O descompasso dos biocombustiveis

Colheita de soja: 85% do biodiesel no Brasil é produzido do grão e setor está sujeito a oscilações de preço
Desde que o ex-presidente Lula foi intitulado garoto-propaganda do etanol, chegando a defender o produto nacional na Organização das Nações Unidas (ONU) em 2009, pouca coisa avançou no setor de biocombustíveis, pelo menos sobre o ponto de vista da atração de recursos. Apesar de carregar a bandeira da energia limpa, a previsão de investimentos para o segmento (etanol e biodiesel) é bem modesta, especialmente se comparados à bilionária indústria do combustível fóssil. Para se ter ideia, até 2014, a Petrobras prevê um plano de negócios com investimentos de mais de US$ 220 bilhões. Deste total, o petróleo fica com mais de 85% dos recursos. Ás bioenergias sobram 1,5%. São US$ 192 bilhões contra US$ 3,5 bi.

Números divulgados pela Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que os investimentos totais do país em biocombustíveis, considerando os aportes da iniciativa privada, somaram US$ 3,3 bilhões em 2009 (últimos dados disponíveis). Segundo a agência, a queda em relação ao ano anterior é de 66%. O setor sucroalcooleiro passa pela primeira crise desde 2003, e até hoje continua brigando pelo marco regulatório, que definiria uma política nacional a longo prazo para o setor, alavancando novos investimentos.

O biodiesel se tornou opção real no mercado europeu, mas, no Brasil,o segmento está trabalhando com 50% de ociosidade. Para este ano, o mercado firme é de 2,6 bilhões de litros do óleo. A capacidade da indústria é o dobro, comportando produção superior a 5 bilhões de litros. Em busca de fôlego, a expectativa do segmento é que, nos próximos meses, o governo antecipe a elevação do percentual do óleo adicionado ao diesel, de 5% para 7%. "As margens estão apertadas e até negativas. Defendemos uma transição escalonada para o B10, previsto para 2014", diz o diretor-executivo da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Sérgio Beltrão. "Trabalhar com um nível tão grande de ociosidade não é benefício para nenhum setor. "

O relatório da AIE aponta que o Brasil investiu US$ 7,8 bilhões em energias sustentáveis - o que inclui fontes como energia eólica, solar e biomassa - se posicionando à frente de países como Índia e também do continente africano, sendo ultrapassado em larga distância pela China, que investe mais de quatro vezes o montante nacional, pelos Estados Unidos e União Europeia. "O momento é favorável para as energias limpas, mas a opção do Brasil é pelo petróleo. Talvez fosse o momento de discutir se vale a pena investir menos no pré-sal e mais em energias alternativas", comenta Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

O derivado da cana de açúcar conta com o excelente momento da indústria automotiva, que já produziu mais de 12,5 milhões de automóveis flex, mas a falta de investimento gera um descompasso entre oferta e demanda. No ano passado, o consumo do etanol foi de 22,1 bilhões de litros, 2,9% menor que 2009. Foi a primeira queda desde o início das vendas dos automóveis flex, iniciada há oito anos, e atualmente responsável pelo patamar de 86% dos automóveis novos. Nas bombas, as vendas do combustível hidratado caíram 8,5% no ano passado. As previsões para os próximos anos também não são animadoras. De acordo com o diretor técnico da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), Antônio de Padua Rodrigues, os investimentos para produção de etanol no país estão parados. "O que acontece hoje é suficiente para atingir a capacidade traçada há quatro anos", afirma Rodrigues.

O ritmo forte dos investimentos no combustível fóssil e a desacelaração dos setores alternativos está ligado à demanda mundial. Na opinião do especialista e coordenador do MBA em petróleo e gás da FGV/IBS, Alberto Machado, que também é ex-executivo da Petrobras, a hora e a vez são do petróleo. Ele não acredita em outra fonte de energia pelo menos até 2030. Segundo Machado, o Brasil até 2020 vai dobrar sua produção de petróleo para 5 milhões de barris/dia. Para ele, os conflitos nos países árabes podem reforçar ainda mais os investimentos. "O Brasil se torna um local seguro e privilegiado para investimentos."