Fiscal da água cobra mais planejamento para enfrentar estiagem e critica desperdício



O desafio do próximo “fiscal da água” do mundo deve começar por seu próprio país. Escolhido para ser relator da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Água e Saneamento, o professor Leo Heller, de 59 anos, titular do Departamento de Engenharia Sanitária da UFMG, assumirá no mês que vem mandato de três anos com atenção especial para a crise hídrica brasileira e com alertas às autoridades e aos consumidores. Em entrevista ao Estado de Minas, Heller cobrou maior planejamento para enfrentar a estiagem, mas também não poupou a população. Para ele, é urgente reduzir perdas e desperdício. “Existem práticas que poderiam ser evitadas, como lavar os passeios com água. Diminuir perdas no sistema de água passa também por equipamentos domiciliares que evitem o desperdício”, afirmou.Natural de Belo Horizonte, Heller assumirá o posto estratégico no lugar da portuguesa Catarina Albuquerque, que, recentemente, irritou o governo de São Paulo ao afirmar que houve problemas na gestão da crise hídrica daquele estado – a administração paulista contestou a avaliação. O professor da UFMG considera que não se pode culpar apenas a seca por problemas de abastecimento. “Sabemos que o clima está mudando e é possível fazer previsões. Não me parece desculpa plausível dizer que a culpa é de uma das maiores secas da história. Isso é previsível. É possível pensar em sistemas que tenham capacidade de enfrentar essa situação”, diz.

 

O alerta do especialista para o desperdício reforça a importância de medidas de economia. Segundo a Copasa, por exemplo, uma torneira mal fechada desperdiça em média 2.088 litros por dia. Já uma torneira aberta por um minuto manda para o ralo, literalmente, de 12 a 20 litros de água. “Há muita tecnologia para isso (evitar perdas)”, diz Heller. Ele cita a torneira acionada por componente fotoeletrônico, que limita a quantidade de água, e o vaso sanitário com dois botões (um para urina e outro para fezes) como tecnologias simples.

 

Heller aponta também a necessidade de reduzir as perdas nos sistemas de água. De acordo com o a pesquisa do Instituto Trata Brasil, 29,15% da água foi perdida antes de chegar a domicílios em Minas em 2010. O levantamento se baseou em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). O ranking de saneamento 2014, também do instituto, indica perdas de distribuição de 35,82% em Belo Horizonte.

 

Sobre perdas, a Copasa informou que adota indicador internacional, que aponta a quantidade de água perdida no sistema por cada ligação. Segundo a empresa, em 2012, o SNIS mostrou variação do indicador nacional de 452,2 a 323,26 litros/ligação/dia, considerado muito alto. O resultado da Copasa foi menor, de 231,75 litros/ligação/dia, mas a empresa afirmou, por meio de nota, que “pode reduzir ainda mais”. A companhia afirmou que adota ações como redução de pressão no sistema de distribuição e, sobre desperdício, destacou o Programa Chuá, que leva informações à comunidade com foco na conscientização.

11-11-2014