Após secar, Rio Doce volta a correr na foz



As águas barrentas do Rio Doce voltaram a colorir o mar. A principal foz em Regência, litoral de Linhares (ES), que secou há duas semanas continua impedida de chegar ao oceano por um banco de areia com dois quilômetros de extensão, mas uma outra de 90 metros se abriu, enchendo de esperança quem apostava em previsões sombrias para o futuro do manancial.

 

A informação é do ambientalista Henrique Lobo, membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH-Doce) e foi anunciada nesta terça-feira (7) durante o seminário Águas de Minas III – Os Desafios da Crise Hídrica e a Construção da Sustentabilidade realizado pela Assembleia Legislativa em Governador Valadares, Leste do Estado. O novo canal é natural e tem 1,5 metro de profundidade.

 

Por ser raso não permite o tráfego dos barcos dos pescadores que continuam precisando dar uma volta de 50 quilômetros até Barra do Riacho em Aracruz (ES) para chegarem ao mar. “Mas temos esperança que no próximo período chuvoso o volume de água seja 20% maior que a média e que a vazão do rio Doce aumente rompendo de vez esse banco de areia que persiste”, explica.

 

Segundo Lobo, a Serra do Espinhaço contribui para o assoreamento do Rio Doce com o lançamento de arenitos. Mas o problema é antigo. Com a ação antrópica na Bacia e a introdução das pastagens nos anos de 1940 a 1970, o solos foram explorados em excesso e desgastados com queimadas. Com isso, a profundidade média do rio caiu de três metros de profundidade para 90 centímetros e a cobertura de Mata Atlântica de 95% para 4%.

 

“Ainda tivemos duas enchentes que foram marcos por carregar muita areia para dentro do rio nos anos de 1979 e 1997. E cada ano a Serra do Espinhaço contribui mais para esta situação nos períodos de chuvas”, reforça, lembrando que todo o material é carreado para a foz do rio Doce.

 

“Este material sedimentar arenoso que é lançado no mar é devolvido pelo movimento das marés para o litoral e ali armazenado. A dinâmica das marés nesta região é muito forte”, diz, contando que são elas as responsáveis pela abertura do novo canal de 90 metros.

 

“Em 1987 eu fiz uma conta de padeiro com a qual previ o secamento da foz em 2060. Nos últimos dez anos o rio tem perdido força para entrar no mar. Vejo assustado este acontecimento em 2015 e creio que ocorreu em função do meio antrópico desordenado em toda a Bacia”.

 

Escassez

 

Um dos principais problemas da Bacia do Rio Doce é a ocupação desordenada, afirmou o coordenador do núcleo regional do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), Wyllian Geovane de Melo, durante o seminário. Ele salientou que o mau uso dos recursos hídricos, aliado à diminuição das chuvas é fator determinante para a crise vivenciada atualmente.

 

Segundo o coordenador, no último período chuvoso, de outubro de 2014 a março de 2015, choveu menos que a média nacional na região do Rio Doce. E chamou atenção para a Bacia do Rio Suaçuí, onde as chuvas registradas ficaram 50% abaixo da média nacional.

 

Os piores indicadores de qualidade da água na Bacia do Rio Doce foram registrados em Conceição do Mato Dentro e Nova Era (ambas na Região Central do Estado), que têm alta contaminação tóxica. No primeiro município, foi constatada contaminação por zinco no Rio Santo Antônio e, no segundo, foi encontrado chumbo no Rio Piracicaba.

 

A prefeita de Valadares, Elisa Costa (PT), prometeu lançar, em breve, mais uma campanha para incentivar a população a economizar água. Ela lembrou que a captação para abastecimento da cidade é feita no rio Doce, que enfrenta problemas com a qualidade e quantidade, e os meses de julho, agosto e setembro são de pouca chuva na região. “Nas cheias, o assoreamento provoca transbordamentos e na seca dificuldade para captação”.

 

Estiagem

 

Segundo a presidente da Câmara Técnica de Gestão de Eventos Críticos do CBH-Doce e também presidente do CBH-Suaçuí, Lucinha Teixeira, já são três anos consecutivos com chuvas abaixo da média. De outubro de 2014 a maio de 2015, choveu apenas 60% da média histórica na região. E esse déficit acumulado indica que a estiagem será semelhante ou mais severa que em 2014.

 

Entre as medidas está a recuperação de nascentes, topos de morros e incentivo ao uso racional da água na agricultura, como também investimentos em saneamento. “Muitas vezes o problema é de gestão. As cidades às vezes tem água disponível, mas dificuldade para captá-la com menor vazão água. É preciso investir em novas tecnologias para garantir a captação dessa água”.

 

Ela acredita que o plano municipal de saneamento básico, documento que vai estabelecer entre outros, as diretrizes para abastecimento de água, tratamento de esgoto e manejo de solo que está sendo confeccionado com recursos da cobrança da água para 156 municípios da bacia do Rio Doce, investimento de R$ 21 milhões, ajude os municípios a combaterem a crise hídrica.

 

Em junho a vazão média do rio Doce em Valadares era de 356 metros cúbicos por segundo e na semana passada de 167 metros cúbicos por segundo.

 

Saneamento

 

Os representantes dos comitês de bacias hidrográficas presentes no seminário destacaram a prioridade que vem sendo dada à elaboração de planos municipais de saneamento. De acordo com o conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piranga, José Geraldo Rivelli, o comitê já realizou cerca de 70% dos planos municipais de saneamento, com investimentos da ordem de R$ 9 milhões.

 

“Um grande esforço tem sido feito para a realização desses planos. Tenho receio de que muitos deles sejam engavetados porque teremos, no próximo ano, mudança de gestores, por causa do ano eleitoral”, enfatizou. Para ele a Bacia do Rio Doce é a mais degradada do Estado. A sua sugestão é que o programa Bolsa Verde seja retomado.

 

O objetivo desse programa é apoiar a conservação da cobertura vegetal nativa em Minas Gerais mediante pagamento por serviços ambientais aos proprietários e posseiros que já preservam ou que se comprometem a recuperar a vegetação, seja retomado.

 

08-07-2015