Renovação do Protocolo de Kyoto em debate

Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas (COP-17) entrou ontem em sua segunda semana com indícios de que o Protocolo de Kyoto - único pacto legalmente vinculante que obriga os países ricos a reduzirem as emissões de gases poluentes e cuja vigência termina no ano que vem - pode ser renovado. A estratégia parece ser a única possível para que o mundo não fique sem uma legislação internacional que aborde o tema, uma vez que as negociações para um novo acordo não tiveram avanços significativos nos últimos anos.

Os sinais positivos para a renovação do documento vieram da secretária-executiva da ONU para Mudanças Climáticas, Christiana Figueres, e da comissária europeia do clima, Connie Hedegaard. A primeira afirmou à imprensa que as discussões têm girado mais em torno de "como" o documento será renovado do que "se" ganhará uma extensão. Por sua vez, Connie expressou claramente a intenção da Europa de renovar o texto.

Porém, como também ocorreu nos anos anteriores, uma série de entraves precisam ser superados para que o objetivo seja alcançado. A comissária europeia reivindicou que os grandes emissores do planeta também assumam um compromisso de longo prazo. "Não podemos continuar tendo grandes emissores obrigados a cortar suas emissões e outros que agem voluntariamente", disse, em referência aos fatos de o documento não prever metas obrigatórias a nações em desenvolvimento (como China e Brasil, dois dos 10 maiores poluidores) e de os Estados Unidos nunca o terem ratificado.

Os americanos seguem como o maior obstáculo às negociações, resistindo a assumir um documento que os obrigue legalmente a reduzir suas emissões. A posição gera críticas de organizações ambientalistas. "Se os Estados Unidos insistem em impulsionar este perigoso caminho, que fiquem de um lado e permitam que os outros países avancem. Os mais pobres, que já sofrem o impacto das mudanças climáticas, não podem esperar", criticou Celine Charveriat, diretora da ONG Oxfam. A resistência dos EUA pode fazer com que Rússia, Canadá e Japão se recusem a renovar o documento.

Já a China deu um passo à frente, ao indicar que está disposta a assumir um acordo legalmente vinculante de redução de emissões a partir de 2020 caso os países ricos renovem Kyoto e acelerem o financiamento para ajudar as nações em desenvolvimento a enfrentar as mudanças climáticas. "Penso que a China começou a dar a resposta sobre como conseguir um segundo compromisso no Protocolo de Kyoto", elogiou a presidente da conferência e chanceler sul-africana, Maite Knkoana-Mashabena.
Himalaia Em meio às discussões, novos estudos reforçam a tese de que o aquecimento global está afetando a natureza de maneira perigosa. Segundo pesquisas publicadas em três relatórios do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod), com base em Katmandu, as geleiras do Himalaia diminuíram 21% no Nepal e 22% no Butão nos últimos 30 anos. As análises, reveladas domingo, são a primeira confirmação oficial sobre o derretimento das geleiras, após várias declarações empíricas. "Esses relatórios fornecem um novo ponto de comparação e informações sobre as zonas geográficas específicas para compreender a mudança climática em um dos ecossistemas mais vulneráveis do mundo", comentou o presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o indiano Rajendra Pachauri. As 54 mil geleiras do Himalaia alimentam com água os oito maiores rios da Ásia.