TV Assembleia estreia programa sobre crise hídrica no Estado



“Pode abrir pra você ver”. É com um desafio que Girlene Pereira da Silva, moradora do Bairro Alfredo Dias, em Francisco Sá, no Norte de Minas, reage ao simples pedido para abrir a torneira do quintal. Insistimos e ela – resignada – executa a tarefa. Ao girar o registro, como se já previsse o que iria acontecer, solta um lacônico “nada”, para completar em seguida: “Nenhuma gota”. A falta d´água já se incorporou à rotina de escassez dos moradores do bairro, na periferia da cidade. Lá, eles chegam a ficar até oito dias sem água, em razão de falhas na rede e da estiagem dos últimos anos. Histórias como a de Girlene estão no programa Minas é Muitas – Caos Hídrico, que estreia neste domingo (26), na TV Assembleia.A crise de água em Belo Horizonte; Pirapora, também no Norte de Minas; e Três Marias, na Região Central, também é registrada no programa, gravado em março, no fim do que seria a estação chuvosa em Minas. Para muitos dos entrevistados, está aí uma das explicações para o problema hídrico: a redução dos números de pluviosidade. “Choveu menos nos últimos três períodos chuvosos, que vai de outubro a março. Essa anomalia causou a crise”, explica o meteorologista Lizandro Gemiacki. “E o futuro”, complementa, “não tem como ser previsto. Pode ser que esse padrão se estabeleça, pode ser que tudo volte ao normal. Temos que nos preparar para os piores cenários”.

 

O biólogo Ricardo Motta concorda, mas adiciona um outro fator para que a estiagem impactasse tanto a vida dos mineiros. “Assim como chuva, faltou transparência”, afirma. Conforme ele, governantes e concessionárias de abastecimento demoraram a tratar o problema com a gravidade necessária. “Investimentos em captação de água de chuva, modernização da rede de abastecimento para evitar vazamentos e campanhas contra o desperdício são medidas que já poderiam ter sido tomadas. Faltou gestão”, sintetiza.

 

Francisco Sá, 10 anos em situação de emergência

 

Em Francisco Sá, distante 35 quilômetros de Montes Claros, 2015 representou o décimo ano consecutivo em que é decretada situação de emergência pela seca. O único reservatório da cidade, com 15% da capacidade, deve abastecer o município por somente mais três meses. O prefeito já instituiu um rodízio nos bairros e aprovou uma lei que prevê multa para quem ultrapassar o limite de consumo. Na área rural, 90% dos moradores dependem das operações dos caminhões pipa, mantidos pelo Exército. “Tem dias que percorro 200 quilômetros em estrada de terra para levar água aos moradores”, conta o caminhoneiro Clayton Santos. Perguntado sobre a reação das pessoas à chegada da água, ele responde, seco: “Normal. Já estão acostumados”.

 

Em Pirapora e Três Marias, às margens do Rio São Francisco, a estiagem compromete a pesca e o turismo. O último barco a vapor em operação no mundo, o Benjamim Guimarães, está ancorado nos bancos de areia desde junho de 2014, por causa da queda no nível do rio. Dos 12 tripulantes, nove foram dispensados. Os outros, como o marinheiro Carlos Henrique da Silva, dão manutenção no cais à espera do dia em que um dos símbolos de Pirapora volte a navegar. “Quando o rio voltar ao normal, estará tudo pronto”, diz.

 

Em Três Marias, os pescadores sentem os primeiros impactos. Navegar no Velho Chico está cada vez mais difícil, devido ao número de pedras que apareceram no leito. “Também tem peixe que está desaparecendo”, conta Waldir Alves, pescador profissional. Criado à beira do rio, ele nunca viu o São Francisco com tão pouca água como nos últimos anos. “Do jeito que já vi esse rio cheio, posso falar que ele está morto”, lamenta.

 

Do outro lado das comportas da Usina de Três Marias, quem conta os prejuízos são os comerciantes. Na prainha, conhecida como o “Mar Doce de Minas” e acostumada a atrair turistas de toda parte do Estado, o cenário é desolador. “Se eu fosse aposentada já tinha desistido”, reclama a barraqueira Leonora Batista. Em outubro do ano passado, a represa de Três Marias chegou a menos de 3% da capacidade. “Já vi essa represa com água até aqui na calçada. É triste ver desse jeito. Espero que um dia volte a ser o que foi”, diz Márcio Henrique de Souza, agente penitenciário e único turista a se aventurar na prainha no dia da gravação.

 

O Minas é Muitas – Caos Hídrico estreia neste domingo (26), às 19 horas, na TV ALMG - canal 35 (aberto UHF), 61.2 (aberto digital) e 11 (cabo). O programa também fica disponível no portal da Assembleia para streaming e download.