Expansão agrícola continua a ameaçar o Cerrado

Especialistas alertam para a situação de desmatamento no Cerrado, ocasionado pela expansão agrícola e ressaltam os riscos de aumento da devastação, caso as modificações no Código Florestal sejam aprovadas. Ficando atrás apenas da Amazônia, o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, com área de aproximadamente 2 milhões de metros quadrados, correspondente a 24% do território brasileiro, que equivale a Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido juntos.

"A proposta está na contramão da história", diz a gestora do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, Daniela Pantuso, sobre o texto que altera o Código.

A área preserva parte do planalto chamado Chapadão Central, divisa dos rios São Francisco e Tocantins, e é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A gestora alerta que "sem proteção e fiscalização, as próximas gerações vão ter de arcar com o ônus da destruição".

Monitoramento realizado pelo Ibama indica redução de 51,16% da vegetação nativa em 2009, para 50,84% em 2010. "Os números são extremamente conservadores", afirma o engenheiro florestal César Victor do Espírito Santo, superintendente da Fundação Pró-Natureza (Funatura), que acompanha a situação do Cerrado há 25 anos. Ele afirma que estão intactos apenas 20% do bioma.

Lei não privilegia proteção do bioma

A lei brasileira permite o desmate de oito em cada dez hectares das propriedades rurais no Cerrado, enquanto na Amazônia é permitido desmatar dois em cada dez hectares de floresta. Entre 2002 e 2008 foram desmatados mais de 14 mil quilômetros ao ano do bioma, segundo estatísticas do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

"Com a política focada na preservação da região amazônica, houve um desvio da expansão agrícola para o Cerrado", explica o engenheiro florestal Michael Becker, coordenador do Programa Cerrado-Pantanal da WWF-Brasil.

Expansão agrícola x importância ecológica

A vegetação original do Cerrado está cedendo espaço para plantios de soja, algodão e cana-de-açúcar, além de pecuária extensiva, geração de energia e urbanização. Saem do Cerrado 25% da produção nacional de grãos, quatro de cada dez cabeças do rebanho bovino e metade das quase 10 milhões de toneladas de carvão vegetal produzida por ano no país.

A área contínua do Cerrado estende-se sobre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além de encraves no Amapá, Roraima e Amazonas. No bioma encontram-se nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica-Tocantins, São Francisco e Prata. A localização central do Cerrado, combinada com a elevação topográfica e alta concentração de nascentes, favorece a biodiversidade, onde estão concentradas 5% da flora e da fauna mundiais.

Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma mais agredido com a ocupação humana. Com a crescente pressão para a abertura de novas áreas, especialmente para suprir a demanda por carne e grãos para exportação, tem acontecido progressivo esgotamento de seus recursos naturais.

O baixo custo das terras na região de ocorrência do Cerrado atraiu fazendeiros, formando a nova fronteira agrícola, composta pelo Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O resultado da utilização das terras para o agronegócio foi o aumento do desmatamento, que chegou a 65% entre 2009 e 2010, o que equivale a 4,2 mil quilômetros quadrados do bioma.