Seca no rio Doce, uma história para contar



A seca sem precedentes que compromete o nível de água do rio Doce, bem como a capacidade do manancial de abastecer as cidades ribeirinhas vai entrar para a história. Para registrar tudo em livro, o valadarense Haruf Salmen Espindola, doutor em história, vem percorrendo o curso d’água e os municípios por ele banhados para levantar dados e traçar um comparativo entre o cenário atual e o do século 19.

 

A ideia surgiu a partir de um convite para escrever um artigo, feito pela revista da Sociedade Latinoamericana e Caribenha de História Ambiental (Halac), que prepara um dossiê sobre rios. O trabalho começou no mês passado e será concluído nos próximos dias, com o apoio da Polícia Militar do Meio Ambiente e do fotógrafo do Hoje em Dia Leonardo Morais.

 

Segundo o historiador, a proposta é observar o rio “de dentro dele” e não apenas das margens. “O manancial está excepcionalmente baixo porque não choveu no início do ano e com o duplo veranico – estiagem na época das chuvas – a seca se prolongou muito”, constata, lembrando que o cenário não é totalmente novo.

 

O pesquisador revela que há documentos do século 19 com relatos em que a princesa Maria Tereza da Baviera reclamava das dificuldades de navegação no rio Doce. Por causa das pedras e da seca a canoa onde estava não conseguiu navegar até a margem onde havia um sítio em que ficaria hospedada. Outros personagens contam que também enfrentaram dificuldades para subir o Doce, como o engenheiro e geógrafo Álvaro da Silveira, em 1911. Ambas histórias aconteceram entre os meses de setembro e outubro.

 

Haruf Espindola descreve ainda que, na época da princesa, a floresta ainda ocupava toda a margem esquerda e boa parte da direita do rio Doce. “Vi uma foto feita por Álvaro da Silveira que mostra o rio correndo num canal central, comprovando que o regime dele é de cheias e secas, com épocas distintas para cada uma”.

 

SITUAÇÃO CAÓTICA

 

O sargento Vanzesso Pereira da Silva, um dos integrantes da expedição que percorre o rio Doce, está alarmado com o baixo nível do manancial atualmente. Ele patrulha a unidade há oito anos, visando o combate à pesca predatória e a destruição da mata ciliar.

 

“O volume de água diminui cada dia mais. Nunca vi o rio tão baixo como agora. Ele está sumindo”.

 

Para Espindola, as cidades margeadas precisam buscar fontes alternativas de abastecimento. “Melhorar as condições tratando o esgoto e cuidando da mata ciliar pode ajudar”, destaca.

 

O historiador lembra, ainda, que o rio Doce é muito mais do que apenas um manancial, “é território, paisagem, lugar, representação”. Por ele, penetraram aventureiros em busca de ouro, caçadores de índios, escravos fugidos, criminosos, contrabandistas. “Contar a história do Vale do Rio Doce é contar a história de Minas Gerais e do Brasil”, completa.

20-10-2014