O agrotóxico nosso de cada dia

Na feira, verduras, frutas e legumes são um atrativo aos olhos, mas nem sempre fazem bem à saúde. Cor bonita e bom tamanho podem esconder uma armadilha chamada agrotóxico. É o que constata o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), segundo o qual 28% das amostras pesquisadas apresentaram níveis de pesticidas acima do permitido pela legislação brasileira ou resíduos de produtos não autorizados. Na verificação por estado, Minas Gerais é o segundo com a maior porcentagem de toxinas (34,2%), atrás apenas do Rio de Janeiro (39%).

A pesquisa foi feita ano passado, com amostras de 18 alimentos: abacaxi, alface, arroz, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, feijão, laranja, maçã, mamão, manga, morango, pepino, pimentão, repolho e tomate. A escolha das culturas se baseou nos dados de consumo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na disponibilidade desses alimentos nos supermercados dos diferentes estados e no uso intensivo de agrotóxicos nessas culturas. No total, foram analisadas 2.488 amostras.

A pesquisa dos alimentos tem o objetivo de verificar se os produtos comercializados têm a qualidade exigida pela lei que autoriza o uso dos agrotóxicos e se os limites máximos de resíduos estão de acordo com o estabelecido pela Anvisa. O programa começou em 2001 com o objetivo de estruturar um serviço para avaliar a qualidade dos alimentos e implementar ações de controle de resíduos.

O vilão dos agrotóxicos em todo o país foi o pimentão: 84,9% das amostras apresentaram produto tóxico. Em Minas Gerais, todos os pimentões analisados estavam fora das normas. Na sequência, aparecem o pepino, a laranja e a cenoura, o morango, o abacaxi, a alface e o mamão, a couve, o tomate e o arroz. Entre os produtos que não causam problemas para a saúde, apenas a batata, a beterraba, a cebola, o feijão, a manga e o repolho.

Ilegalidade A Lei de Agrotóxicos e Afins Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989, estabelece que os pesticidas só podem ser usados no Brasil se forem registrados em órgãos federais competentes: Ministério da Saúde, por meio da Anvisa; da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Meio Ambiente, por meio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A Anvisa tem, entre outras competências, a de avaliar e classificar toxicologicamente os agrotóxicos, e juntamente com o Mapa controlar os resíduos de pesticidas. É a agência que estabelece ainda o Limite Máximo de Resíduos (LMR), avaliado nos 18 alimentos da pesquisa.

No relatório publicado pela Anvisa sobre o levantamento, a agência informa que o uso indiscriminado e ilegal de uma ou mais substâncias tóxicas tem duas consequências negativas. A primeira é a exposição do trabalhador rural ao produto tóxico e a segunda são os riscos para os consumidores, "que se agrava à medida que esse agrotóxico é encontrado em um número maior de alimentos comercializados".

O documento cita ainda dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006, que mostram quais fatores potencializam o risco de uso inadequado dos agrotóxicos e a contaminação dos alimentos. Mais da metade dos estabelecimentos onde houve uso de agrotóxicos (785 mil) não houve orientação agronômica. Das propriedades que receberam assistência (172 mil), 76,7% usaram pesticidas.

Perigo A mestre em saúde pública e professora de Nutrição da Newton Paiva, Tatiana Rangel, diz que os danos à saúde dependem do tipo de substância usada. "Cada uma atua de modo diferente. Algumas se acumulam no organismo à medida que são ingeridas. Dependendo do produto, há dano celular, cujas lesões são causadas por radicais livres", diz. Para o produtor, o problema pode ser ainda mais intenso: "Para quem está manipulando, a intoxicação ocorre pela pele e pela respiração. Dependendo do produto, a pessoa pode morrer".

Os números da Organização Mundial de Saúde (OMS) expõem o perigo e as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), grupo ao qual as enfermidades causadas por pesticidas se enquadram. Segundo a OMS, as DCNTs são responsáveis por 63% das 57 milhões de mortes declaradas no mundo em 2008, e por 45,9% do volume global de doenças.

A organização prevê, ainda, um aumento de 15% no número de óbitos por essa causa entre 2010 e 2020. No Brasil, essas doenças teriam causado, ainda segundo a OMS, 893.900 mortes em 2008 (74% do total de mortes). Em cerca de 30% dos casos, afetariam pessoas com menos de 60 anos.

"O problema não é da pessoa na casa dela, é de política pública e de vigilância sanitária. Alguns produtos liberados aqui não são em outras partes do mundo e há pessoas que não compram pesticidas com orientação de agrônomos. O governo deve garantir que o produto que chega a nossa casa esteja dentro da legislação", cobra Tatiana Rangel, acrescentando que soluções caseiras nem sempre adiantam. "Retirar a casca não ajuda muito, pois em vários casos o agrotóxico penetra no alimento." A Secretaria de Estado de Saúde não comentou a pesquisa, alegando que a equipe técnica ainda vai avaliar os dados.

NÚMERO
56,3%
dos estabelecimentos que utilizaram agrotóxicos não tiveram orientação agronômica, segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006

Mais saúde à mesa

Quem quer se proteger dos perigos dos pesticidas não tem outra saída a não ser investir pesado na alimentação. Essa foi a opção da curadora e cineasta Ana Siqueira, de 32 anos, que há três faz feira orgânica regularmente. No fim de semana, a moradora do Bairro Santo Agostinho, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, escolhe no site do produtor as variedades de frutas, verduras, legumes, grãos e outros gêneros que são entregues em casa toda terça-feira.

"A qualidade é diferente. São produtos mais saborosos e as folhas, principalmente, duram mais. Com eles, fico conectada com as estações e as safras, sabendo qual é a época de cada alimento. Não adianta comprar morango o ano inteiro, porque ele estará grande, vermelho e bonito, mas será bombado, sem gosto ou com sabor de remédio", afirma.

O nascimento das duas filhas também foi fator importante. "Essa é mais uma razão para eu achar que vale a pena pagar mais caro", ressalta. Com os produtores de Entre Rios de Minas, na Região Central, a 110 quilômetros de Belo Horizonte, a relação é sempre direta. "É muito bom saber de onde vem o que comemos. Conversamos com essas pessoas e o fato de vir de perto contribui para o meio ambiente, pois o transporte gasta menos gasolina e emite menos CO2", diz.

Umas das responsáveis pela Da horta, a agricultora Teresa Rolim Andrés, conta que os pais decidiram investir na produção orgânica há 10 anos. "Plantávamos para consumo próprio, mas percebemos a demanda na região e de quem mora em BH por produtos mais saudáveis. Sabemos de muitos casos de gente que produz com agrotóxico. Muito pouco é falado, mas os efeitos são devastadores", afirma.

No caso de Ana Siqueira, a feira tem que ser completada toda semana, por causa da variedade e do preço, que é acima da tabela convencional. É isso que desanima a aposentada Fátima Alves, de 54. Dentre os produtos com menos pesticidas, ela consome apenas a alface hidropônica. "Se a gente for se preocupar com a origem dos alimentos, não há bolso que aguente. Não há dona de casa que sustente os orgânicos", diz.

Para a doméstica Odete Mariano Silva, de 43, o cuidado é comprar sempre no sacolão em que ela confia, no Bairro Gutierrez, na Região Oeste de BH. "Acredito que aqui vendem produtos de qualidade e, como é saúde que está em jogo, tenho que me preocupar. Mas, em BH, não sei nem onde comprar produtos que não usam agrotóxicos", afirma.


Áreas contaminadas

Minas Gerais tem 490 áreas contaminadas, sendo os postos de combustíveis os principais responsáveis (71%). Os dados fazem parte do Inventário de Áreas Suspeitas de Contaminação e Contaminadas do Estado de Minas Gerais e da Lista de Áreas Contaminadas e Reabilitadas de 2011, divulgado pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam). A região com problemas é caracterizada principalmente pela presença de substâncias químicas no solo e nas águas subterrâneas, geralmente decorrentes de atividades humanas. Essas substâncias podem ser constituídas de resíduos depositados, acumulados, armazenados, enterrados ou infiltrados de forma planejada ou acidental no solo. O gerente de Áreas Contaminadas da Feam, Luiz Otávio Martins Cruz, informou que nem todos os pontos afetados representam risco, que só ocorre se as concentrações de contaminantes excederem determinados limites considerados aceitáveis e se houver receptores sensíveis.