A precária condição dos afluentes do São Francisco



A redução da precipitação pluviométrica e a desordenada ocupação humana do Alto São Francisco vêm provocando a agonia do Velho Chico, pois a extinção de nascentes, o uso irresponsável dos recursos hídricos, o desmatamento, o assoreamento e o esgotamento sanitário têm afetado os cursos d’água que alimentam o grande rio. Ele atingiu nível crítico no fim de 2014, desnudando sua fragilidade e, talvez, a extinção total em médio prazo. Será uma catástrofe para parcela considerável de Minas Gerais; mesmo assim, as autoridades não apresentam um plano emergencial para estancar a calamidade nem criam políticas que norteiem atividades econômicas fundadas na sustentabilidade.

 

Além da deplorável situação do rio das Velhas e do Paraopeba, a condição do rio Pará é também dramática. Ele nasce na serra das Vertentes, no município de Resende Costa, e corre na direção norte até desaguar no São Francisco, pela margem direita, entre os municípios de Pompéu e Martinho Campos. Seu vale abrange 34 municípios, totalizando 12,3 mil km² e 920 mil habitantes.

 

Prezo-o bastante desde criança, porque ele atravessa o perímetro urbano de Divinópolis, onde recebe o rio Itapecerica, sempre cativante e, outrora, belo e caudaloso. Aprecio outros afluentes durante minhas viagens: o Lambari, que corta o município de Santo Antônio do Monte, e o São João, em Itaúna. Fiquei, então, estarrecida ao ver duas coroas de terra nesse rio Pará, junto à ponte da BR–262, poucos dias atrás. E lembrei-me da presença maciça de aguapés na barragem do Gafanhoto e do filete insignificante do Lambari sob a ponte da MG–050. Tudo mostra flagrante contraste de alguns anos atrás. Nada justifica esse descalabro, e, certamente, a ação humana foi determinante, pois não é uma área de alta densidade demográfica para justificar a degradação ambiental; apenas Divinópolis, Itaúna e Pará de Minas têm mais de 90 mil habitantes. Talvez tenha havido intervenção mais deletéria na hidrografia por parte dos produtores rurais, pois alguns expandem suas lavouras drenando lagoas, eliminando nascentes e destruindo matas ciliares, além de irrigação sem fim.

 

A omissão do poder público é gritante, pois as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) são novidade e existem em poucas cidades. Em Divinópolis, por exemplo, apenas uma área está atendida, embora a população seja de 228 mil habitantes.

 

Enquanto isso, a Copasa apresenta a campanha Cada Gota Conta com peças publicitárias equivocadas porque uma delas mostra um homem lavando a calçada com a “vassoura hidráulica” e outra, uma dona de casa limpando a pia com a torneira bem aberta. São situações rejeitadas por quem sempre respeitou a natureza e consome racionalmente a água, mesmo em condomínios, cuja conta é rateada entre todos.

 

Infelizmente, ninguém assume sua responsabilidade pela degradação ambiental, e o Estado não age adequadamente para estancar a agonia dos recursos hídricos. Nosso futuro será muito triste.

30-06-2015