Estiagem prejudica comércio e turismo nas cidades banhadas pelos rios Pará e das Velhas



Várzea da Palma, Conceição do Pará e Porteirinha – A luxuosa embarcação orçada em cerca de R$ 1 milhão que o empresário José Brasil constrói às margens do Rio das Velhas deveria ter feito o primeiro passeio há dois meses, mas a estiagem reduziu o volume do leito e o fez postergar a conclusão de seu sonho: navegar com grupos de amigos pela região de Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, no Norte de Minas. “Terá capacidade para 20 pessoas acomodadas confortavelmente.” O barco irá gerar quatro empregos diretos. Já em Conceição do Pará, no Centro-Oeste do estado, o também empresário Reinaldo Santos adiou o início da construção de alguns chalés para alugar em razão de a seca ter reduzido o leito do Pará: “Os turistas não vêm com o curso d’água baixo”.Tanto o Rio das Velhas quanto o Pará são importantes afluentes do São Francisco, o maior rio exclusivamente brasileiro, com 2,7 mil quilômetros de extensão e que, segundo ribeirinhos, pena com a maior seca dos últimos 100 anos. Em alguns trechos, o nível do Velho Chico reduziu em mais de cinco metros, afetando a economia em cidades cortadas pelo rio – o preço de pescados subiu, a interrupção temporária da travessia de balsas desabasteceu o comércio, empreendimentos voltados para o turismo registram queda no faturamento etc. Resultado: a inflação deu salto em várias localidades e centenas de vagas de empregos foram fechadas.

 

Problemas idênticos enfrentam municípios cortados pelos afluentes do Velho Chico. Esse é o tema da terceira e última reportagem da série “A sede do rio”. O das Velhas, maior afluente do São Francisco, com 761 quilômetros de extensão, nasce em Ouro Preto, passa por Sabará, Santa Luzia, Belo Horizonte e deságua no Rio da Integração Nacional na comunidade de Barra do Guaicuí, onde a baixa do leito impediu José Brasil de contratar, em junho passado, quatro tripulantes para trabalhar na sua embarcação. GASTO É lá também que mora o fazendeiro Adão Ricardo Araújo, criador de gado leiteiro. “O rio jogava umidade no pasto. Com pouca água, o pasto está seco”, lamentou Adão. Em razão disso, ele precisa gastar mais com a ração para o rebanho. O turismo sofreu um baque, pois muitos pescadores que desfrutavam de pousadas na região não vão ao local há semanas. Donos de restaurantes também são vítimas da estiagem. Problemas parecidos enfrentam empresários de cidades cortadas pelo Pará, que nasce em Resende Costa, na Serra das Vertentes, e deságua no Velho Chico logo depois de Pompéu, no Centro-Oeste.

Reinaldo tem um hotel, um restaurante e planejava construir chalés na beira do Rio Pará, mas desistiu: "A seca afastou os turistas"

Reinaldo, o empresário que adiou a construção de chalés para alugar em razão da estiagem do Pará, é dono de um hotel e de um restaurante na entrada de Conceição do Pará, pacato município que atrai grande quantidade de banhistas e pescadores quando o afluente do Velho Chico não sente os efeitos da estiagem. Os negócios do empreendedor, porém, foram afetados pela redução no volume do leito: “A seca afasta os turistas”.

 

O leito do Pará estão tão baixo que assustou Geraldo Márcio Moreira, operador da usina José Lima Guimarães, construída na área rural de Conceição do Pará e uma das mais antigas do Brasil. “Trabalho aqui há 30 anos e nunca vi o rio nessa situação”, disse. A usina gera energia elétrica para uma fábrica de tecidos na cidade vizinha de Pará de Minas. O fornecimento, claro, foi afetado: “Das quatro turbinas, apenas uma está funcionando. Se todas estivessem em atividade, elas estariam gerando 1,6MW. Como apenas uma está em operação, gera 230 kw”.

02-09-2014