Artigo - Maurício Lara - Estado de Minas

A união de esforços de oito municípios da Zona da Mata mineira e dois fluminenses para equacionar a destinação do lixo urbano é moderna e pode ser uma espécie de ovo de Colombo a ser aplicado na busca de solução para o grave problema. A capacidade do ser humano de produzir lixo na vida atual é impressionante. Quem duvidar que observe a sua própria casa e, se puder, faça um exercício de memória para lembrar como era a situação há uns poucos anos.


Deem um passeio pela infância e constatem como o lixo orgânico era aproveitado. Da alimentação de porcos até a adubação de hortas, nada se perdia. Latinhas viravam vasos e, com pequenos furos, não acumulavam água para a proliferação dos mosquitos transmissores da dengue. E o plástico... Que plástico? As embalagens eram de papel e papelão e, até para buscar pão na padaria, o cliente levava sua sacolinha de pano, quase sempre muito bem lavada e engomada. Agora, tudo é jogado fora e vira problema para a prefeitura e, de resto, para toda a humanidade.


A informação dando conta de que 45% dos 853 municípios de Minas ainda depositam seus rejeitos em lixões é chocante. Apenas um em cada quatro municípios conta com aterro controlado que, ao que se sabe, nem é o ideal. Está claro que as autoridades públicas, em todos os níveis, têm que pesar pesado, porque o problema não pode esperar. Se produzimos cada vez mais lixo, temos que ter cada vez mais capacidade de dar um jeito nele.


Vai longe o tempo em que dar um jeito era jogar em um lugar qualquer, para gáudio dos urubus e para oferecer a deprimente cena de famílias inteiras vivendo de restos e disputando comida com os animais. Por outro lado, a solução técnica está disponível. Se os prefeitos se queixam de que a solução é cara, além da capacidade de investimento e custeio dos municípios, que se unam, como estão fazendo as cidades que formam consórcios.


Não pode é adiar o problema e nem justificar a omissão com a falta de dinheiro. Disse um deles: "A Promotoria de Justiça fica em cima da gente, mas o município não tem como arcar com um aterro sanitário". Ora, tem de ser feito e ponto final. Não há alternativa, porque a humanidade não teve o cuidado de preparar um plano B. Ou nos livramos do lixo de maneira adequada ou o lixo se livra de nós afogando todo mundo em uma montanha de detritos. Pode parecer exagero, mas isso não é assunto para ser relegado a segundo plano.


Quando os prefeitos conseguem se sentar à mesa e buscar a solução definitiva, é como se aparecesse uma luz no fim do túnel. É um sinal de que os mandatários vão deixando a verborreia do discurso politicamente correto de proteção ao meio ambiente para lançar mãos à obra. Na esteira da iniciativa, surgem ações ligadas à coleta seletiva, parceria com catadores e carroceiros e a construção de usinas de triagem.


No consórcio das cidades mineiras e fluminenses, uma novidade importante: a travessia da fronteira dos estados, além das municipais. Lixo, poluição, doenças, nada disso conhece fronteiras ou limites territoriais. É natural e desejável, portanto, que os limites sejam eliminados também na hora de buscar a solução. São dez cidades pequenas, mas somada a população de todas elas, chega-se a 135 mil pessoas beneficiadas. É muita gente.

Jornal "Estado de Minas", 04/01/2011