Gestores públicos exigem economia do cidadão, mas dão mau exemplo em BH



Num ambiente de crise hídrica, economizar virou regra universal. Mantra que rege cartilhas de conscientização de gestores públicos, repetido invariavelmente quando o nível de reservatórios diminui de forma assustadora. Mas nem sempre quem exige comportamento racional e exemplar pode ser considerado, de fato, um modelo a ser seguido.

 

Em Belo Horizonte, água é desperdiçada em prédio público e a iluminação das ruas fica ligada até com o sol a pino. Ao longo do principal corredor viário do Centro da capital, pelo menos três postes foram flagrados com as luzes acesas durante o dia. Em um deles, na avenida Afonso Pena, as testemunhas foram os ponteiros do relógio do prédio sede da administração municipal, que marcavam 13h30.

 

Próximo dali, mas em horário distinto, o desperdício ocorre no futuro Centro de Referência da Juventude (CRJ), na Praça da Estação. Criado para promover atividades de cultura, lazer, esporte e formação profissional, o espaço, por enquanto, não é um dos melhores exemplos em educação. Nos últimos dias, mesmo por volta da meia-noite, lâmpadas iluminam o interior vazio.

 

Pelo ralo Na avenida Prudente de Morais, na zona Sul, água de uma mina no subsolo do prédio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) escorre direto para o bueiro. Uma bomba foi instalada para despejar a água, que passa por um cano improvisado. Problema antigo e ainda sem solução.

 

O desperdício, que segundo taxistas da região já dura anos, pode render pelo menos mais quatro meses. Somente em agosto terminam as obras de reforma no imóvel. Após a conclusão, um mecanismo para reaproveitar a água será criado, garante o superintendente regional da Conab em Minas, Osvaldo Teixeira.

 

Ele não soube dar detalhes do que será feito, mas adiantou que a água poderá será reutilizada nos jardins ou para lavar as instalações. “Essa é uma preocupação nossa. Estamos em busca de solução”.

 

As atitudes são condenáveis e podem refletir diretamente no comportamento do cidadão. “Se quem manda não obedece, por que devo fazer o mesmo? Infelizmente, esse pode ser o sentimento gerado”, afirma a psicanalista Soraya Hissa de Carvalho. Por outro lado, a profissional destaca que, em alguns casos, o mau exemplo pode ter efeito contrário.

 

“Existem pessoas que ficam revoltadas e se mobilizam. Daí nascem, muitas vezes, os movimentos populares. As pessoas se organizam e se unem para combater irregularidades”, acrescenta a psicanalista. Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação, ainda não foi inaugurado, mas estava com as luzes ligadas à noite; ao lado, postes iluminam a Afonso Pena mesmo de dia (Foto: Frederico Haikal /Hoje em Dia)

 

Mais 20 dias

 

Atualmente, Belo Horizonte tem cerca de 178 mil luminárias. A manutenção é feita pela Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap). Técnicos serão enviados aos pontos da Afonso Pena citados pela reportagem. Porém, o prazo para os reparos pode durar até 20 dias.

 

Quanto ao centro da juventude, a prefeitura informou que a empreiteira da obra e a Cemig realizaram testes, nos últimos 15 dias, nos sistemas elétrico e de ar-condicionado. Os trabalhos foram concluídos nesta sexta-feira (24).

28-04-2015