O longo caminho da reconstrução

Ouro Preto, Governador Valadares, Betim... A lista é comprida. Inclui pequenas, médias e grandes cidades de praticamente todas as regiões de Minas. Em comum, prejuízos materiais, vidas perdidas e gente expulsa de casa pelas chuvas que castigaram o estado em dezembro e neste mês - só em situação de emergência são 137 municípios, com mais de 50 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Também em comum, a necessidade de começar de novo. O caminho ainda é longo: em Valadares, ruas continuam alagadas mesmo com o sol que apareceu ontem. Em Ouro Preto, há terra por retirar de perto da rodoviária, onde dois taxistas morreram soterrados na semana passada. Em todo o estado, quase 15 mil casas precisam de reparos e outras 425 têm de ser construídas de novo. Mais de 140 toneladas de alimentos já foram distribuídas pela Defesa Civil estadual para pessoas afetadas pelas chuvas, mas o apelo em diferentes partes do estado é o mesmo: é preciso mais ajuda.

Uma cidade que tenta se reestruturar e voltar à vida normal. Assim está Ouro Preto. No município, operários e voluntários trabalham na tentativa de abrir acessos interrompidos por barreiras de terra, recolher e entregar donativos e refazer redes de serviços básicos, como água e esgoto. O município enfrenta problemas: 221 desabrigados, 279 desalojados, três ruas interditadas, pontos com saneamento básico improvisado e um distrito quase todo sem água potável. Em Antônio Pereira, a 16 quilômetros da sede, a adutora que leva a água da nascente às casas se rompeu e a previsão é de que o abastecimento se normalize apenas hoje.

Do Centro Histórico é difícil saber a dimensão dos problemas, mas quem chega à cidade vindo de Belo Horizonte percebe o tamanho dos estragos. Logo na entrada, no Bairro São Cristovão, uma rodoviária improvisada foi montada para substituir as atividades do terminal interditado desde o dia 2 por causa do deslizamento de uma encosta. O desmoronamento provocou duas mortes. Dois taxistas foram soterrados por uma avalanche de lama e pedras.

Por causa das toneladas de terra que descerram do barranco, a Rua Padre Rolim, que liga a chegada da capital ao Centro, está interditada. Ontem, operários da prefeitura e de empresas mineradoras ainda trabalhavam na retirada da montanha de terra que destruiu também duas casas e interditou outras. Uma delas é do artista plástico aposentado Naldo Navajas, de 69 anos. "Durante o dia ainda venho aqui, mas não tem como ficar porque não há água, luz, telefone e esgoto. Tudo foi destruído", conta.

Toneladas de alimentos foram recolhidas pelo setor de assistência social da prefeitura em parceria com Agência de Desenvolvimento de Ouro Preto e voluntários mobilizados por redes sociais. Em um dos pontos de entrega, a Escola Municipal Monsenhor Castilho Barbosa, no Bairro Barra, 4,8 toneladas de alimentos foram entregues à população e muita roupa, sapatos e produtos alimentícios estão armazenados. Os pedidos agora são para que materiais de limpeza sejam doados.

Obras No Vale do Rio Doce, a quinta-feira amanheceu com sol e moradores puderam limpar casas e imóveis em que trabalham. Em Governador Valadares, onde a chuva da última semana matou três pessoas, o microempresário Ênio Ferreira Machado, de 63 anos, saiu apenas de bermuda para retirar a lama da Rua Quintiliano Costa, no Bairro Santa Rita. O barro impede que seu caminhão trafegue por ali. "Está escorregadio", diz o empresário, que perdeu móveis e roupas. A prefeitura distribui cestas básicas e organiza mutirões para a limpeza de ruas e avenidas dos 21 bairros atingidos pelas águas, mas famílias afetadas cobram a pavimentação das ruas do Santa Rita, para evitar que o problema se repita.

No Bairro Kennedy, a água ainda chega à cintura dos moradores. "Preciso enfrentar este transtorno para ir trabalhar. Não tenho como guardar minha moto em casa", lamentou o técnico em informática Nelson Rodrigues, de 33 anos. Ontem, ele e outros moradores da região, como o motorista Iolete Pereira, de 42, e o filho, Wesley Santos, de 18, cortaram as vias a pé. "Vamos ter de começar tudo de novo, como nos outros anos", resignou-se Iolete.

Moradores de Betim, na Grande BH, também falam em recomeçar. A cidade sofre nos últimos 15 dias com enchentes, deslizamentos de encostas e movimentação do solo. Das 334 pessoas que ficaram desabrigadas e outras 891 desalojadas, poucas conseguiram salvar seus pertences. A maioria delas está em abrigos temporários, principalmente no Bairro Citrolândia - que sofreu com o trasbordamento do Rio Paraopeba -, e não tem como voltar para casa.

‘Trabalho árduo' No Porto do Engenho, localidade próxima à ponte sobre o Rio Paraopeba, na divisa de Betim e São Joaquim de Bicas, o lavrador Luiz Virgínio Pinto, de 65 anos, tenta retomar a rotina. A água tomou conta da casa onde ele vive com a família, da fábrica de cerâmicas, do alambique e dos mais de 10 hectares de plantação que iriam ser sustento da família pelos próximos meses.

Mais de 70 mil tijolos prontos para serem queimados viraram lama e o prejuízo estimado por ele supera os R$ 40 mil, fora os dois meses em que a produção da fábrica ficará parada, até que eles façam a limpeza e reformem e organizem novamente o lugar. "Só não perdemos mais porque tiramos as coisas de casa, mas o trabalho para recuperar vai ser árduo", reconhece.