Rios (in)visíveis de São Paulo cria mapa colaborativo sobre cursos d’água concretados



São Paulo recentemente ganhou 220 quilômetros de faixas de ônibus, com outros 150 aguardando para ser construídos. Além disso, foram e serão pintadas, ao todo, 400 quilômetros de ciclofaixas, causando uma reordenação do trânsito na cidade. No entanto, se somássemos todas essas cifras, não chegaríamos nem perto do total de rios cobertos – ou invisíveis – que temos na cidade: são cerca de 3,5 mil quilômetros de cursos d’água debaixo do concreto.

 

Diante deste cenário, o Coletivo Escafandro, composto pelas jornalistas Stephanie Kim e Iana Chan, e a designer Pamela Bassi, participou do Ecohack World, que aconteceu nos dias 9 e 10 de maio de 2014, para buscar soluções inovadoras para as cidades. Utilizando os dados do Plano Diretor de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais do Município de São Paulo (PMAPSP), em associação com a plataforma Mapas Coletivo, elas criaram o projeto Rios (In)visíveis de São Paulo.A ideia da plataforma, para além da visualização dos dados, visa mostrar o passado da cidade e abrir espaço para que os habitantes de São Paulo conheçam o bairro e contem suas histórias, mostrando outra perspectiva do espaço urbano e as margens ocultas da cidade que passa pela maior crise hídrica da sua história.

 

No site, os internautas marcam relatos no mapa, fazem “uploads” de fotos antigas de córregos e cursos d’água. “Vivemos um período em que se acreditou que esconder os rios era uma solução para um problema urbanístico, e agora, com os problemas decorrentes desse tipo de política, nos damos conta de que é impossível A malha hídrica da cidade é intrínseca ao ordenamento dessa, eles podem estar invisíveis mas estão ali definindo nosso cotidiano”, acredita a jornalista Stephanie Kim, que concedeu uma entrevista ao Portal Aprendiz (abaixo).

 

A iniciativa também aparece coincidentemente com outros projetos, como a mostra Rios e Ruas e o Água Preta, bloco carnavalesco que percorre o curso do côrrego de mesmo na Vila Anglo Brasileira, zona oeste da capital paulistano. Com a água faltando nas torneiras, mas sobrando debaixo das ruas, calçadas e toda vez que chove, os paulistanos tem estado cada vez mais interessado sobre a geografia da cidade e os possíveis usos e histórias do ambiente urbano.

 

“A ideia nunca foi ver os rios como uma saída para a crise hídrica, sob o aspecto do abastecimento, ainda que esteja relacionado ao assunto. Procuramos voltar o mapa e as informações para a reflexão sobre o apropriamento do espaço urbano, questão de mobilidade etc. E sair daquele olhar imediato, de urgência, de que os rios são solução ou culpa de todos os problemas da cidade”, pondera Stephanie.

 

Confira abaixo a entrevista de Stephanie Kim, do Rios (In)vísiveis de São Paulo, ao Portal Aprendiz.

 

Portal Aprendiz: Qual a importância – tendo em vista a discussão sobre o direito à cidade – de revelar os cursos invisíveis dos rios paulistanos? O que a invisibilidade dos rios significa para a cidade?

 

Stephanie Kim: Vivemos um período em que se acreditou que esconder os rios era uma solução para um problema urbanístico, e agora, com os problemas decorrentes desse tipo de política, nos damos conta de que é impossível. A malha hídrica da cidade é intrínseca ao ordenamento dela. Eles podem estar invisíveis mas estão ali definindo nosso cotidiano, seja quando enchem e transbordam sobre as vias ou quando são redescobertos no momento de uma obra. Acredito que o conhecimento da existência desses rios – que se perdeu quando foram escondidos – pode mudar o jeito como as pessoas se relacionam com eles.

 

Por isso, trazer à tona esses rios é principalmente uma questão de mudar a percepção sobre a sua própria cidade. A disponibilização desse mapa seria uma forma de incentivar as pessoas a se apropriarem do espaço público, reivindicarem mais qualidade de vida, aprenderem a conviver com os rios da cidade e valorizá-los. É fazer essa mudança do “olhar para a cidade”. Tanto que, se a gente pensar, as pessoas tendem a ver o rio e já associá-lo ao esgoto, a águas sujas. E verem isso como algo que não tem mais jeito.

 

Apesar de o projeto ser online, a gente percebe que essa valorização não é feita na rede, mas no dia a dia, na experiência real e física de tocar, ouvir, cheirar as águas dos córregos espalhados pela cidade de São Paulo. Elas não só criam novas memórias afetivas, como relembram das que marcaram suas vidas – e é a partir dessa afetividade que o engajamento e a consciência se manifestarão mais genuinamente.

 

Portal Aprendiz: Como tem sido a recepção do mapa colaborativo? Vocês abriram oportunidades para relatos em primeira pessoa. Há algum trecho que vocês destacariam dessa experiência?

 

Stephanie: Tivemos uma recepção muito boa de outros profissionais que trabalham com a questão ambiental e de mapeamento online logo que lançamos o site. Os relatos não vieram logo de cara, mas demoraram alguns dias para recebermos alguns. Ainda assim, acho que recebemos mais do que esperávamos, e ainda não tivemos tempo de colocar todos no ar. E foi legal ver pessoas que realmente se dedicaram em fazer um relato minucioso, fazendo até print screen do nosso próprio mapa para ajudar a explicar os lugares que ela queria apontar em seu texto. Acho que a empolgação dessas pessoas mostra que falta espaços “democráticos” na web, no sentido de que dê liberdade para as pessoas contarem suas histórias relacionadas ao tema.

 

Também foi legal não só essa participação efetiva que pretendíamos, mas também a interação nas redes sociais. As pessoas comentando surpresas que havia um córrego passando pela casa delas era uma situação que imaginávamos, mas receber de fato esse tipo de retorno foi bem gratificante.

 

Portal Aprendiz: São Paulo passa por uma crise hídrica, enquanto tem boa parte de seus rios concretados. O que isso quer dizer sobre a forma que a cidade trata sua água? Como vocês veem o projeto de vocês no contexto dessa crise?

 

Stephanie: Nosso projeto pegou o embalo do contexto da crise, sem dúvida, mas acreditamos que vai além. A ideia nunca foi ver os rios como uma saída para a crise hídrica, sob o aspecto do abastecimento, ainda que esteja relacionado ao assunto. Procuramos voltar o mapa e as informações para a reflexão sobre o apropriamento do espaço urbano, questão de mobilidade etc. E sair daquele olhar imediato, de urgência, de que os rios são solução ou culpa de todos os problemas da cidade (seja na seca, seja nas chuvas de verão que param são paulo).

 

Acho que o que mais chama atenção ao olharmos o projeto no contexto da crise é perceber que, por mais que a ação humana afete o ambiente e a disponibilidade de recursos naturais e tenha consequências a curto e longo prazo, acaba que as consequências recaem principalmente sobre nós mesmos. E é pensando em como solucionar esses problemas causados por e que afetam nós mesmos que buscamos soluções, criticamos a gestão pública de manejo das águas etc, e não tanto pensando nos impactos na natureza. Porque percebemos que, por mais que nossas atitudes afetem sua condição, esse elemento natural sobreviverá a nós, se recupera, toma conta novamente – vide os rios que enterramos e continuam fluindo e aparecendo.

 

* Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.

16-01-2015