Especialistas alertam que índices de poluição não refletem lixo lançado na água

Ao longo de 250 metros na margem da Lagoa da Pampulha, em uma mancha escura e malcheirosa misturavam-se ontem o lixo flutuante e restos de animais da fauna local. Do estacionamento de um dos mirantes até o canal do Parque Ecológico, se destacava uma nata formada por latas, pacotes longa vida, pneus, algas, galões de óleo, baldes, pedaços de isopor e embalagens plásticas diversas, inclusive de aditivos automotivos. No meio da sujeira descartada em vários locais que vai parar no lago do cartão- postal da capital mineira há corpos em decomposição de aves e de peixes. E, de acordo com especialistas, os levantamentos de qualidade de água atuais feitos pelo estado não levam em conta esse tipo perigoso de poluição: o lixo jogado em córregos.

 

“Metais pesados e outros tóxicos perigosos para a saúde chegam à Pampulha dentro de compostos descartados de maneira inadequada na lagoa. Isso não é mostrado, por exemplo, nos levantamentos do Igam (Instituto Mineiro de Gestão das Águas)”, alerta o coordenador do Laboratório de Gestão de Reservatórios (LGAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ricardo Motta Pinto Coelho.

 

Esses sinais de poluição se espalham pela orla. Próximo ao Parque Ecológico, o que retinha garrafas PET, latas, pneus e todo tipo de dejeto eram as grossas camadas de cianobactérias sobre algas mortas. Na altura da Avenida Cremona, no Bairro Bandeirantes, uma manilha de esgoto cospia diretamente no lago uma substância esbranquiçada, que tingia as águas. Próximo ao Córrego Olhos d’Água, no Bairro Garças, mais lixo flutuante chegava à lagoa, deixando um rastro de sujeira que repercute negativamente no conjunto paisagístico para o qual a administração municipal pleiteia título de Patrimônio Cultural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Os animais que boiam em meio ao lixo chamam ainda mais a atenção dos frequentadores para a degradação da lagoa. Mas o mau cheiro era a principal reclamação dos frequentadores que foram ontem à Pampulha. “Moro na região e a impressão que temos é de que cada dia que passa a lagoa fica mais suja e fedorenta”, criticou o agente de informática Rogério Santos Júnior, de 29 anos, que na tarde de ontem passeava com a noiva, Mariana Alves, de 23.

 

A poluição e contaminação por metais pesados, no entanto, não afugentam uma turma que gosta de pescar e que muitas vezes não hesita em comer o que fisga nas águas da lagoa. É o que faz o aposentado Sebastião Mário Melo, de 71, que desde menino captura peixes no lago. “Quando chegam os guardas municipais e policiais militares, a gente para de pescar e não cria caso. Mas desde menino como esses peixes. Se têm algum tipo de contaminação, é daquelas que levam muito tempo para fazer mal, não é?”, desdenhou. “Pesco aqui há 20 anos e nada me aconteceu com os peixes que como. Dá para ver que a lagoa está muito poluída, mas isso não afeta os peixes”, disse o companheiro de pesca do aposentado, o vigilante Tarcísio Alves, de 64.