A tragédia maior do rio das Velhas e do Paraopeba



A Constituição Federal de 1988 define, no artigo 20, inciso III, que pertencem à União os rios que banham mais de um Estado. Como o São Francisco avoluma-se com a contribuição de muitos cursos d’água, ela tem o bônus e o ônus sobre toda a bacia hidrográfica; precisa, então, disciplinar a economia e a ocupação do território, protegendo as nascentes, as matas ciliares e toda a vegetação. Isso nunca constou, entretanto, da pauta nacional, e surgiram muitos problemas oriundos dos maus-tratos iniciados no século XVIII.

 

Apesar do ambientalismo nas últimas décadas, aumentaram os descalabros em Minas Gerais, tornando o futuro mais sombrio diante das mudanças climáticas e da extinção de córregos e ribeirões. Dois afluentes são os mais afetados porque há alta densidade populacional e intensa atividade econômica em seus vales.

 

O rio das Velhas nasce na serra de Antônio Pereira, no município de Ouro Preto, e atravessa uma região montanhosa até Sabará. A partir daí, é navegável até desaguar no Velho Chico, em Barra do Guaicuí, após percorrer 801 km em 51 municípios.

 

Era tão caudaloso que partiu daquela cidade o vapor Saldanha Marinho, no dia 10 de janeiro de 1871. Ele chegou ao São Francisco em 3 de fevereiro e foi até o Estado de Pernambuco. Houve muitas viagens de embarcações como essa, nas décadas seguintes, mas as condições do rio das Velhas são, atualmente, lamentáveis. Seguindo seu curso pelas imagens do Google Earth, percebemos o desmatamento generalizado, a carência de mata ciliar do curso principal e a escassez de subafluentes. A situação fica mais crítica na região metropolitana de Belo Horizonte, que abriga 70% dos habitantes nos 29.173 km² da bacia. Jorra para ele grande volume de detritos orgânicos e industriais, mas existem poucas estações de tratamento de esgoto.

 

Ele toma, depois, o sentido noroeste e atravessa uma área de baixa densidade populacional, mas com economia voltada para a pecuária extensiva, que implica desmatamento para a formação de pastagens.

 

O Paraopeba nasce em Cristiano Otoni, numa região montanhosa em que predominam pequenos municípios, mas a degradação ocorreu pelos mesmos problemas: desmatamento, destruição de mata ciliar, poluição por lixo e esgoto, assoreamento e extinção de nascentes. Quando entra no Quadrilátero Ferrífero, especialmente na região metropolitana de Belo Horizonte, sofre mais danos com a mineração, ocupação desordenada do espaço, impermeabilização do solo e consumo de água na horticultura e na indústria. O Paraopeba avança, depois, por uma área com baixa densidade populacional, mas há os danos da pecuária intensiva até desaguar no São Francisco, entre os municípios de Pompéu e Felixlândia.

 

Muitas nascentes foram eliminadas nos dois vales, reduzindo o número de córregos e ribeirões e desencadeando a agonia da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Isso pode acarretar desertificação em Minas Gerais, prejudicando todos.

18-03-2015