Rio doente, gente doente

A água não é só fonte de toda forma de vida na Terra, mas dela depende a saúde das pessoas. No Dia Mundial da Água, comemorado hoje, está aceso o sinal amarelo para a poluição das bacias hidrográficas que abastecem Belo Horizonte e região metropolitana. Apesar da construção das estações de tratamento de esgoto (ETE) Arrudas, em 2000, e Onça, em 2006, são necessárias ações para melhorar o volume e a qualidade dos recursos hídricos de rios, riachos, ribeirões e nascentes que compõem a Bacia do Rio das Velhas, de onde é captada a água que chega à casa de mais de 5 milhões de pessoas diariamente. “A qualidade das águas na foz do Ribeirão do Onça, em Santa Luzia, na Grande BH, é crítica e indica que a interceptação e tratamento dos esgotos não alcançaram os índices desejados. Sabará continua sem tratar seus efluentes e o mesmo ocorre em Nova Lima, Rio Acima e Sete Lagoas”, alerta o coordenador-geral do Projeto Manuelzão, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcus Vinícius Polignano.

Segundo ele, em breve o Manuelzão e a Copasa vão divulgar os dados do biomonitoramento da Bacia do Rio das Velhas. A ferramenta é usada para avaliar as mudanças ocorridas em um rio e em sua bacia hidrográfica, por meio da qualidade das águas e dos organismos vivos presentes ali. Quanto maior o nível de poluição, maiores são os riscos de contaminação do ser humano e dos animais pelas doenças de veiculação hídrica, como a amebíase, giardíase, gastroenterite, febres tifoide e paratifoide, hepatite infecciosa e cólera (veja quadro). Geralmente, as crianças são as mais afetadas por essas enfermidades, que estão entre as principais causas de mortalidade infantil. Embora tenha ocorrido uma melhora em relação à década de 1980, quando eram a principal causa de mortes em pessoas com até 12 anos, as doenças trazidas pela água ainda assustam. E não apenas em Minas Gerais.

No Brasil, a diarreia de origem infecciosa causada pela contaminação da água levou à morte 217,2 mil pessoas desde janeiro, de acordo com dados de monitorização de doenças diarreicas agudas (DDA) do Ministério da Saúde. Entre 2000 e 2011, foram registrados 33,4 milhões de casos de DDAs. Apesar de transmitidas por picadas de mosquitos contaminados, a malária, a dengue e a febre amarela também estão associadas à água e aos problemas de saneamento. É na água que os mosquitos se proliferam e botam seus ovos, para depois picarem os humanos.

Os cuidados não devem se restringir aos pontos onde se capta a água, mas toda a bacia (mananciais, afluentes e calhas do rio). A gestão dos cursos d’água deve levar em conta a qualidade dos recursos hídricos, bem como a quantidade que será extraída. “Temos que saber a quantidade que podemos extrair sem literalmente matar o rio”, acrescenta o coordenador do Manuelzão.

A meta do programa é tornar as águas da Bacia do Rio das Velhas próprias para a pesca e para que as pessoas possam nadar. Para que isso ocorra, foram propostas três linhas de ação: recuperação da calha do Velhas na sua passagem pela Região Metropolitana de Belo Horizonte, preservação máxima do Rio Cipó/Paraúna, preservação das águas e recuperação das demais sub-bacias do Rio das Velhas.

Em geral, o processo de contaminação na água ocorre em função da deposição de coliformes fecais, basicamente pelo manejo inadequado dos esgotos nas proximidades dos cursos d’ água. Isso sem falar no despejo ilegal de dejetos industriais nos rios, prática ainda muito comum no Brasil. “É um processo de contaminação à distância. A água, por ser diluente, arrasta tudo o que estiver no caminho, o que leva à disseminação de doenças através do líquido”, pontua.

O manejo inadequado do esgoto pode também resultar em contaminação do solo e até mesmo dos lençóis freáticos. “Ainda há muito o que fazer para que os esgotos não sejam depositados nos córregos”, acrescenta Marcus Vinícius.

ESCASSEZ Em função da gestão inadequada dos cursos d’ água, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que nos próximos 20 anos entre 30% e 40% da humanidade sofrerá com escassez de água doce. A água é essencial para a existência de vida na Terra. A confluência de uma série de fatores possibilitou a existência da água na forma líquida. Por ser um diluente universal, permitiu a combinação de substâncias químicas até o surgimento das primeiras formas de vida.

Embora 3/4 do planeta sejam ocupados por água, a maior parte é salgada, o que dificulta seu consumo. Apenas 3% da água total do planeta é doce, portanto própria para o consumo humano, na agricultura, na indústria, entre outras aplicações. Desse total, 2% estão nas calotas polares. Os rios, lagos e córregos correspondem apenas a 0, 001%.

Portanto, água doce é um bem tão precioso quanto o diamante, embora muitas vezes as pessoas não se deem conta. “Deveríamos ter com a água a maior consideração possível. Entendê-la como um elemento sagrado. No entanto, ao longo da história, ao construir as cidades, poluimos córregos, rios e afluentes. Contaminamos elemento fundamental para a nossa sobrevivência”, afirma.

 HIGIENE É FUNDAMENTAL

Conheça as principais doenças de veiculação hídrica:

 AMEBÍASE

Geralmente, fala-se de ameba (Entamoeba) sempre que há diarreias persistentes. A Entamoeba coli é um parasito que se localiza no intestino do ser humano,mas que não o prejudica e, portanto, não precisa ser tratada. Já a Entamoeba hystolitica é prejudicial e precisa ser eliminada.

Como se contrai

Esses parasitas são eliminados com as fezes que, se deixadas próximas a rios, lagoas, fossas, podem contaminar a água. Moscas e baratas, ao se alimentarem de fezes de pessoas infectadas, também transmitem a parasitose a outros humanos, defecando sobre os alimentos ou utensílios.

Pode-se, ainda, contrair a ameba comendo frutas e verduras cruas, que foram regadas com água contaminada ou adubadas com terra misturada a fezes humanas infectadas.

 GIARDÍASE E CRIPTOSPORIDÍASE

A giardíase é causada pela Giardia lamblia e acriptosporidíase pelo Cryptosporidium parvum. Ambos vivem nas porções altas do intestino, sendo mais frequentes em crianças.

Como se contrai

A transmissão se faz pela ingestão de cistos, podendo o contágio ocorrer pelo convívio direto como indivíduo infectado, pela ingestão de alimentos e água contaminados, pelo contato com moscas etc.

 GASTROENTERITE

¦ É uma infecção do estômago e do intestino produzida, principalmente, por vírus ou bactérias. É responsável pela maioria dos óbitos em crianças menores de um

ano de idade.

Como se contrai

¦ A incidência é maior nos locais em que não existe tratamento de água, rede de esgoto, água encanada e destino adequado para o lixo.

 FEBRES TIFOIDE E PARATIFOIDE

É uma doença grave, produzida pela bactéria Salmonella typhi. A fonte de infecção é o doente, desde o instante em que ingeriu os bacilos até muitos anos depois, já que os bacilos persistem em suas fezes. A febre paratifoide é mais rara e é produzida pela Salmonella paratyphi dos tipos A, B ou C. Sua fonte de infecção é a mesma da febre tifoide: doentes e portadores.

Como se contrai

A doença se transmite pelas fezes, que contaminam as mãos, as roupas, os alimentos e a água. O bacilo tifoide é ingerido com os alimentos e a água contaminada.

HEPATITE INFECCIOSA

A hepatite infecciosa é produzida mais comumente por dois tipos de vírus: A e B.

Como se contrai

Hepatite A: A transmissão pode ocorrer por meio da água contaminada. Os indivíduos doentes podem transmiti-la pelas fezes, de duas semanas antes até uma semana depois do início da icterícia. A transmissão pode ocorrer também pela transfusão de sangue, duas a três semanas antes e alguns dias após a icterícia.

 CÓLERA

É uma doença causada pelo micróbio Vibrio cholerae, que se localiza no intestino das pessoas, provocando, nos casos graves, diarreia e vômitos intensos. Com isso, a pessoa perde muita água, ficando desidratada rapidamente. Se não administrada, a desidratação pode levar o doente à morte em pouco tempo.

Como se contrai

A doença é transmitida, principalmente, por meio da água contaminada pelas fezes e pelos vômitos dos doentes, e também por alimentos que foram lavados com água contaminada e não foram bem cozidos, ou pelas mãos sujas de doentes ou portadores.

ESQUISTOSSOMOSE

(XISTOSA)

É uma doença crônica, causada por um pequeno parasita, o Schistosoma mansoni, que se instala nas veias do fígado e do intestino.

Como se contrai

Para que surja a doença numa localidade são necessárias várias condições: a primeira é a existência de caramujos que hospedam o Schistosoma mansoni. Nem todos servem para o parasito, só algumas espécies. Esses caramujos vivem em córregos, lagoas, valas de irrigação e canais. E, em contato com o homem, transmitem a doença.

ASCARIDÍASE (LOMBRIGAS)

¦ O Ascaris lumbricoides, comumente chamado de lombriga ou bicha, é um verme que vive no intestino das pessoas e causa uma doença chamada ascaridíase.

 Como se contrai

¦ É por meio da terra, da poeira, dos alimentos mal lavados e das mãos sujas que os ovos das lombrigas são levados à boca. Depois de engolidos, eles soltam larvas no intestino, que levadas pelo sangue, passam pelo fígado, coração, pulmões e brônquios e retornam ao intestino, onde se tornam adultas, para se acasalar e pôr ovos. No homem, o ovo leva de 2,5 a 3 meses para se transformar em larva e depois em verme adulto, que vive no intestino menos de seis meses.

 TAENÍASE

(SOLITÁRIA)

A solitária ou tênia é um verme muito comum em Minas Gerais, principalmente na zona rural, onde as pessoas

se alimentam geralmente de carne de porco. O porco e o

boi são transmissores

da solitária.

 Como se contrai

A solitária vive no intestino das pessoas. Depois que se torna adulta, solta pedaços pequenos cheios de ovos, que se juntam com as fezes. Se essas fezes são deixadas no chão, o porco e o boi, alimentando-se do capim, também as comem. Chegando ao estômago desses animais, os ovos se rompem, as larvas saem e vão para o intestino e, depois, para os músculos, onde se fixam, podendo viver até um ano. Quando o animal é abatido e alguém come essa carne, crua ou mal cozida, passa a ser o portador da solitária.

 OXIURÍASE

O Enterobius vermiculares ou Oxiures vermiculares, também conhecido por saltão, tuchina ou verme da coceira, assemelha-se a um pequeno fio de linha. Os vermes adultos vivem no intestino. Os machos têm vida curta e morrem depois de fecundar as fêmeas, sendo logo eliminados. As fêmeas produzem grande quantidade de ovos e caminham pelo intestino humano chegando até o ânus do doente, onde soltam os ovos.

 Como se contrai

A pessoa portadora do Enterobius sente uma coceira muito forte no ânus, provocada pela descida dos vermes pela abertura anal. Isso ocorre, principalmente, durante a noite: a pessoa se coça mesmo dormindo, espalhando os ovos, que ficam nas roupas, lençóis, entre seus dedos e debaixo das unhas. A contaminação ocorre quando a pessoa leva as mãos sujas à boca, ao manusear alimentos e utensílios domésticos, transmitindo a verminose a outras pessoas. As roupas dos indivíduos parasitados também são fontes de infestação, pois os ovos ficam agarrados a elas e podem chegar às mãos e à boca. Ao sacudir os lençóis os ovos são espalhados, podendo ser aspirados no ar pelo nariz, levados, com a poeira, até os alimentos e engolidos.