Construção de condomínio na Mata do Planalto preocupa mobilizadores na Região Norte de Belo Horizonte

A população teme que as nascentes próximas à area do empreendimento sejam degradadas. (Foto: Iury Valente) Moradores dos bairros Planalto, Campo Alegre, Vila Clóris e outros no Vetor Norte, área de expansão urbana na Região Metropolitana de Belo Horizonte, estão atentos ao projeto de construção de um condomínio na Mata do Planalto. No último sábado, dia 12, o movimento Salve a Mata do Planalto reuniu cerca de 300 pessoas em uma caminhada em prol da preservação do local. Os manifestantes desceram a Avenida Doutor Cristiano Guimarães até a Mata, onde foi realizado um abraço simbólico.

A Mata do Planalto é composta por áreas particulares e pelo Parque do Bairro Planalto. Uma das partes da Mata, também conhecida como Mata do Maciel, foi negociada pelo proprietário do local com a Construtora Rossi e poderá receber empreendimento residencial. Segundo a empresa, o projeto abrange 115 mil metros quadrados, onde serão construídos 8 prédios de 15 andares cada, num total de 752 unidades residenciais. A proposta da construtora é reservar 70% desse terreno à criação de dois parques: um destinado aos moradores do condomínio e outro que será aberto ao público, sendo doado para a Prefeitura de Belo Horizonte.

Para o diretor regional da Rossi, Frederico Kassler, o principal beneficio da construção é a entrega para a comunidade de uma área pública de 44 mil metros quadrados, que será revitalizada e estruturada. Como medida compensatória, a proposta é oferecer no parque que será doado, um centro de educação ambiental. "A gente não proporia um empreendimento que fosse contra a lei ou que não fosse, de alguma forma, bom para os dois lados", afirma Frederico.

Conseqüências

Mas os impactos que a construção causará sobre a biodiversidade, micro clima e nascentes da região preocupam os moradores da região e mobilizadores do Núcleo Manuelzão Bacuraus. Para o biólogo Iury Valente, morador do bairro Planalto há 25 anos, há uma relação de proximidade entre a comunidade e a Mata. "Se ela está preservada até hoje é por causa dos moradores. É como se fosse o quintal da casa de todo mundo", conta. Em maio do ano passado, ele realizou estudos para demarcar nascentes, observar a fauna e impactos que o crescimento urbano desordenado estariam causando no local.

O pesquisador identificou três nascentes no local da construção e outras 14 localizadas 50 a 100 metros do local previsto para o empreendimento. Essas nascentes ajudam a compor o corpo d'água do Córrego Bacuraus, um afluente do Ribeirão Isidoro. De acordo com estudos da Rossi, há apenas uma nascente na área da construção e outras 15 externas. Segundo a empresa, haverá um programa para avaliar, monitorar e propor melhorias para os cursos d'água à montante e jusante do empreendimento e também para aqueles em seu entorno.

Iury verificou também a existência de 60 espécies de aves, cinco de anfíbios, três de répteis e ainda mamíferos como o mico-estrela, gambás e camundongos. Segundo Iury, a fauna que compõe o lugar é a mesma da Lagoa do Nado e Pampulha. Para ele, a alteração da Mata do Planalto pode influenciar nesses outros dois ecossistemas. O biólogo ressalta ainda a importância de preservar a vegetação local. "Dentro desse fragmento foram encontrados o jacarandá-caviúna, espécie em extinção em Minas Gerais e no Brasil, e vários ipês-amarelos". Essa última, embora não esteja em extinção, tem o corte proibido por lei estadual.

Além dos prejuízos ao ambiente, o grupo defende que a implantação do empreendimento também é inviável dos pontos de vista social e urbanístico. "Só esse empreendimento vai aumentar em mais ou menos 4 mil habitantes [o contingente da região]. Não tem ônibus pra essa gente. O esgoto que o pessoal vai produzir vai para onde?", questiona Iury Valente.

Proposta do Movimento

A sugestão da comunidade é que a Mata seja preservada sem prejudicar o proprietário, permitindo que ele construa em outro lugar de Belo Horizonte por meio da Unidade de Transferência do Direito de Construir. A ideia é criar uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), que implante e desenvolva na região ações de recuperação, preservação e educação ambiental com ajuda orçamentária de parceiros do setor público e privado.

Na próxima quarta-feira, dia 23, haverá nova Audiência Pública na Câmara Municipal, às 10 horas. A reunião contará com a presença de representantes do Ministério Público para apresentação de estudos sobre a Mata. Interessados em comparecer podem se encontrar no Street Shopping Planalto, Avenida Doutor Cristiano Guimarães, 1691, às 9 horas.