Belo-horizontinos começam a se mobilizar para economizar água



“Olha, está chovendo na roseira/ Que só dá rosa, mas não cheira/A frescura das gotas úmidas...”... “Olha como a chuva cai/ E molha a folha aqui na telha/ Faz um som assim/Um barulhinho bom...”

Foi nesse ritmo, com músicas que têm na letra a palavra “chuva”, que o jornalista e apresentador Tutti Maravilha fez no último dia 3, em seu “Bazar Maravilha”, programa veiculado pela Inconfidência FM, um apelo para que são Pedro melhore o humor e mande um refresco. “Cheguei de viagem e me assustei com quanto o tempo estava seco. Então resolvi fazer o programa pra ver se ajudava”, conta.

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Não surtiu efeito e, mais de uma semana depois, nem uma gotinha aliviou o tempo seco na cidade e BH caminha para uma das maiores estiagens da sua história nos últimos 50 anos, acendendo um alerta para o perigo da falta d’água. Diante do cenário desanimador, não só Tutti, mas vários moradores têm se mobilizado de diversas formas para evitar que os efeitos da estiagem sejam desastrosos. Além de usar o mínimo de água possível em suas atividades do dia a dia – lava o carro somente uma vez por ano, por exemplo – há muito tempo ele alerta seus ouvintes da importância de poupar esse recurso e sempre termina o programa com a frase: economize água.

 

E ele tem razão, afinal os sinais de que muito em breve poderemos enfrentar uma grave crise de abastecimento de água – como a seca histórica em uma das nascentes do rio São Francisco, situada no Parque Nacional da Serra da Canastra, aqui em Minas – são cada vez mais claros (leia mais abaixo). Embora ainda não tenha soado por aqui o “alerta vermelho” como em São Paulo, é cada vez mais urgente a conscientização sobre esse assunto.

 

Moderadora do conjunto de ferramentas online “Padecendo no Paraíso” de discussão sobre a maternidade, a arquiteta Bebel Soares, 39, sempre fomenta esse tipo de discussão dentro do grupo. “Como nosso intuito é criar um mundo melhor pros nossos filhos e filhos melhores para o mundo, questões ligadas ao meio ambiente também fazem parte da nossa pauta”, explica.

 

Por isso, ela não só aderiu à campanha “Não Chove Não Lavo”, que propõe que as pessoas não lavem seus carros enquanto não voltar a chover, como a trouxe para o grupo de discussão. “A partir dela, nós acabamos criando outra campanha entre nós, a ‘Não Chove Não Molho’, que incentiva a substituição da mangueira pela vassoura na limpeza das calçadas”, conta, frisando que elas inclusive estimulam umas às outras a conversar com desconhecidos que virem usando mangueira na calçada. “Mesmo que a pessoa não ceda ao apelo, acreditamos que devemos fazer nossa parte, afinal, água mole em pedra dura...”, diz.

 

Banho? Cinco minutos

 

Um banho com duração de dez minutos é muito longo, na opinião da publicitária Paula Costa Val, 22, e ela cronometra os seus para durarem no máximo cinco. Associada a ONGs de proteção ao meio ambiente, como Greenpeace e WWF, ela não deixa passar nenhuma forma de desperdício de água.

“Já liguei para a ouvidoria da prefeitura para reclamar de um bebedouro que não parava de jorrar – me responderam que havia um sistema de filtragem interno e que aquela água era reutilizada –, reclamei de descargas disparadas e torneiras pingando no almoxarifado da faculdade, quando estudava, e de hidrantes vazando na rua, com a Copasa”.

 

Outro hábito que ela faz questão de cultivar é o da conversa e, assim como Bebel, chama a atenção de desperdiçadores. “Eu gosto de propagar essa coisa da economia da água porque as pessoas usam como se fosse uma coisa infinita e, quanto antes elas perceberem que não é, melhor para todos”, diz.

 

Essa é uma atitude importantíssima no processo de conscientização das pessoas, segundo o especialista em água da ONG The Nature Conservancy, (responsável pela campanha “Não Chove Não Lavo”) Samuel Barreto. “É preciso mobilizar corações e mentes numa revisão de hábitos parecida com a que aconteceu com o cigarro. Antes, havia um glamour relacionado ao ato de fumar, era bonito. Hoje, por mais que as pessoas fumem, ninguém contesta os males do cigarro. O desperdício da água precisa passar por esse processo e se tornar algo socialmente mal visto. Essa é a primeira etapa até conseguirmos economizar, de fato”.

 

Aplicativos ajudam na luta contra o desperdício

 

Pegada Hydros

 

Já imaginou calcular a quantidade de água que você gasta no seu dia a dia, ao lavar as mãos ou escovar os dentes, por exemplo? Através de perguntas sobre o dia a dia da pessoa, este aplicativo calcula a quantidade de água utilizada nas tarefas. Munido das informações, é possível descobrir em quais atividades o usuário gasta mais e comparar com a quantidade ideal e a média global. Disponível para Android e iOS.

 

Akaty Face Shower

 

De forma bem humorada, o aplicativo ajuda a evitar o desperdício de água por quem deixa a torneira ou mesmo o chuveiro aberto sem necessidade para que outra pessoa não ouça sons relacionados ao uso do vaso sanitário. Para acabar com o desperdício, o aplicativo simula o barulho da água, além de exibir na tela do celular quantos litros o usuário está economizando com seu gesto. Gratuito para iOS.

 

Sai Desse Banho

 

Quanto você costuma demorar no chuveiro? Tente reduzir para 4, 8 ou 12 minutos. Se você ultrapassar este tempo, o aplicativo vai apressar você: uma música irritante vai tocar em seu iPhone até que você o desligue. Depois do banho, a pessoa poderá ver estatísticas relacionadas à quantidade de litros de água economizada e uma evolução do seu desempenho. Gratuito para iOS.

 

 

 

SITUAÇÃO NÃO É DAS MELHORES

 

Setembro começou com uma esperança: “mês das pancadas de chuva”, traria consigo o alívio da secura do inverno e, junto com o início da primavera, intensificaria as cores das vegetações. Mas acabou chegando e indo embora sem cumprir sua promessa, deixando nada mais do que gotas tímidas em alguns pontos da Região Metropolitana de BH.

Com isso, 2014 vai se firmando como um dos anos mais secos da história da capital mineira, com o período de janeiro a setembro registrando um índice de chuvas de apenas 36% da média anual, nos aproximando de grandes secas que não aconteciam por aqui desde os anos 1960, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

O cenário para os próximos dias não é animador, já que não há nenhuma previsão de chuva até, no mínimo, terça-feira (14). E além das dores de cabeça, de garganta e do mal-estar típicos dos períodos de tempo seco, uma outra preocupação parece inevitável: o abastecimento de água.

 

O caso paulista é um alerta para todo o Brasil. Os reservatórios do sistema Cantareira, que fornecem água para 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo, atingiram um nível de 5,3% (até o fechamento desta edição), o mais crítico de sua história.

 

Já em Belo Horizonte, embora a Copasa negue, alguns moradores relataram ter ouvido de atendentes da empresa que está havendo um rodízio no fornecimento de água entre os bairros, como é o caso do ator Helbert Militani, 36, morador da região leste. “Cheguei em casa num sábado, há umas duas semanas, e estava sem água. Como isso já havia acontecido uma vez uns dias antes, liguei para a Copasa para saber o que acontecia, esperando ouvir que seria uma manutenção no sistema”, conta. “Para minha surpresa, a atendente disse que os reservatórios estavam vazios e, por isso, a empresa optou por fazer um rodízio na distribuição entre várias regiões”.

 

Por meio de nota, a Copasa negou o rodízio e uma reportagem do jornal O TEMPO indicou que os sistemas que abastecem a região estão com cerca de 50% da capacidade normal, quando o ideal seria 70%. Na mesma reportagem, o presidente da estatal, Ricardo Simões, garantiu que a crise não chegaria ao consumidor.

 

O professor do departamento de engenharia hidráulica da UFMG explica que o nosso sistema está sob menor risco do que o de São Paulo. “Porém, não existe sistema com risco zero. Se houver um prolongamento do período seco, o sistema provavelmente não vai consegui atender sua demanda”, diz.

 

Militani, que foi escoteiro e por isso já tinha uma atitude consciente, acredita que a situação seja um alerta. “Estamos acostumados à abundância de água do nosso país, mas vi de perto o problema e fiquei assustado. Precisamos tomar consciência de que é uma coisa comum a todos, é uma questão horizontal”, afirma.

 

Folhas secas

 

Foi depois de visitar um hotel fazenda que o advogado Gege Angelino, 65, se alarmou com a situação. “Eu pisava sobre a grama e ouvia barulho de folha seca”, conta. De volta à sua casa, ele, que é conselheiro da Associação de Moradores do Bairro Santo Antônio, enviou um e-mail para mais de mil moradores com dicas para economizar água. “Caminhando pelo bairro, eu vejo as pessoas tomando atitudes que ferem os olhos, por isso resolvi enviar as dicas. Outro dia, vi um vazamento num lote vago e insisti com a vizinha até que ela avisasse ao dono e consertasse”, conta. “É preciso consciência porque daqui pra frente só vai piorar”.

 

Moeda de troca

 

Um projeto da multinacional Ambev criou um sistema de descontos em compras online para quem economizasse água. “Por meio do Banco Cyan, as pessoas tinham acesso à média de consumo de água de seu imóvel e, à medida que diminuíam ou mantinham o consumo, ganhavam pontos que eram usados como desconto em sites de compras na internet”, explica Simone Gerente de Relações Socioambientais da empresa.

 

Iniciado em 2011, o projeto encerrou suas atividades no mês passado. “Foi um dos projetos com começo, meio e fim, mas fez com que seus correntistas em São Paulo, Rio de Janeiro e no Triângulo Mineiro economizassem mais de 800 milhões de litros de água”, diz.

 

Ações conjuntas

 

Além da redução do consumo no dia a dia – se toda a população da Grande São Paulo aderir à campanha “Não Chove Não Lavo”, por exemplo, 3,5 bilhões de litros d’água serão poupados –, é importante que seja articulado um conjunto de ações entre a indústria, os agricultores e o poder público, além da adequação dos próprios sistemas de abastecimento. “Há trechos em que as perdas de água no trajeto chegam a mais de 10%”, explica o professor do departamento de engenharia hidráulica da UFMG, Nilo de Oliveira Nascimento. “Mas é importante frisar que os pequenos desperdícios no âmbito urbano têm muito impacto.

 

É uma questão prática e de princípio”, diz. A proteção dos mananciais é outro ponto que precisa de mais atenção. “As duas empresas de Minas Gerais que mais lidam com essa questão de recursos hídricos – a Cemig e a Copasa – não têm uma política de proteção de mananciais”, comenta Francisco Mourão, biólogo e membro do conselho consultivo da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).

 

Essas áreas precisam de cuidado com a vegetação que as rodeia, de acordo com Samuel Barreto, especialista em água da ONG The Nature Conservancy. “Isso tem impacto na qualidade da água. Seja pra ajudar no balanço hídrico, estabilidade do solo ou evitando assoreamento”, diz.

É por isso que Nova York, nos Estados Unidos, apesar de ser um dos maiores centros urbanos do mundo, é referência em qualidade da água. “O que a cidade fez lá atrás foi proteger as bacias do rio Hudson. Não tem mágica, é uma solução simples. Mas precisamos do engajamento de todas as esferas da sociedade em torno disso”.

 

Faça sua parte

 

O carro

Quando precisar lavar o carro, use um balde, lavar o carro com uma mangueira gasta até 560 litros de água em 30 minutos.

 

Plantas

Regue o gramado e o jardim das 6h às 8h da manhã ou após ás 7h da noite, isso evita o excesso de evaporação e mais gastos. Dê preferência aos regadores em vez da mangueira. Se possível, instale um sistema de irrigação por gotejamento. Você pode economizar até 70% de água.

 

Calçadas

Não use a mangueira do jardim para varrer folhas e outros resíduos das calçadas. O correto é usar a vassoura, que permite economizar tempo e água.

 

Vazamentos

O problema em torneiras, em canos e nas descargas do banheiro devem ser consertados assim que detectados. Alguns tipos de vazamentos causam uma perda diária de 24 litros de água. A perda mensal fica em torno de 720 litros.

 

Banho

Reduza o tempo no chuveiro. Ao invés de tomar um banho de 10 minutos, diminua para 5 minutos. Assim, economizará 30 a 80 litros de água por cada banho, além da energia elétrica que também pesa no bolso.

 

Vaso sanitário

Não jogue lixo no vaso sanitário. Isso contribui para aumentar o gasto de água.

 

Vasilhas

Encha a pia para esfregar pratos e talheres. A economia será de 10 litros de água por dia.

 

Degelo

Para descongelar carne e outros não use a torneira. O ideal é deixá-los degelar dentro da geladeira.

 

Alimento

Ao lavar vegetais e frutas, utilize uma bacia e use uma escova vegetal para remover a sujeira.

 

Louças e roupas

Máquinas de lavar louças e roupas devem ser usadas totalmente cheias. Com isso a frequência de uso é menor e há menos desperdício de água e energia. Reutilize a água para lavar o quintal. Com isso, você economiza água e dinheiro.

 

Mãozinha

Instale aeradores nas torneiras e chuveiros

 

Reaproveitar

Invista em sistemas de reaproveitamento da água da chuva

15-10-2014