Roupa com PET é tida como ‘ecológica’, mas polui o mar, alertam cientistas



Está na moda. Cada dia uma famosa marca se alia a um cantor famoso para produzir roupas feitas de PET. Recentemente foi a vez de Pharrel Williams propor a fabricação de calças jeans a partir de garrafas que estão nos oceanos. O objetivo desta iniciativa é reduzir o impacto causado por plásticos nos oceanos e praias. No entanto, novas pesquisas apontam que fragmentos de PET que saem na lavagem das roupas acabam nos mares e são cerca de 85% da poluição marinha.

 

O Politereftalato de Etileno, nome técnico do material que chamamos de PET, é um plástico da família dos poliésteres (muito comuns em roupas sintéticas). “O PET é quimicamente igual ao poliéster das roupas sintéticas” explica o engenheiro e professor da UNESP, Sandro Mancini. Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, o PET não foi desenvolvido inicialmente para ser usado como garrafas de refrigerante. O material foi originalmente desenvolvido para o setor têxtil e depois migrou para o setor de embalagens de bebidas.

 

“O processo de transformação (reciclagem) de garrafas PET em fios, para serem usados em fabricação de roupas é simples”, explica Mancini. “É preciso moer as garrafas, lavar os flocos do material moído, secá-los e derretê-los. Neste estágio do processo o material apresenta consistência viscosa, como mel, e então essa massa é puxada até formar um fio, que posteriormente será usado para compor um tecido”. Este processo de reciclagem é sustentável e aumenta o ciclo de vida do PET.

 

Mas a ciência descobriu que muitos dos fragmentos plásticos microscópicos que estão nos oceanos vêm das máquinas de lavar roupas. “As formas mais abundantes de poluição marinha por resíduos sólidos não são garrafas ou embalagens, mas sim pequenas fibras plásticas que respondem por cerca de 85% do material encontrado nas praias de todo o mundo. E mais, estas fibras são idênticas às usadas na indústria têxtil” é o que revela o pesquisador inglês Mark Browne, da Universidade da Califórnia, EUA, em sua palestra em evento que fomenta idéias para um mundo mais sustentável que aconteceu na Nas (Agência Espacial Norte-Americana). O trabalho que identificou a fonte destas fibras plásticas foi publicado em 2011 no Jornal Environmental Science e Tecnology.

 

Ainda segundo Browne, 78% dos químicos tóxicos mais persistentes no meio ambiente são encontrados nestas fibras. A concentração pode ser milhões de vezes maior nestas fibras do que na água do mar. Muitos animais marinhos são contaminados ao ingerir estas fibras. E o pior, podemos, inclusive, estar ingerindo estas fibras plásticas ao comer alguns animais marinhos como o mexilhão, que absorvem estas fibras ao filtrar a água do mar, alerta o especialista.

 

O tratamento de esgoto, como o que temos aqui no Brasil, não é capaz de reter essas fibras microscópicas provenientes da lavagem das roupas sintéticas. Processos mais modernos de tratamentos de esgoto utilizam membranas especiais que filtram o esgoto e são capazes de reter esses fragmentos, no entanto, o uso desta tecnologia não é usual no país.

 

A poluição marinha por fibras plásticas ainda é objeto de estudo da ciência, e muitas lacunas ainda precisam ser preenchidas para se entender os reais impactos deste material no ecossistema marinho. Como forma de reduzir esta constante contaminação ao ambiente marinho, Browne e um grande grupo de cientistas de diversas universidades estão reunidos para desenvolver novas tecnologias na fabricação de produtos têxteis sintéticos mais resistentes, que não liberem tantas fibras ao serem lavados.

 

Brasil, de olho no problema – Pesquisadoras da Universidade de São Paulo, Marina Santana e Liv Ascer procuram avaliar possíveis impactos dos microplásticos em organismos marinhos. “Essa ingestão acidental de microplásticos pode funcionar como um propulsor para diversos efeitos fisiológicos e ecológicos que, a longo (ou curto, não se sabe) prazo, venham a desestruturar interações entre comunidades e ecossistemas. Ainda é cedo para chegar a esta conclusão, precisamos aguardar mais resultados da pesquisa” explica Marina.

 

“Sabemos que os microplásticos estão no mar e que a tendência é que sua quantidade aumente com o tempo, no entanto, não sabemos todos os impactos e efeitos causados nos animais que o ingerem. A situação é muito preocupante e mais esforços deveriam ser direcionados para entendermos mais sobre este tema”, alerta a pesquisadora.

 

Limpeza de praias para roupas – A Global Garbage, ONG alemã que desenvolve trabalhos relacionados ao lixo marinho aqui no Brasil, chegou a ser contatada pela Bionic Yarn, empresa ligada à produção de roupas de Pharwell Williams, para verificar a possibilidade de utilizar garrafas PET recolhidas de praias brasileiras para a fabricação das roupas. A ONG declarou que participaria destas atividades se o recolhimento das garrafas acontecesse em praias brasileiras onde não existe atividades de limpeza.

 

“Praias urbanas já são limpas frequentemente, queremos atuar em locais onde este material não tem perspectivas de ser recuperado e vai se acumular ao longo do tempo. Já identificamos na costa baiana, onde atuamos desde 2001, diversos pontos de acúmulo de lixo marinho, áreas praticamente inabitadas”, explica Fabiano Barretto, fundador da Global Garbage. O convênio acabou não sendo firmado pois, dentre outros motivos, a Bionic Yarn afirmou que o valor da tonelada de PET ficaria muito cara.

 

“O acesso a estes locais é mais complicado e acaba encarecendo a logística de recuperação e transporte dessas garrafas. Parte deste dinheiro seria destinado às organizações sociais das comunidades mais próximas destas áreas de acúmulo de lixo marinho para realizarem, em conjunto, a recuperação das garrafas PET”, justifica Barretto.

 

Desconhecimento de empresas é grande – Muitas empresas e instituições fabricam e comercializam camisetas feitas a partir de garrafas PET como sendo uma atividade sustentável e ecológica. É fato que a iniciativa incentiva a educação ambiental e a preocupação com o meio ambiente. No entanto, “devolver” o plástico ao ambiente em partículas microscópicas (forma mais nocivas para a natureza do que a garrafa inteira), não é uma atividade propriamente ecológica.

 

Como este efeito nocivo é uma novidade inclusive para a ciência, muitas empresas que comercializam roupas de PET desconhecem o fato. Se a fabricação de roupa pode não ser a melhor forma de reaproveitar garrafas PET, existem outras maneiras de reciclagem, como novas embalagens de material de limpeza, por exemplo. Já uma camiseta ecológica é aquela feita de algodão orgânico, que não usam agrotóxicos em seu cultivo. (Fonte: UOL)

29-7-2014