Pequenos produtores não têm como retirar água dos canais gigantescos do São Francisco



Cabrobó (PE), Salgueiro (PE), Casa Nova (BA), Abaeté, Pompeu, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias – As cabras que perambulam pela propriedade do agricultor pernambucano Francisco Alves Leite, de 60 anos, já comeram tudo o que restou do milho ressecado e das melancias murchas, que ele tinha plantado. Sem água, todo o cultivo de um hectare morreu no pé e os brotos viraram ração. “Ainda tenho água de chuva no açude por mais dois meses... Quando acabar, vai ser só Deus”, lamenta o agricultor. Por suprema ironia, graças à obra de transposição do Rio São Francisco, a água do Córrego Mulungu, que era usada para irrigar as propriedades vizinhas, foi parar no Canal Norte do projeto, que corta a propriedade do agricultor no município de Salgueiro (PE). “Não temos motor ou bomba elétrica para tirar a água do canal, que tem mais de 20 metros (de profundidade). Estamos perdendo nossa plantação e as criações pela seca, enquanto o canal está cheio de uma água que ninguém usa”, reclama.A calha do Rio São Francisco ainda está longe do canal que passa pela terra do agricultor, mas sua situação é emblemática, por enfrentar a seca à beira de uma transposição cuja execução se deu sob a justificativa de levar água ao sertanejo e ao mesmo tempo investir em ações para despoluir e revitalizar o Velho Chico – como foi prometido pelo governo federal em 2005. Pelo menos quatro anos atrasada, a transposição trouxe por enquanto apenas a sede. Nesse meio tempo, a bacia sofre com a seca mais calamitosa dos últimos 84 anos, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA). Segundo os últimos dados do IBGE, de 2013 e 2012, sobre os municípios pernambucanos de Cabrobó, Floresta e Salgueiro – onde há água acumulada nos canais – sete dos oito cultivos predominantes (banana, coco-da-baía, cebola, tomate, manga, maracujá e melancia) apresentaram queda de produtividade.

 

Uma crise completa, que abrange das nascentes do Rio da Integração Nacional, que chegaram a secar na Serra da Canastra, em Minas Gerais, até a foz, em Piaçabuçu (SE), onde o avanço da água do mar leito adentro já chega a mais de 20 quilômetros. “Vemos que a crise é grave quando olhamos para a região do Alto São Francisco, em Minas Gerais, de onde vêm 70% das águas da bacia, que sofrem com assoreamento e níveis baixíssimos de mananciais”, alerta o secretário do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Maciel Oliveira.

Na bacia mineira do Velho Chico, a seca é tão intensa que o Lago de Três Marias, na Região Central de Minas, chegou a 2,8% de seu volume útil em outubro do ano passado. Neste mês, está em 37%. Sem alcançar mais as águas que usavam para irrigar seus cultivos, os agricultores vêm perdendo suas safras desde o início da estiagem prolongada, em 2013. Das oito principais lavouras de municípios do entorno, cinco (arroz, feijão, mandioca, maracujá e melancia) apresentaram retração no comparativo com 2012, ano de chuvas abundantes.Até o abastecimento público foi prejudicado com as manobras de retenção e liberação de água do reservatório, realizadas a favor da regulação do lago de Sobradinho, entre a Bahia e Pernambuco. “A situação foi ao limite. A população de Pirapora (de 56 mil habitantes, no Norte de Minas) ficou sem água, e esse perigo ainda não foi afastado. Estamos agora investindo em ações para saber quais as dificuldades e necessidades das populações ribeirinhas em caso de nova seca prolongada”, afirma a presidente do Comitê da Bacia do Entorno da Represa de Três Marias, Silvia Friedman.

 

O drama dos produtores que dependem do lago de Três Marias é também vivido pelos que cultivam em Sobradinho, reservatório que atualmente opera a 22% de seu volume útil. De acordo com o último levantamento da produção agrícola do IBGE, entre 2013 e 2012, das 14 culturas principais plantadas naqueles municípios, nove (banana, goiaba, limão, manga, cebola, mandioca, melancia, melão e tomate) sofreram quebra de safra.

 

Ao ver as melancias se perdendo na roça no município baiano de Casa Nova, o olhar de desânimo do lavrador Joildo Narcisio dos Santos, de 50, espelha o do pernambucano Francisco, que passa sede à beira do canal da transposição. Os dois viram suas roças dos mesmos frutos murcharem por falta de água para irrigação. Mas, no caso do baiano, o recurso está a mais de cinco quilômetros, a distância que o lago de Sobradinho fica agora de sua plantação. “Não vem mais água do céu e parece que não chega mais água no rio. Debaixo deste sol, a melancia não ‘encheu’. Para não perder tudo, soltamos os bodes na roça para pastar”, afirma Joildo. Situação tão dramática quanto a dos últimos anos, ele diz nunca ter vivido. “Como pode a gente estar morrendo de sede na beira de um mundaréu de água destes?”, indaga.

 

A situação precária do rio lança mais críticas ao projeto de transposição. Segundo Marcus Vinícius Polignano, coordenador do Projeto Manuelzão – de revitalização do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco –, um dos motivos para isso é justamente o fato de não haver planos para auxiliar o sertanejo que verá a água passando em canais bem à sua frente, mas continuará convivendo com a sede. “Já não há água para as atividades rotineiras na bacia, e isso não está sendo resolvido. Vai-se sacrificar ainda mais o rio, para eventualmente as barragens no Ceará e Piauí concentrarem uma água que dificilmente chegará aos consumidores, mas estará disponível para o agronegócio”, acusa.

 

02-06-2015