Cultura e Meio Ambiente no mesmo barco

Nesses tempos em que se fala tanto em sustentabilidade, existem coisas que são fundamentais, mas pouco comentadas. Uma delas é o mergulho em realidades, tribos, "configurações energéticas" completamente diferentes das que estamos acostumados a freqüentar. Convidada a palestrar no 1º Encontro Mundial das Redes de Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva, dentro da programação do Fórum Social Temático, conheci o trabalho de muitos grupos interessantes. O evento ocorreu no dia 25 de janeiro, em Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre. Senti de perto a importância de como precisamos parar de falar só para nossos pares, para quem é do nosso "clube", só para quem entende as nossas expressões, que, na prática, é onde circulam nossos interesses da fase em que atravessamos na vida.

Na ocasião, abordei como os aspectos da comunicação, sustentabilidade e cultura estão interligados. Levei materiais, objetos e peças que coletei em viagens a vários estados do País durante minha trajetória de jornalista ambiental, apreciadora de artesanato criativo e genuíno. Eles serviam de exemplo para destacar como essas áreas têm relação uma com a outra. E como é preciso que as pessoas compreendam a necessidade de incorporar a comunicação em suas atividades. O planejamento, a produção adequada ao público que se pretende atingir, a divulgação, enfim, coisas que todos que lidam com estruturas, sejam de governo, da sociedade ou de empresas deveriam saber.

E trocando ideias com "ponteiros de cultura", representantes de distintas manifestações de culturais genuinamente brasileiras, deparei-me com relatos impressionantes sobre o desmantelamento dos incentivos à produção cultural brasileira. Percebi que o desmonte das conquistas da sociedade civil na área ambiental - os benefícios do coletivo, do público sobre o privado - também está sendo vivenciado pelos ativistas da Cultura Popular. Além de saudade da gestão de Gilberto Gil, os participantes revelaram que há muito pagamento de serviços atrasado, que o governo da presidenta Dilma não está honrando com os compromissos de campanha e que falta espaço para exposição de suas reivindicações.

As duas gestões de Lula tiveram uma grande participação de profissionais com experiência nos movimentos sociais e organizações não governamentais, tanto na Cultura, como no Meio Ambiente. Consequentemente, isso provocou uma grande desmobilização. A saída desses representantes de suas entidades e a falta de continuidade do que estruturaram com a participação de inúmeros segmentos é algo extremamente difícil de se mensurar. Não há Estudo de Impacto que possa ser montado para denotar o que isso significa.

Esses dois mundos têm muitas outras coisas em comum para conversar, se conhecer e aprender uns com os outros. A sustentabilidade está intimamente relacionada aos dois. Porém precisa ser costurada por todos protagonistas que sabem que a Mãe Natureza é a base de tudo, do modo de vida, da forma como incorporarmos proteções, do sagrado e de tanto mais.

E um exemplo de como tem gente que já está colocando isso em prática está no espaço da Federação Afro-Umbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul no FST em Canoas. A Fauers está promovendo oficinas de como fazer barquinhos para Iemanjá de papelão. Pela primeira vez, a festa celebrada no litoral gaúcho no próximo dia 2 de fevereiro contará com uma frota biodegradável. Tudo porque, como diz o título da cartilha, também distribuída pela entidade, "a natureza é o altar de todos nós".

* Silvia Franz Marcuzzo é Jornalista.