Sem jamais ratificar um tratado mundial de redução das emissões de gases nocivos à atmosfera, Estados Unidos apresentam plano de combate às mudanças climáticas



Brasília – Ex-campeão mundial de emissão de CO2 na atmosfera, o governo americano lançou um plano ambiental que pretende não só diminuir a produção de gases de efeito estufa nos EUA, mas também liderar globalmente as negociações de combate às mudanças climáticas. Em um discurso para estudantes da Universidade de Georgetown, em Washington, o presidente Barack Obama disse que não há mais como questionar se algo precisa ser feito. “A pergunta, agora, é se teremos a coragem de agir antes que seja tarde. Como presidente, pai e americano, eu digo: precisamos agir”, declarou Obama, ovacionado pela jovem plateia.

 

O documento de 21 páginas, divulgado pela Casa Branca, foi considerado histórico porque, pela primeira vez, um governante americano se compromete de forma tão enfática com o combate às mudanças climáticas. Os EUA jamais ratificaram tratados internacionais que estipulam índices de redução de emissões, como o Protocolo de Kyoto, cuja implementação da segunda fase será discutida daqui a dois anos (leia mais abaixo).

 

Por outro lado, o plano não diz exatamente como o governo americano conseguirá frear as emissões de CO2. “Não tem novidade, é uma reunião de ações que já existiam e estavam dispersas mas que, em conjunto, não têm força de lei”, avalia Sérgio Leitão, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil. O socioambientalista lembra que o acirramento do bipartidarismo americano está impedindo, cada vez mais, que republicanos e democratas fechem acordos. Desde o primeiro mandato de Obama, foi justamente a falta de maioria no Congresso que impediu a adoção de medidas enfáticas para o controle das emissões. Ontem, pouco tempo depois do anúncio de Obama, o senador Mitch McConnell, líder republicano no Senado, contra-atacou em um discurso: “Declarar uma ‘guerra ao carvão’ equivale a declarar uma guerra aos empregos”.

 

Ressaltando a necessidade de buscar novas formas de energia além dos combustíveis fósseis, o presidente americano citou o Brasil e a China, afirmando que as nações de economia emergente também precisam colaborar para reduzir a produção de gases de efeito estufa. “Países em desenvolvimento estão usando mais e mais energia. Dezenas de milhares de pessoas estão entrando para a classe média mundial e, naturalmente, querem comprar mais e mais carros, assim como nós, americanos. Não podemos culpá-los por isso”, disse. “E quando você conversa com os países pobres, eles dizem: ‘Vocês entraram nesse estágio de desenvolvimento, por que nós também não podemos? Essa é uma pergunta justa”, reconheceu. Obama, porém, afirmou que são justamente os emergentes que estão mais vulneráveis às consequências das mudanças climáticas. “Então, eles terão de tomar providências para enfrentar esses desafios conosco.”

 

O presidente dos EUA garantiu que isso não significa frear o desenvolvimento. “Hoje temos mais combustíveis híbridos e energia limpa que há 20 anos e nossa economia está 60% maior”, afirmou, acrescentando que “nenhuma outra nação reduziu tanto as emissões quanto os Estados Unidos”. Atrás apenas da China no ranking dos maiores poluentes atmosféricos mundiais, o país conseguiu reduzir as emissões e CO2 em 6,9%, tendo 2005 como base.

 

No plano anunciado ontem, o presidente reafirmou o desejo de alcançar o corte de 17% até 2020, mas não mencionou a condição, expressada por ele durante a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas de Copenhague (COP-15), de economias emergentes também terem metas, proposta rechaçada pelos Brics, que são estimulados a adotar medidas voluntariamente,mas não têm obrigação de fazer isso, de acordo com a convenção-quadro da ONU. Sérgio Leitão acredita que o discurso do presidente pode trazer uma esperança para a próxima conferência, em 2015. “Em que pese suas limitações e dificuldades em função do Congresso, (o discurso) ainda significa que a presidência tem uma compreensão de que o tema das mudanças climáticas realmente é importante”, avalia.

 

 

 

Corte à poluição por carbono

» Trabalhar com a indústria e com os estados para estabelecer padrões de emissão de carbono para as usinas elétricas já existentes e aquelas que ainda serão construídas

» No orçamento de 2014, aumentar em 30% a verba destinada ao investimento em tecnologias que gerem energia limpa

» Dobrar, até 2020, a produção de energia eólica e solar

» Dispor de energia renovável suficiente para, em 2020, garantir o fornecimento em 6 milhões de residências

» Investir em pesquisas para o desenvolvimento de biocombustíveis e de eletrodomésticos que consumam menos energia

» Preparar os EUA para os impactos das mudanças climáticas

» Fazer parcerias público-privadas para o desenvolvimento de hospitais mais resistentes a catástrofes naturais

» Levar conhecimento científico a produtores rurais

» Liderar os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas e seus efeitos globais

» Expandir a cooperação bilateral com nações emergentes, incluindo o Brasil

» Negociar o livre comércio de serviços e produtos ambientais

» Mobilizar o mundo para a criação de um fundo voltado ao clima

Fonte: Casa Branca