é o processo que vem empobrecendo o solo e dificultando a conservação de água subterrânea que abastece rios importantes, como o das Velhas, o São Francisco e o Doce. “O pisoteio do gado, depois do desmatamento, compacta o solo com o passar do tempo e impede que a água das chuvas penetre. Daí a importância da conservação das matas. A recuperação disso é muito custosa e demorada”, afirma.

 

No caminho para as terras desmatadas, as estradas rurais cruzam vários mananciais que correm da Serra do Cipó e abastecem grandes afluentes do Rio Doce, como o Rio Preto, o Rio do Peixe, e pelo menos 10 córregos, entre eles o Água Limpa e o Gentil. O plantio e a colheita do eucalipto também disfarçam desmatamentos nessas propriedades, mas a abertura de pastagens para a pecuária ainda é a ameaça mais visível à área de preservação. De acordo com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), nenhum dos empreendimentos encontrados pela reportagem tem licença para cortar e recolher madeira nativa ou plantada.

 

CONCEITO ANTIGO De acordo com a coordenadora do grupo de estudos de Temáticas Ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Andrea Zhuri, apenas a criação dos parques não é suficiente para conservar a biodiversidade e os corpos hídricos que nascem e correm dentro da área demarcada. “Essa concepção antiga dos parques nacionais é do século 18, 19. Criaram-se reservas que são ilhas incapazes de proteger integralmente (o ecossistema). É preciso ter continuidade e fiscalização presente. Hoje, a fiscalização ambiental não é eficaz e está desaparelhada”, afirma. E essa é uma das funções da APA Morro da Pedreira, que serve de amortecimento de impactos para o Parque Nacional da Serra do Cipó. A APA tem 131 mil hectares e abriga várias espécimes ameaçados de extinção, como o lobo-guará e o gato-maracajá. Pela definição do Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade (IcmBio), as APAs têm como objetivo proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais.

 

No Parque Nacional da Serra do Cipó, a preocupação dos gestores tem sido a expansão imobiliária, com a abertura de chacreamentos sem licença em terrenos particulares junto aos limites da unidade, algo muito presente em São José da Serra, distrito de Jaboticatubas, onde a prefeitura ainda não implantou o plano diretor, e por isso proliferam áreas de expansão urbana, campings e pousadas.

 

Segundo o coordenador regional do IcmBio, Mario Douglas Fortini de Oliveira, o Parque Nacional da Serra do Gandarela ainda não tem equipe lotada e a coordenação regional vem realizando incursões periódicas na área do parque objetivando sua proteção. “Há previsão tanto de lotação de uma equipe no Gandarela quanto do início dos trabalhos visando à desapropriação das terras. Os danos mais frequentes encontrados na região são ligados à atividade minerária, ao desmatamento e à prática de motocross em suas montanhas”, disse. Na APA Morro da Pedreira há equipe e, de acordo com o coordenador do instituto, são feitas operações conforme o planejamento anual de atividades. As coordenadas das áreas de desmatamentos encontradas pela reportagem foram solicitadas pelo IcmBio para verificação de atividades ilícitas.

28-07-2015