Verde na moda o estilo sustentável

Na esteira dos avanços para conter o aquecimento global, a moda também se engajou na luta pela preservação ambiental. Entre a doutrina ortodoxa de alguns ambientalistas e a realidade da produção cotidiana, a criatividade dos estilistas busca soluções possíveis para essa equação. É o chamado Verde na moda.


Além de definir um comportamento fashion, a expressão virou também o nome de mostra sobre o assunto, que está sendo apresentada no segundo andar do Ponteio Lar Shopping até 4 de janeiro de 2011 e na qual estilistas conhecidos, novos designers e grifes em expansão revelam meios & métodos para pensar e fazer moda com um olhar sustentável.


Para entender o conceito é preciso dizer que, muito mais que criar produtos com materiais recicláveis , a sustentabilidade envolve a cadeia de produção, o ciclo de vida dos produtos , o comércio justo e o apoio socio-econômico à mão de obra utilizada. Mas é preciso ir além e envolver aspectos culturais, saberes territoriais e restaurar o valor das aptidões artísticas locais.


Objetivos São objetivos que a mostra Verde na Moda enfatiza ao reunir trabalhos que representam vários estágios da cadeia produtiva fashion - sempre com o viés ecossustentável. Assim, o guarda-chuva descartado virou imensas flores plissadas na criação de Luiz Cláudio (Apartamento 03); a tradicional palma metalizada de Sabará se transmutou em elemento fashion na proposta de Victor Dzenk; as palhas de buritis e madeiras trabalhadas confirmaram o compromisso ecológico de Mary Design; a marchetaria de ossos no sapato de Paulo Bahia transformou o tosco em refinado e as bolsas de sacos de cimento, com alta performance de design, criadas por Rogério Lima, consolidaram um exemplo já clássico na moda mineira, de como o lixo pode virar luxo ecossustentável.


Nessa mesma linha, a recuperação de pneus velhos revelou que esse material pode ganhar leveza e ter utilidade fashion. Os reponsáveis por isso foram o designer Wallace Barros, com seus colares, pulseiras e anéis de encaixes, e a estilista Viviane Modesto - com seus vestidos vazados e detalhes em fios de látex.


Numa outra vertente ecológica, o couro livre de cromo foi usado pelas marcas Trapézio (nas bolsas) e pela Evidence (nos sapatos), destacando a sua textura de cobra com um toque natural e macio.

Ecodesign O núcleo da Produção Limpa ficou por conta da grife Contatos, que se engajou no esforço ecossustentável com uso criativo dos seus descartes têxteis. Para Lourdinha Martins, proprietária da marca, "isso agrega valor ao nosso produto, enriquece nosso design e nos integra a um esforço pró-ecologia essencial nos dias atuais". Para isso, ela firmou parceria com a artista têxtil Ivone Lobato, que usou o processo fit laser (criado por ela) para transformar pedaços e tiras de tecidos em elementos fashion de alto impacto visual e refinado acabamento.


Enquanto isso, o coletivo Miho aplica o princípio do ecodesign desde a criação das embalagens em papel reciclado e impresso em um antigo linotipo até a elaboração de objetos decorativos com tecidos pet e a coleção de moda em algodão processado naturalmente. Nas estampas, o grupo formado por Tiago Castro, Pedro Franco e Rafael Quick envia variadas mensagens ecológicas. Já a grife Insanas mostrou pinturas e o bordado richelieu sobre tecido pet, enquanto a Raiz da Terra (pioneira no assunto) enfatizou sua produção verde com tecidos sem tratamentos químicos.

Mercado - A transformação desse conceito em produto de mercado foi o tema da palestra Design aplicado: arte & negócios, proferida pelo artista Wallace Barros - que indicou "a necessidade de conciliar criatividade com determinação para se chegar a um produto adequado ao mercado e desejado pelo consumidor, porém com viabilidade econômica". Para Denize Pinho, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-MG) - um dos apoiadores da mostra -, "enxergar a moda com um olhar sustentável representa um avanço de mercado, um diferencial criativo e uma atitude coerente com o mundo moderno". Posição similar tem Mônica Bicalho, do Centro Minas Design (outro apoiador), para quem "a vertente ecossustentável deve nortear os rumos do fashion design".


Para compor o cenário da mostra, o consultor e produtor de moda Rodrigo Cezário usou os lançamentos da IMA Têxtil em tecidos peletizados. A mostra tem apoio, também, do Sindicato das Indústrias do Vestuário no Estado de Minas Gerais (Sindivest-MG) e Ponteio.

 

Jornal "Estado de Minas", 27/12/2010