MUITOS SUJAM POUCOS LIMPAM TODOS RECLAMAM

Toda segunda-feira o empresário Ronald Neumann, de 62 anos, é surpreendido por uma montanha de lixo em frente ao local de trabalho, no Bairro Santa Efigênia, Região Leste de Belo Horizonte. Ontem, ele encontrou dois sofás velhos, restos de construção, calçados, bolsas e vários sacos de lixo. E o que é pior: em cima da boca de lobo. Pode parecer muito, mas essa é apenas uma amostra do que a falta de consciência de parte da população é capaz de fazer. Em média, a cada mês são arrancadas dos bueiros da cidade 345 toneladas de toda espécie de sujeira, por uma equipe que ontem retirou até um cavalo morto das galerias que deviam servir para escoamento de água em caso de chuva.

O resultado pode ser visto nas inundações que se repetem em várias regiões da cidade a cada temporal, e que podem prejudicar as mesmas pessoas que colaboram com a sujeira. Belo Horizonte tem 74.070 bocas de lobo, que são limpas a cada dois meses. O serviço é reforçado na época da chuva. Em algumas ruas do Hipercentro, onde é maior o tráfego de pessoas e o desrespeito, os garis chegam limpar os pontos de escoamento três vezes por semana, usando pás e enxadas.

De acordo com o gerente de Limpeza Urbana da Regional Centro-Sul, Denilson Pereira Freitas, o Centro da cidade concentra o maior número de bocas de lobo, 15 mil no total. "Por mês, limpamos 11 mil delas. Tiramos copos descartáveis, garrafas, papel, sapatos, roupas, espetos de churrascos, tudo o que se possa imaginar", disse. Ontem, as equipes retiraram um cavalo morto que foi jogado em uma galeria de esgoto da Avenida do Cardoso com a Avenida Mem de Sá, no Aglomerado da Serra. "O animal foi deixado bem na entrada da galeria, que poderia entupir, provocando transbordamento na rua", disse.

O desrespeito se repete em áreas nobres. O acúmulo de lixo nas bocas de lobo também causa inundações na Avenida Prudente de Morais, no Bairro Cidade Jardim, e na Rua Joaquim Murtinho, no Santo Antônio. "Essas vias ficam em regiões muito baixas e a enxurrada desce os morros carregando todo o lixo que acha pelo caminho, obstruindo bocas de lobos e entupindo bueiros", disse Denilson, ressaltando que se não fosse o trabalho preventivo o problema seria maior.

De acordo com o gerente de Limpeza da Centro-Sul, as ruas dentro do perímetro da Avenida do Contorno são varridas todos os dias. Em outras da região, a limpeza varia de uma a três vezes por semana, mas a população não contribui, reclama Denilson. "Falta educação. A gente pede, faz campanhas, mas elas não surtem efeito. As pessoas continuam colocando lixo na rua fora do horário da coleta e em locais inapropriados, como no chão, fora das lixeiras. Também jogam restos de construção, móveis e eletrodomésticos usados, podas de árvores e até animais mortos. Vai tudo para as bocas de lobo e para as galerias", reclama.

José Leomar Pereira Rosa, de 38, é gerente de uma padaria na esquina da Rua Uberlândia com Avenida Pedro II, no Bairro Carlos Prates. Ele conta que faz de tudo para manter a frente do estabelecimento limpa, mas o comerciante em frente não pensa como ele. "Ensaco meu lixo e guardo no depósito. Só coloco para fora quando chega o caminhão da coleta", disse, apontando o mau exemplo do outro lado da rua, onde o lixo encobre a boca de lobo. "Eles deixam o lixo na calçada até nos dias em que não há coleta", lamenta José Leomar. "Quando chove, a enxurrada desce com o lixo e entope a grade do bueiro. A rua fica inundada", disse .

O que escapa da limpeza e consegue entrar pelas bocas de lobo vai parar nos córregos. "A gente remove aparelhos de TV, geladeiras, sofás, máquinas de lavar, armários, pias. Sai de tudo. Na Região Centro-Sul são seis córregos e eles já foram limpos pelo menos cinco vezes este ano. Os próprios moradores que moram às margens jogam lixo e depois sofrem com inundações ", disse Denilson. Após cada limpeza, segundo ele, funcionários da SLU percorrem casas para conscientizar os moradores, mas o trabalho é em vão.