Catadores em Itaúna faturam salário mensal de R$ 3.200



Mais que uma fonte de renda e uma forma de preservar o meio ambiente, catar materiais recicláveis se tornou um serviço profissional. Ao reconhecer o potencial do trabalho dos catadores, algumas cidades brasileiras estão contratando cooperativas para fazer a coleta seletiva – trabalho que era feito pelos catadores, à margem da sociedade. A iniciativa ainda é tímida – ocorre em menos de 1% das cidades brasileiras –, mas obtém resultados transformadores. Um exemplo pioneiro está a menos de 80 km da capital mineira. Em Itaúna, na região Central, os catadores assumiram a coleta seletiva do início ao fim: pegam a sacola na porta das casas, separam, prensam e vendem para indústrias de reciclagem, o que garante a eles a média salarial de R$ 3.200 por mês. Conforme a prefeitura, 70% da população separa efetivamente o lixo atualmente. No restante do país, a média de participação não chega a 50%. Quem incentiva a população a se responsabilizar pelo lixo que produz são os próprios catadores, conscientes de que apenas papel higiênico e restos de comida devem ser rejeitados. Foi no meio de um lixão, de onde tiravam seu sustento, que eles aprenderam a dar novo destino a plástico, papel, vidro e alumínio – e a tirar desses produtos o próprio sustento. A missão dos catadores é não deixar nada que possa ser reaproveitado ir para o aterro sanitário e demorar até 4.000 anos para se decompor totalmente.

 

A coleta seletiva já era feita em Itaúna por uma empresa terceirizada há dez anos, e os catadores apenas recebiam o material para separar e vender, como ocorre na capital e na maioria das cidades. Mas, desde janeiro de 2013, a Cooperativa de Reciclagem e Trabalho (Coopert), formada por cerca de 80 itaunenses, passou a recolher diariamente o que eles chamam de lixo “seco” (reciclável) em todo o município. A partir de então, aumentaram o aproveitamento do lixo e a participação dos 90,7 mil habitantes, o que representa para os cofres públicos economia mensal de R$ 130 mil.

 

Comparação. A cooperativa de Itaúna envia à reciclagem, em média, 23% das 1.850 toneladas de lixo (“seco” e “molhado”) recolhido todos os meses – na capital, reaproveita-se apenas 1,2% do lixo produzido. As sacolinhas separadas pela comunidade representam 430 toneladas de materiais vendidos e não enterrados – peso semelhante a mais de 15 milhões de garrafas pet a cada mês.

 

Para que a coleta seletiva crescesse, a cidade foi mobilizada a participar, com palestras nas escolas, empresas e lojistas. Os catadores foram capacitados para desenvolver um plano de gestão. “A gente bate na porta das casas e sensibiliza a população a fazer a separação direito. Contamos nossa história, e muitos moradores participam pelo aspecto social, e acabam ajudando o meio ambiente”, afirma uma das coordenadoras da Coopert, Maria Madalena Duarte, 53, que começou a trabalhar no lixão aos 7 anos. “Antigamente a gente chamava de lixo e catava por necessidade. Hoje digo com orgulho que sou catadora de material reciclável, e fizemos disso um grande negócio”.

 

Por onde o caminhão da Coopert passa, há sacolinhas na porta das casas, com o lixo “seco”. A comerciante Sílvia Guimarães, 53, faz a separação desde 2002, quando começou o serviço em Itaúna, e acredita que, atualmente, com os catadores, os resultados melhoraram muito. “O interesse de entregar o lixo para eles é maior porque temos certeza de que será reaproveitado”, destacou.

 

Para a presidente da Coopert, Nilsilena Ferreira dos Santos, 43, antes as pessoas não faziam a separação por achar que beneficiariam apenas a prefeitura. “Os catadores conseguem pegar o material correto, e o caminhão de lixo molhado (rejeitos) recolhe da porta das casas o que não está separado”, explica.

 

Novo galpão vai aumentar a produção

 

Um novo galpão está sendo construído no aterro sanitário de Itaúna, a 17 km do centro, para que o número de catadores da Coopert e a seleção de materiais possam crescer a partir de 2015. Atualmente, a cooperativa utiliza um galpão dentro da cidade, que conta com uma esteira de 9 m para triagem dos recicláveis. O novo espaço terá duas esteiras, de 25 m cada. A expectativa é que o equipamento otimize a separação dos produtos e evite o acúmulo de material.

 

Trabalho de formiguinhas

 

Os catadores da Coopert ganharam quatro caminhões do governo federal, por meio do programa Cataforte. Agora, o trabalho deles é mesmo como o de uma equipe de formiguinhas, na qual cada um tem função essencial no sucesso da coleta seletiva. A cidade é divida em duas partes, e cada dia a coleta do lixo “seco” é feita de um lado, e a do “molhado”, do outro. O material coletado é colocado na esteira, para, depois de separado, ser prensado e vendido. É possível aproveitar tudo: marmita de papel alumínio, chuveiro, embalagem de salgadinhos e até isopor, que, apesar de ter mercado difícil para reciclagem, é juntado até formar um fardo de um quilo, de venda mais fácil.

 

Qualidade de vida

 

Para quem começou no lixão catando para sobreviver, receber salário mensal de R$ 3.200 é realizar o sonho de tirar uma boa renda do que virou uma paixão. A Coopert começou em 1999, com 27 catadores do lixão de Itaúna, onde havia cem famílias. A princípio, muitos continuaram atuando nas ruas, por não acreditarem que a iniciativa daria certo. Hoje os mais de 80 cooperados dizem que conseguiram, finalmente, qualidade de vida. “A gente trabalhava todo dia separando lixo sem luz e sem ganhar dinheiro”, lembra Nilsilena dos Santos, 43, que se tornou catadora aos 25 anos, levada pela curiosidade de saber para “onde ia todo aquele lixo” da casa da família onde ela trabalhava. “Agora, temos boa condição de vida”, diz.

 

Reaproveitar tudo

 

A ideia da Coopert e da Prefeitura de Itaúna é que os catadores passem a recolher o lixo molhado também e aproveitem mais os materiais recicláveis que continuam indo misturados com rejeitos. Além disso, cooperados e Executivo querem começar a transformar o lixo orgânico em adubo – realidade propagada no exterior, mas ainda muito distante no Brasil. Isso pode representar mais economia para a cidade. O contrato da cooperativa apenas para o lixo “seco” é de R$ 119 mil, e a Coopert movimentou R$ 3,8 milhões em 2013. Antes da parceria, o município gastava R$ 630 mil mensalmente em varrição e coleta seletiva e normal. Após a inclusão dos catadores, o Executivo passou a gastar R$ 500 mil por mês.

 

R$ 12,75 foi o valor do primeiro rateio entre os 27 cooperados, em 2002, quando era feita apenas a triagem do material coletado

 

R$ 980 era o salário médio mensal dos catadores da cooperativa de reciclagem de Itaúna, antes da contratação pela prefeitura

01-10-2014