Fotógrafo Sebastião Salgado pede apoio para a revitalização do Rio Doce



O fotógrafo Sebastião Salgado, que veio a Belo Horizonte para abertura da Exposição Genesis, aproveitou a passagem pela capital mineira para manifestar preocupação com o Rio Doce, um dos mais importantes de Minas. Natural de Aimorés, na Região Leste do estado, Salgado costumava nadar nessas águas quando era criança. Hoje, desenvolve projeto para tentar melhorar as condições do rio. “Temos um projeto para ajudar a revitalizá-lo. O Doce, que é um dos rios mais importantes do Sudeste brasileiro, já foi navegável, tinha uma fundura média de quatro metros, o que hoje é de cerca de 70 centímetros. Se não fizermos alguma coisa ele irá morrer”, disse ontem, em entrevista no Palácio das Artes. “Mas para isso precisamos de ajuda, precisamos de financiamentos para ajudar a recuperar as centenas de nascentes que o formam. Já conseguimos recuperar cerca de 600, mas isso ainda não é o bastante, porque elas são milhares”, acrescentou.

 

Salgado mencionou também projeto em andamento relacionado aos os índios brasileiros. Recentemente, o fotógrafo desenvolveu trabalhos com os Ianomâmis e tribos maranhenses. “Por incrível que pareça, no Brasil ainda existem cerca de 100 tribos que não tiveram nenhum contato com os brancos. A Funai tem o mapeamento de todas, e caberá a elas decidir ou não se querem essa aproximação conosco”, afirmou. Em Genesis, podem ser vistas fotos feitas com povos indígenas de estados brasileiros como o Pará e o Mato Grosso, e também da Venezuela.

 

Sebastião Salgado traz a BH imagens de lugares intocados do planeta

 

 

Na entrevista sobre a Exposição Genesis, que poderá ser visitada pelo público de amanhã até 24 de agosto, na Grande Galeria do Palácio das Artes e na Sala Maris´Stella Tristão, Salgado disse que a ideia de realizá-la nasceu há alguns anos Fazenda Bulcão, em Aimorés. Lá, ele e sua mulher, a arquiteta Lélia Wadick Salgado, criaram o Instituto Terra, projeto de recuperação da Mata Atlântica, que engloba uma área de mais de 700 hectares. Do início dos anos 2000, até hoje, já foram plantadas mais de dois milhões de árvores no local.

 

“Eu estava muito deprimido após a realização de Êxodus, que foi de 1994 a 1999, tinha viajado muito para várias partes da terra e visto coisas que realmente me deixaram muito triste, muito descrente com o ser humano, pelas coisas horríveis que ele é capaz de fazer. Cheguei até a pensar em deixar a fotografia e voltar para o interior de Minas. Foi quando Lélia, olhando para as terras da fazenda, onde eu tinha passado a infância, me deu a ideia de reflorestarmos tudo aquilo, e em consequência disso veio a vontade de também realizar Genesis, projeto no qual trabalhamos de 2004 a 2011”, contou.

 

Seleção

 

A mostra, com curadoria de Lélia Wadick Salgado, casada há 51 anos com Sebastião Salgado, tem encantado milhares de pessoas em todo o mundo – no Brasil já foi vista no Rio, São Paulo, Santo André e Porto Alegre, antes de chegar à capital mineira. São 245 fotografias, divididas em cinco sessões geográficas. Elas mostram lugares da terra e povos que não tiveram maiores contatos com a civilização. “Não foi fácil fazer a seleção das fotos, entre milhares de originais, mas no final acho que deu certo, e estamos muito felizes em compartilhá-las com os mineiros. Minha mensagem, na essência, é que temos obrigação de ajudar a preservar o planeta. Cada um de nós deve fazer a sua parte. Pelo menos é isso que estamos tentando com nosso trabalho”, disse Lélia.

Sebastião Salgado compartilha com as opiniões da sua mulher, e é otimista em relação ao futuro da Terra. Acredita que o planeta, como um todo, irá sobreviver, pois tem um poder de recuperação muito grande. Basta deixá-lo em paz, que ele se recupera. Já não pensa o mesmo em relação ao homem, que se continuar no ritmo de autodestruição em que se encontra atualmente, tem uma “boa chance”, segundo ele, de desaparecer da face da terra. “O que será uma pena, pois ainda temos muito o que descobrir”, diz.