Dejetos transformados em gás

A ideia é levar esse projeto piloto às estações de tratamento de esgoto espalhadas por todo o território cearense

Desde junho, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) aproveita os resíduos da Estação de Tratamento de Efluentes do Aracapé para utilizá-los na geração de energia elétrica, evitando assim contribuir para o agravamento do chamado efeito estufa e gastando menos energia convencional.

O monitoramento da estação no tocante à produção do gás já acontece há um ano, conforme o biólogo da Companhia Silvano Porto Pereira. "O início do uso do gás se deu só no fim de junho último. A motobomba passou a exercer a função das eletrobombas. Ainda nesta semana, vamos passar a operar um gerador a biogás e algumas luminárias. O nosso propósito é de que a estação sirva de aprendizado, teste e avaliação de algumas tecnologias para esse gás. Antigamente, ele era produzido e liberado para a atmosfera, ou seja, desperdiçado".

Esse desperdício, conforme lembra Silvano, ajudava a provocar o mais efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global. "Com o projeto, estamos avaliando qual a melhor maneira de aproveitar esse gás".

O processo se inicia na estação de tratamento, para remover resíduos sólidos, lixo e areia. Após essa fase preliminar, o esgoto é bombeado para dentro de dois reatores anaeróbicos: é onde começa o tratamento e conversão da matéria orgânica em lodo, que é secado e enviado para o aterro sanitário", conta Silvano.

O outro elemento desse processo é o biogás, que tem na sua constituição como principal componente o metano, o gás natural, o mesmo que se usa nos veículos, porém com algumas diferenças, de acordo com o biólogo. "Enquanto no gás natural veicular a composição de metano é de 89% e mais a ajuda de outros gases que melhoram a queima, aqui no biogás é produzido em média 75% de metano. É uma concentração menor mas acima do que se podia esperar".

Remoção

Silvano frisa ainda quanto à composição que, "além de haver uma concentração menor de metano, esse gás é um pouco sujo, há alguns compostos que podem reduzir a vida útil dos equipamentos: é o gás sulfídrico. Há necessidade de remover uma parte dele para evitar esse tipo de problema. Isso é feito através de um tratamento químico, com cloro, e depois com uma filtragem de material sólido para, só então, ele ser queimado no equipamento".

Segundo a Cagece, o objetivo do piloto foi implementar o uso em escala real e ao mesmo tempo analisar parâmetros e variáveis para a replicação do projeto em estações maiores. "Está prevista uma estação dez vezes maior do que essa para ser inaugurada esse mês com produção de gás para o início do próximo ano. Já estamos especificando os equipamentos para instalar em 2012", revela Silvano.

Após a produção, o gás passa por uma lavagem e, antes de ser armazenado, é conduzido para um medidor volumétrico que revela o volume, a fim de que possa ser avaliado o potencial de produção, para ver se o sistema está funcionando a contento. "Ao sabermos qual a vazão de esgoto que chega à estação, temos como fazer uma estimativa com vistas a um sistema que envolva uma vazão de gás maior", enfatiza.

Durante o processo, algumas amostras de gás são recolhidas para se analisar sua composição e qualidade, já que o medidor averigua apenas o volume. "Mandamos fazer a análise química. O que passou pelo medidor fica acumulado no gasômetros, que é essa bolsa de borracha. A produção média oscila de 1,1 metro cúbico por hora, à noite, quando a vazão de esgoto diminui, baixa a temperatura um pouquinho e a produção é menor, até três metros cúbicos por hora. O pico chega a quatro metros cúbicos, entre as 10 horas e as 14 horas, quando a produção se acelera".

Clima favorável

Silvano destaca que "quanto maior a temperatura, maior é a eficiência do sistema. Isso é uma característica da nossa região, bastante favorável. Esse processo é tido como inviável para clima frio, onde a produção de gás é muito pequena. Em locais como na Europa ou mesmo o Sul do País, é necessário aquecer o esgoto, pois a temperatura ambiental é de dez graus em média e tem que ser aquecido a pelos menos vinte graus para apresentar uma produção boa. Além disso, tem que voltar para o sistema em forma de calor. Aqui isso não é necessário. No nosso monitoramento, temos uma média de 30 graus".

Silvano assevera que o Brasil é referência nessa tecnologia. "Por conta do nosso clima, houve um desenvolvimento rápido das pesquisas nas universidades e muitos países nos procuram para aprender conosco". Conforme dados levantados desde o ano passado, quando o processo de monitoramento foi iniciado, a estação produz em média 870 metros cúbicos por mês, muito acima do que está sendo usado. Para se ter uma ideia da discrepância, de 15 de julho a 15 de setembro de 2011, foram consumidos pela motobomba apenas 280 metros cúbicos. Vale salientar que o equipamento, por ser operado manualmente, funciona apenas de segunda a sexta-feira, das oito às 17 horas.

Asfalto

Outra iniciativa da Cagece com vistas a resguardar o meio ambiente é o reaproveitamento do asfalto retirado para a realização de obras nas ruas de Fortaleza. De 2009 até agosto último, nada menos do que 11,7 mil toneladas de camada asfáltica foram destinadas a uma empresa que reutiliza o produto. Por meio dessa prática, evita-se que o entulho gerado após as intervenções da Companhia seja despejado em locais inapropriados, como. A iniciativa também ajuda a reduzir a poluição na produção de derivados de petróleo.

Produção

870 Metros cúbicos por mês é o que produz a estação de esgoto da Cagece, o que corresponde a 29m³ por dia e até 3m³ por hora de biogás, segundo dados levantados desde 2010