Cidades brasileiras reféns dos efeitos de La Ninã

Desde o final do ano passado, municípios do Rio Grande do Sul sofrem com alagamentos ou intensa seca


Seca e chuva castigam municípios do Rio Grande do Sul. Santa Catarina e o Rio ainda amargam os efeitos das fortes chuvas. Já São Paulo registrou, nesta quinta-feira (10), a madrugada mais quente desde 2008.


A população e as cidades estão reféns de fenômenos climáticos cada vez mais intensos e que agem de forma diferente às vezes em uma mesma região. A situação não é diferente no mundo. A China convive com nevascas e seca, ao mesmo tempo. Na Austrália, ciclones e enchentes devastaram cidades. Em toda a Europa, nevascas nunca vistas há décadas pararam vários países no ano passado.


De acordo com a meteorologista Morgana Almeida, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Brasil está sofrendo a influência do fenômeno La Niña - resfriamento das águas do Pacífico na costa do Peru. "Os oceanos são os grandes reguladores climáticos do planeta. Qualquer alteração na temperatura dos oceanos, as condições do clima são modificadas. É o que estamos presenciando no Rio Grande do Sul. O norte e nordeste do Estado têm excesso de chuva e a região sul, escassez", explica Morgana.


Ela garante que as variações do clima no Brasil não têm relação com a alta das temperaturas e com mudanças ambientais que ocorrem no planeta. "O que observamos no Brasil são situações típicas. Não podemos perder de vista que vivemos em um país de dimensões continentais. Tudo o que está acontecendo faz parte de um processo natural de equilíbrio atmosférico", completa.


Para Gustavo Escobar, coordenador do Grupo de Previsão de Tempo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as chuvas intensas no sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, são provocadas por uma zona de convergência de umidade que se configurou na região. "Esse canal de umidade é comum nesta época do ano e, associado a temperaturas elevadas, causa chuvas ainda mais fortes", diz o meteorologista.


Ainda de acordo com Gustavo Escobar, não se pode creditar nem mesmo a tragédia na região serrana do Rio somente às chuvas que caíram na região. "Claro que a chuva no Rio foi um pouco mais forte que o habitual, mas a culpa pela tragédia não é de nenhuma mudança climática. Estamos vivendo no Brasil um período normal de chuvas e de seca. Um conjunto de fatores contribuiu para o episódio", avalia.


Para o meteorologista, o grande problema com relação à previsão do tempo no Brasil ainda é a falta de capacidade de prevenção de eventos não muito comuns. "Há cada dez ou 15 anos, temos eventos dessa natureza: uma chuva mais intensa, uma seca mais prolongada. O Brasil precisa é aumentar sua capacidade de prever, com antecedência, essas manifestações do clima", diz.


Escobar alerta que o país precisa investir em sistemas eficientes de prevenção de eventos climáticos mais extremos, como em radares meteorológicos. Segundo o meteorologista, hoje os institutos de pesquisas climáticas podem apenas estimar um volume maior de chuva que cairá em uma região, mas não é possível medir exatamente quanto de chuva será.


"O Brasil não dispõe de radares meteorológicos suficientes para cobrir todo o território nacional. Somente com estes equipamentos teremos condições de prever, com precisão, e antecipadamente, um volume maior de chuvas. Um alerta com quatro a cinco horas de antecedência pode significar o limite entre uma tragédia e a preservação de muitas vidas", ressalta Escobar.

Jornal "Hoje em Dia", 11/2/2011