Obras para evitar que o Paraopeba transborde

Para evitar que o rio Paraopeba volte a transbordar, como neste período chuvoso, quando ele inundou 19 dos 48 municípios que formam sua bacia, autoridades e moradores das cidades afetadas não podem limitar-se a levantar as mãos para o céu e pedir a Deus que mande menos água. Segundo especialistas em geologia e recursos hídricos, são necessárias obras para conter as cheias e os danos causados por elas. As intervenções vão desde a construção de bacias de contenção à substituição das áreas cimentadas por grama.

 

O Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (Cibapar) fará um mapeamento inédito das áreas habitadas ao longo do curso d'água, o equivalente a cerca de 20% dos 537 quilômetros de extensão do rio. A meta é fazer um diagnóstico de ocupações, desmatamentos, cortes irregulares de encostas, erosões e abertura de estradas vicinais sem critérios técnicos. São problemas que contribuem para as inundações e a expedição vai apontar as medidas necessárias para corrigi-los.

 

A previsão é a de que técnicos do Cibapar, associação ligada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, comecem a trabalhar em um mês e concluam o diagnóstico até setembro.

Especialistas consultados pelo Hoje em Dia antecipam quais as obras necessárias na bacia do Paraopeba. O engenheiro de recursos hídricos Bruno Versiani, professor aposentado do Departamento de Engenharia Hidráulica e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que a correção dos problemas requer ações complexas. "Há uma grande zona habitada (cerca de cem quilômetros do rio) e a primeira coisa a ser feita, de forma emergencial, é delimitar áreas que não podem ser ocupadas por casas. Onde elas existem, é preciso realocar os moradores para outras partes das cidades".

 

Com relação às medidas estruturais, o engenheiro afirma que a construção de diques ajudará a conter as inundações. "São muros laterais construídos longitudinalmente ao rio. Os obstáculos podem ser de cimento, gabião ou de terra. Eles foram feitos em Pirapora (Norte de Minas), na década de 1970, para conter as cheias do rio São Francisco", exemplifica.

 

A dragagem do rio, para diminuir o assoreamento, é uma alternativa mais cara, segundo Versiani. "Ela pode ser feita, mas nem sempre resolve o problema, pois outro ponto de inundação pode se formar mais a jusante".

A construção de bacias de contenção, chamadas em São Paulo de piscinões, também deve ser cogitada para impedir os transbordamentos do Paraopeba, na avaliação do médico Apolo Heringer Lisboa, professor da UFMG e fundador do Comitê da Bacia do Rio São Francisco. A água da chuva cai nesses reservatórios, reduzindo o volume que vai parar no rio. "Essa água é absorvida aos poucos pelo solo ou é liberada gradativamente". A medida é bem vista pelo secretário-executivo do Cibapar, o engenheiro civil, ambiental e sanitário Mauro Costa Val.

 

Para conter o assoreamento do Paraopeba, fator que contribui para que ele transborde, áreas desmatadas às margens do rio para a criação de pastos e o desenvolvimento de outras atividades agrícolas precisam ser reflorestadas. É o que aponta o geólogo Edésio Teixeira de Carvalho, professor aposentado do Departamento de Geologia da UFMG. "Essas atividades fazem surgir as voçorocas, erosões abertas nos terrenos desmatados. As enxurradas ‘lavam' esses buracos, levando a terra para dentro do rio. É possível usar o entulho de material de construção jogado nas caçambas para fazer o soterramento controlado das voçorocas", diz.