Governo anuncia mudança no projeto da Cidade das Águas



 

 

O complexo Cidade das Águas, construído em parceria entre os governos Estadual e Federal em Frutal (Triângulo Mineiro), pode se transformar em Cidade do Conhecimento, ampliando suas atividades de modo a oferecer cursos técnicos, de graduação, pós-graduação e outras especializações.

 

A manutenção da instituição, cujas obras foram paralisadas em novembro de 2014, e seu redimensionamento foram anunciados nesta sexta-feira (8/5/15) pelo secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Miguel Corrêa da Silva Jr., também presidente interino da Hidroex (Fundação Centro Internacional de Educação, Capacitação e Pesquisa Aplicada em Águas). O secretário participou de audiência pública da Comissão Extraordinária das Águas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizada em Frutal.

 

Na mesma reunião, foi aprovado requerimento do deputado Arnaldo Silva (PR) para criação de um grupo de trabalho que vai estudar e propor uma forma de implementação de todo o projeto, estabelecer um cronograma objetivo de término das obras, de funcionamento dos laboratórios, de contratação de pessoal e de financiamento e custeio permanente da Hidroex.

 

O grupo será formado por representantes da comissão, da Secretaria de Ciência e Tecnologia, da Hidroex, da Câmara dos Deputados, da Agência Nacional de Águas (ANA), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Fundação Jacques Cousteau. A audiência pública foi solicitada pelo parlamentar, em conjunto o deputado João Alberto (PMDB).

 

A Cidade das Águas é um complexo que engloba a sede da Hidroex e uma infraestrutura voltada para a pesquisa e o estudo das águas. Mas as obras, que tiveram início em 2009, ainda não foram concluídas. De acordo com o vice-presidente da Hidroex, Toninho Heitor, ainda faltam cerca de 20% dos prédios para serem finalizados.

 

O secretário Miguel Corrêa Jr. afirmou que outras obras terão que ser também reparadas, como a biblioteca, que teve a fachada destruída pelas chuvas. Ele calcula que, para terminar o complexo, seriam necessários entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões. Miguel Corrêa Jr. afirmou que está sendo feito o levantamento do que precisa ser consertado para só depois retomarem os trabalhos, mas não soube prever o prazo.

 

Segundo ele, os cursos a serem oferecidos serão realizados em convênio com universidades federais mineiras. A previsão é de que no próximo ano, já comecem a ser abertos. “Vamos fazer com que as pessoas usufruam ao máximo o espaço disponível”, disse o secretário. Ele explicou que os recursos do Governo do Estado são escassos e, por isso, os investimentos precisam ser mais bem direcionados, priorizando o interesse público.

 

A estrutura – O complexo ocupa uma área superior a um milhão de metros quadrados, mas apenas o prédio administrativo está em funcionamento. São 17 laboratórios, sete blocos de apartamentos para alojar 548 pessoas, um condomínio temático com salas planejadas para acolher instituições interessadas em pesquisas sobre água, uma vila olímpica com um ginásio para 3 mil pessoas, um campo de futebol, duas quadras de tênis e um campo de grama sintética. Também faz parte do projeto uma floresta-escola com 3.000 m², à beira do Rio Grande, com laboratórios, alojamentos e uma mata preservada de 50 hectares, para estudantes e pesquisadores de rios e florestas.

 

Toda a estrutura é destinada ao estudo dos recursos hídricos e à busca de requalificação no uso das águas. O local foi projetado para se tornar um centro internacional de pesquisa, com foco na conservação do patrimônio hidrológico da América Latina e das nações africanas de língua portuguesa. É uma iniciativa que envolveu os governos Estadual e Federal e conta com a chancela da Unesco.

 

Compromisso do governo agrada deputados

 

O anúncio do secretário agradou às autoridades e aos deputados presentes na audiência pública, incluindo os parlamentares da oposição. O deputado João Vítor Xavier (PSDB), que estava preocupado com o futuro da Cidade das Águas, mostrou otimismo com a proposta. “Volto mais tranquilo para Belo Horizonte. Até 20 dias atrás, a rota estava errada. Graças ao governador Fernando Pimentel, agora estamos saindo na rota certa”, disse ao final da reunião.

 

Todos exaltaram a importância da instituição para o País e para a América Latina, tendo em vista a grave situação dos recursos hídricos atualmente. “Discutir a importância da Hidroex chega a ser ridículo porque no momento de absoluta escassez de água, sua importância está consolidada”, disse o deputado João Vítor Xavier.

 

“Temos que olhar para frente e definir o rumo para tornar esse instituto uma referência não só para Minas e para o Brasil, mas internacional”, defendeu o deputado Arnaldo Silva. Para ele, nos momentos de crise é necessário usar a criatividade.

 

O presidente da comissão, deputado Iran Barbosa (PMDB), ressaltou que a falta de água é fruto da falta de capacitação de gestores antigos. “A Cidade das Águas pode ser um vetor de desenvolvimento para a região de Frutal e todo o Pontal do Triângulo”, acrescentou.

 

O deputado João Alberto (PMDB) disse que essa questão é vital, pois cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à agua potável. “É o novo petróleo do mundo", comparou. "Mais que física, essa é uma obra humana, que legamos para as gerações futuras”, completou.

 

Também defensor da continuidade do projeto, o deputado federal Caio Nárcio (PSDB-MG) atentou para a importância do Brasil como protagonista no estudo das águas, por ser um dos países com maior volume de recursos hídricos. “A Hidroex é uma grande resposta à crise hídrica do Brasil e do mundo”, disse.

 

Idealizador da instituição quando era secretário de Estado de Ciência e Tecnologia, o ex-deputado federal Nárcio Rodrigues fez um relato histórico do projeto que foi construído, segundo ele, com foco na visão estratégica das Nações Unidas, que escolheu a água como tema mais importante a ser discutido no mundo. “Esse projeto é de convergência de ideias, compreendendo Minas Gerais como a caixa d´água do Brasil, e o melhor colocado para dar exemplo também para países da língua portuguesa”, afirmou.

 

Contraponto – O deputado federal Adelmo Carneiro Leão (PT-MG) se dispôs a ajudar a incrementar as ações concebidas para a Hidroex. Ele afirmou, no entanto, que o Estado está endividado em função de grandes obras desnecessárias e outras que ficaram mais caras que o necessário. “Cada ação, em função dos recursos escassos, deve ser realizada de maneira transparente, com planejamento adequado e necessário”, ressalvou.

 

O deputado Elismar Prado (PT) ressaltou a importância do complexo, construído com dinheiro público e que pertence, portanto, ao povo. “Tudo o que foi feito deve ser valorizado, mas é preciso que seja um projeto que conte com a participação coletiva, com a participação de todos”, sugeriu.

 

O prefeito de Frutal, Mauri José Alves, e o presidente da Câmara Municipal, Marcelo Luis de Oliveira, também defenderam a retomada das obras da Cidade das Águas. “Não só Frutal, nem só Minas Gerais, mas o Brasil e o mundo têm que se voltar para esse estudo (das águas)”, disse o prefeito.

 

Especialistas ressaltam importância da qualificação

 

O gerente-geral de Articulação e Comunicação da Agência Nacional de Águas (ANA), Antônio Félix Domingos, também aprovou a proposta de ampliação da Hidroex. Ele disse que o Brasil tem um déficit histórico de profissionais qualificados em gestão de águas e que precisa urgentemente ser resgatado. “Temos um trabalho enorme pela frente. Precisamos capacitar milhares de pessoas para um uso racional dos recursos hídricos”, disse, prevendo que a crise hídrica ainda vai se repetir, em função da falta de profissionais qualificados no País.

 

Para ele, será necessário um esforço coletivo para que a instituição tenha condições de se estruturar e realizar o trabalho para o qual foi planejada. Lembrou que a Hidroex já realizou trabalhos de pesquisa importantes com países africanos e da América do Sul. “Temos que sair do discurso e partir para a prática”, defendeu.

 

O ex-presidente da Hidroex e ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Octávio Elísio Alves de Brito, afirmou que é indispensável a capacitação de pessoal em pesquisa e cursos de pós-graduação. E acrescentou que também é necessário pensar na formação de técnicos e gestores. “Precisamos qualificar pessoas que decidem as políticas de água”, admitiu.

11-05-2015