Lixo Radioativo

Fechada há 15 anos, a Unidade de Tratamento de Minério (UTM) das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Caldas, no Sul de Minas, está na mira da Justiça. A pedido do Ministério Público Estadual (MPE), o juiz Edson Zampar Jr., da Comarca de Caldas, concedeu, em meados de outubro, liminar obrigando a INB a adotar medidas de segurança para o tratamento de rejeitos nucleares resultantes da extração de urânio e o armazenamento adequado do material radioativo vindo de São Paulo. O juiz estipulou prazo de 90 dias para o cumprimento das determinações da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e multas milionárias no caso de descumprimento.

Ofícios de inspeções da CNEN e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de 2008, relatam a existência na cidade de recipientes corroídos, entre 40 mil tambores metálicos e bombonas; falta de manutenção dos pallets que as sustentavam e material radioativo derramado no chão, além de problemas no sistema de isolamento dos galpões de armazenamento, em precárias condições.

Por meio de nota, o INB informou que a ação civil publica "veio abreviar o prazo de construções de novos galpões e novas embalagens, previstos no Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), que a INB contratou com uma empresa de renome internacional. De acordo com o contrato, o Plano será entregue em junho deste ano; trata-se de um plano muito específico, já que são raríssimas no mundo as aplicações de planos de recuperação de áreas degradadas por urânio". Além disso, garantiu que, embora o sistema de estocagem não esteja no padrão ideal, "não oferece riscos nem à saúde dos trabalhadores nem às populações residentes no entorno. A empresa está acatando as recomendações do Ministério Público para que a estocagem desses resíduos seja feito no padrão de engenharia exigido pelos órgãos fiscalizadores".

ÁGUAS ÁCIDAS  - Desativada em 1995, depois de 13 anos em funcionamento, a mineradora produziu 1,2 mil toneladas de concentração de urânio, o chamado yellowcake (U3O8), que abasteceu a usina de Angra 1. Atualmente, a antiga mina a céu aberto deu lugar a um enorme lago de águas ácidas, que se formou em cava com cerca de 180 metros de profundidade e 1,2 mil metros de diâmetro. Apesar de prevista e necessária, a operação de descomissionamento não foi iniciada e o medo da população local e ao redor é de uma possível contaminação devastadora.

Antes de se tornar um passivo de grandes proporções, com seus 1,4 mil hectares, a unidade foi o primeiro complexo de extração e concentração de urânio no Brasil. Há ali todo o parque industrial desativado, bacia de rejeitos e depósitos de armazenamento de materiais radioativos "aproximadamente 11 mil toneladas de torta 2 (concentrado de urânio e tório) e outras milhares de toneladas de mesotório", que foram transferidos há duas décadas da Usina de Santo Amaro (SP) para a unidade.

A indefinição em relação ao acondicionamento dos rejeitos e materiais e o receio de riscos para o meio ambiente no entorno embasaram uma investida judicial contra a INB, antiga Nuclebrás, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia e responsável pela cadeia produtiva do urânio no Brasil.

 

Jornal "Estado de Minas", 1/2/2011